“Eles acabavam me relatando coisas que guardavam em suas memórias, como o ano que nasceram, suas infâncias, a convivência com os pais e como foram perdendo suas famílias”, diz a funcionária pública Mara Hermes, enfatizando o que é o mundo dentro das instituições de longa permanência, conhecidas popularmente como “asilos” – e, mais a fundo, as histórias incríveis resgatadas de memórias que estavam se apagando no tempo.
Mara abraçou esse universo há cinco anos, como psicóloga especialista em saúde do trabalhador, e registrou em fotografias técnicas o cotidiano, o ambiente e esses moradores até então anônimos. Mas, já tendo experimentado a arte fotográfica em outras situações, viu nessas instituições uma maneira crua e, ainda assim, delicada de traduzir em imagens “a beleza da velhice, juntamente com a vulnerabilidade da idade”.
O resultado é uma coleção com 20 imagens, apresentadas na exposição “Mundo Invisível”, que será aberta amanhã, um dia depois do Dia do Idoso, às 10h, no Centro Cultural Sesc Boulevard. A fotógrafa denomina seu trabalho como “um documentário fotográfico” para o qual trouxe a nomenclatura “Invisível”, de forma a deixar ainda mais expostas as questões sociais que têm permeado o envelhecer diante de uma sociedade tão avançada tecnologicamente, mas que vem retroagindo em suas relações afetivas.“
É notório que os olhos sociais pouco alcançam o lado de dentro desse mundo conhecido popularmente como ‘asilo’, porque, se os olhares conseguissem ver além dos muros, poderiam constatar que decerto há solidão causada pelo afastamento dos laços com a família, porém, em cada ser existente nesses abrigos há mundos cheios de vida prontos para serem resgatados e compartilhados com alegria”, diz ela.
Foi em janeiro do ano passado que a fotógrafa se propôs a percorrer – ao longo de 15 dias – todas as quatro instituições deste gênero que existem em Belém. “Apenas duas imagens da exposição não são deste período, e sim de 2010”, afirma. Ainda sem pensar em uma exposição, ela precisou voltar depois em cada um desses lugares, encontrando total aprovação para exibir o trabalho.“
São fotos sutis, através das quais não é possível reconhecer o idoso”, diz ela, supondo que isto pode ter facilitado a aceitação entre os diretores das casas e os fotografados. E foi nesta volta que ela realmente teve a oportunidade de conhecê-los além das imagens. “Em alguns casos, quando fui mostrar as imagens e conversar, pedindo autorização para incluir na exposição, surgiam conversas muitos espontaneamente. Cada uma dessas pessoas tem um mundo para te relatar, trazendo, inclusive, junto à sua vida, memórias de Belém do Pará”.
Mara conta que fez seus registros furtivamente: “Estive apenas por poucos minutos, em um único dia, em cada uma das instituições. Foram fotos feitas em momentos cruciais. Ou fazia quando a cena se apresentava ou não fazia mais. Fiz sem que eles percebessem que estavam sendo fotografados, porque assim sai muito mais espontâneo. Eu não sei arrumar uma cena e, se você vai fazer um documentário, não interfere ou cria cenas”.
Em algumas obras, é possível ver questões como o estado de solidão, sem que necessariamente uma pessoa esteja presente na imagem. E, pelo resultado ao qual chegou, Mara pretende continuar nesse segmento, retratando a beleza e a tristeza do envelhecer. “Há muito ainda o que se extrair e conhecer sobre o universo dos idosos residentes ou não em instituições asilares”, afirma. A mostra faz parte da ação “Percurso”, idealizada pelo Núcleo de Fotografia do Sesc Boulevard, que visa oferecer a um autor que tenha a fotografia como principal linguagem, a oportunidade de compartilhar com o público o seu percurso de criação.
Já a ideia da mostra veio após a “Leitura de Portfólio”, atividade realizada regularmente pelo núcleo e que faz parte das ações educativas e culturais referenciadas na coleção “Máquinas para Filosofar”, com o objetivo de atender fotógrafos que estejam buscando opiniões sobre seus trabalhos, principalmente no que se refere a linguagem e edição.
“Quando eu apresentei ‘Mundo Invisível’ ao Sesc para leitura de portfólio, o meu objetivo era receber orientações sobre o meu trabalho. Eu buscava uma opinião profissional sobre o mesmo, e receber o convite para expô-lo foi uma satisfação imensa. Desde então, cada etapa vivenciada durante os preparativos para a exposição foi valiosa”, considera a artista.
Mara conta ainda que seu primeiro contato com a fotografia ocorreu durante a juventude, quando morou por alguns anos na Ilha do Marajó, na década de 1970. O retorno a esta paixão veio apenas em 2008, quando ganhou do filho uma câmera digital compacta. Mas, desde então, a paraense já participou de três mostras coletivas e tem em “Mundo Invisível” a oportunidade de sua primeira exposição individual.
VISITE
Exposição “Mundo Invisível”, de Mara HermesAbertura: domingo (28), às 10hVisitação: até dia 30 de abril, de terça a sábado, das 9h às 19h; e domingo, das 9h às 12h (quando houver programação).Onde: Centro Cultural Sesc Boulevard (Boulevard Castilho França, 522/523, Campina)
Informações: (91) 3224-5654
Quanto: Entrada franca
(Laís Azevedo/Diário do Pará)
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