O importante é não estar pronto”. Não por acaso, este é o slogan do Espaço Cenográfico, escola criada em São Paulo por José Carlos Serroni, uma referência na arte do figurino e cenografia para teatro e televisão no Brasil, que trabalhou com diretores como Antunes Filho, Antônio Abujamra e em vários espetáculos da atriz Fernanda Montenegro.
Só nos últimos dois meses, ele se dedicou a três espetáculos, entre eles “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, que estreou neste final de semana no Teatro Oi do Rio de Janeiro, com Miguel Falabella na direção e Marisa Orth no elenco. “Foi uma experiência muito bacana em musical, com dois palcos giratórios, muito bom”, comenta Serroni.
Ele foi um dos profissionais convidados a ministrar aulas durante o aniversário de 29 anos do Teatro Margarida Schivasappa, em Belém e, em entrevista exclusiva para o Você, conta que, seja formando novos profissionais, escrevendo livros ou atuando como cenógrafo, o importante é manter-se sempre atento e inquieto.
“Acredito que nunca vou chegar a um ponto em que ache que eu terminei algo na vida. Tenho quase 40 anos trabalhando com cenografia, figurino, arquitetura de teatro, escrevendo livros, trabalhando com a formação de novos profissionais e sempre acho que tem muito para fazer, muito por descobrir”, diz ele.
Serroni é autor e objeto de estudo de livros considerados como “material de referência” para a área, entre eles, “Teatros: Uma Memória do Espaço Cênico no Brasil” e “Figurinos: Memória dos 50 Anos do Teatro do Sesi-SP”, lançado em 2015.
Como cenógrafo, ele fez diversos espetáculos importantes, vários com Fernanda Montenegro, como “Alta Sociedade” (texto de Mauro Rasi em que ela atuou ao lado de Ítalo Rossi). Dentre as muitas experiências, ele cita pelo menos quatro diretores que respeita muito. “O maior deles é o Antunes Filho, com quem trabalhei por mais de 15 anos. Foi onde eu realmente aprendi a fazer teatro experimental, teatro com mais profundidade”, comenta.
Também trabalhou muito tempo comVladimir Capella (“Tristão e Isolda”, “Clarão nas Estrelas”), diretor que fazia teatro infanto-juvenil. “Fiz com ele 12 trabalhos, a gente se entendia muito, parece que ele escrevia para mim, para eu fazer a cenografia”.
O mago da cenografia brasileira cita ainda suas parcerias com o diretor Antônio Abujamra, falecido em 2015, e Gabriel Vilela, diretor que também é cenógrafo e figurinista. “Ele já me chamou para fazer muitos projetos com ele e temos uma afinidade muito grande”, comenta. Além destes diretores, Serroni destaca também a parceria com pessoas que trabalham diretamente com ele. “Todas foram muito instigantes ao longo do meu trabalho”.
Em seu livro sobre a cenografia brasileira, Serroni conta um pouco sobre essas parcerias. “Cito muitas pessoas que pensam como eu essa questão da formação e outras questões que não só o processo de criação, mas como mudar os rumos da cenografia, pensar uma nova formatação, abrir novos espaços, ir em busca de novas tecnologias”, diz ele.
Entre estes está o renomado arquiteto e cenógrafo Luiz Carlos Ripper, responsável pelo projeto do Teatro Waldemar Henrique, “projeto que eu acompanhei, e eu tinha me esquecido disso! Entrei lá (no teatro) e fiquei emocionado porque o Ripper foi uma pessoa com quem eu tive muita intimidade”.
Veja mais sobre o trabalho de Serroni no site Espaço Cenográfico.
PROFISSÃO COLETIVA E COM MUITOS DESAFIOS
Entre tantas coisas que tenta passar aos jovens profissionais, Serroni sempre recomenda a busca por um entendimento profundo de seu ofício. “Fazer teatro não é uma coisa tão simples, são muitas dificuldades. Leva tempo para você amadurecer, ser reconhecido. E cenografia não é uma arte que você trabalhe sozinho. Tem de aprender a dividir essa luta com os demais profissionais. Cenografia é uma arte conjunta, passa pelos diretores, atores, iluminadores. Isso tudo demanda tempo, não pode ter pressa. E vai ter muito trabalho, só assim você chega lá”, diz ele.
E há muitas coisas a resolver ainda para o exercício da profissão, na opinião de Serroni. “Num país em crise, a cultura sempre está levando muita desvantagem, a gente tem muita dificuldade de trabalhar. E você tem de se aperfeiçoar porque vai lidar com questões estéticas, de forma. Tem de pesquisar, se interessar por filmes, museus, música, livros de obras de arte, estudar a história da dramaturgia. Tem tantas coisas que eu não sei se desanima”, brinca Serroni.
Na passagem por Belém, na última semana de fevereiro, Serroni fez questão de dedicar um tempo para abordar os materiais utilizados tanto em cenografia quanto em figurino. Para ele, é fundamental estar atento ao que vai surgindo no mundo, mas também é importante estar aberto a experimentar. “Gosto de mostrar desde a madeira, o ferro, adoro os vinis”, diz ele.
O cenógrafo mostrou algumas tecnologias que existem no Brasil, indústrias que produzem materiais, tecidos, tintas e outros elementos especialmente para o teatro. Mas ele é quem acabou saindo de Belém com uma boa descoberta. “Fiquei surpreso quando me falaram de uma madeira que existe aqui, leve e flexível, eu estou até levando para São Paulo porque é um material excelente para fazer maquete, é fácil de cortar, levíssima, e aqui tem muito!”, elogiou Serroni, referindo-se ao miriti.
“Quando você foge dos grandes centros como São Paulo, Rio, parece que eles têm muito essa visão de que São Paulo é tudo, de que a gente vive com materiais inusitados, e eu digo que não é bem assim. A gente tem lá nossas dificuldades também. E aqui do lado às vezes tem um material como esse, a que não se dá muito valor, e pode ser muito rico para fazer cenografia”, completa.
De maneira geral, o cenógrafo brasileiro, diz ele, tem que ser inventivo por natureza. “A gente cria cenário com jornal, com bambu, e isso que é legal, tirar partido da dificuldade”.
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
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