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Não importam os rótulos, mas se há boa música

O ator inglês Hugh Laurie, o Dr. House da série de TV, no documentário “Let Them Talk” assim se expressou: “...todos esses tipos de música que conhecemos: jazz, blues, rock, folk e etc... todas essas categorias, no final das contas, não significam nada, s

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O ator inglês Hugh Laurie, o Dr. House da série de TV, no documentário “Let Them Talk” assim se expressou: “...todos esses tipos de música que conhecemos: jazz, blues, rock, folk e etc... todas essas categorias, no final das contas, não significam nada, são apenas uma forma mais fácil de catalogar música em lojas de disco. Tem música boa e ruim. O resto é classificação...”. Com isso, Laurie desmistifica o que os musicólogos insistem em tornar coisa pedante e inacessível, criticando obras que custaram tempo de inspiração e perspiração a seus autores,

O certo é que bons músicos sempre escolhem fazer música boa, procurando melhorar sua formação musical de origem. Deste modo é que jazzistas e roqueiros, inúmeras vezes, utilizam a música de Brahms, Haydn, Bach, Albinone e muitos outros, para dar-lhes interpretação pessoal. Alguns, inclusive, vão mais adiante e passam até a compor “musica erudita”. Casos de Rick Wakeman e Steve Howe, respectivamente tecladista e guitarrista do grupo inglês Yes. Há os que delegam a orquestração para algum especialista. Paul McCartney fez isto através de dois excelentes arranjadores: David Palmer e George Martin. Outro bom exemplo do que dizemos é John McLaughlin, líder da Mahavishnu Orchestra. Ele escreveu um Concerto para Guitarra e Orquestra, subtítulo “The Mediterranean” (orquestrado por Michael Gibbs) e o gravou com a Sinfônica de Londres, regida por Michael Thilson Thomas.

Claus Ogermann, o arranjador de nove entre dez estrelas da música, incluindo Tom Jobim, Frank Sinatra e Diana Krall, compôs um “Concerto para Piano e Orquestra” e um “Concerto para Orquestra” que, depois de gravar, arranjou para o piano de Bill Evans rebatizando-o de “Symbiosis” - uma versão jazzista. E, se querem saber, ficou mais legal. Afinal, Evans é o mais sensível dos pianistas e considerado o “Chopin do jazz”. Com justiça, Fréderic certamente assinaria muitas composições de Evans. Se duvidam, ouçam “Waltz in B” ou “Waltz for Debbie”.

“Por que você quer ser um Ravel de segunda, se você pode ser um Gerswhin de primeira?” - foi o que respondeu o próprio Maurice quando George solicitou-lhe algumas aulas de composição. Com efeito, Gershwin foi Gershwin quando compôs o “Concerto em Fá”, para piano, as “Rhapsody in Blue” n° 1 e 2, os “Prelúdios para Piano” e, principalmente, a ópera “Porgy and Bess”, de onde se extrai “Summertime”, um dos standards mais interpretados da música americana.

Giovanni Rota Rinaldi, o último grande gênio que a música gerou, não foi apenas o compositor de trilhas sonoras para filmes de Visconti, Zeffirelli, Monicelli, Clément, Coppola e, claro, Federico Fellini. Nino Rota, tem extensa obra na chamada música erudita. Além de três sinfonias, deixou três concertos para piano, concertos para harpa, fagote e trombone, além de música de câmera e várias óperas.


O francês Claude Bolling é o grande empolgado da fusão jazz/erudito. Compôs para o compatriota Jean Pierre Rampal uma “Suíte para Flauta” e para Alexandre Lagoya o “Concerto para Guitarra”, ambos acompanhados por um Jazz Piano Trio. E se superou quando escreveu as “Sonatas para Dois Pianistas” que ele mesmo interpretou com Emanuel Ax.

Chick Corea, um dos maiores pianistas de jazz de todos os tempos, também teve sua incursão na chamada “música erudita”. Compôs um “Concerto para Piano” (trio), que interpretou com a Philharmonic Orchestra Corea, criando belíssimos trechos reservados para o improviso. Levou mesmo a sério o que os grandes compositores chamavam “cadenza”, não esquecendo, igualmente, o alimento principal da boa música: a melodia...

Os exemplos são inúmeros. Alguns no sentido inverso, como o do maestro Leonard Bernstein que, além de belíssimas sinfonias, compôs peças tipo “West Side Story”, esta imortalizadora fatal de standarts como “Tonight” e “Maria”, em programa de TV que produzia e apresentava denominado “Omnibus”. Bernstein explicou com precisão “O Que é Jazz”, editado no Brasil em LP, cujo roteiro pode ser lido na edição portuguesa do livro “O Mundo da Música”.

Outro grande maestro que gosta de largar o fraque, arregaçar as mangas e tocar jazz é André Previn. Antes de compor seu “Concerto pra Violino”, subtítulo, “Anne Sophie”, que registrou em CD com sua mulher na época, a violinista Anne Sophie Mutter, gravou ao piano um “Gerswhin SongBook” acompanhado pelo baixista David Finck. É ótimo também ouvir Previn solando standarts, acompanhado de orquestra de cordas nos CDs “A Touch of Elegance” e “Like Blue”.

(José Otávio Figueiredo)

*José Otávio Figueiredo é Engenheiro Civil, pesquisador e colecionador de discos de música erudita, jazz e pop. Mande também sua sugestão, crítica ou análise de assuntos culturais para o e-mail cadernovoce@gmail.com

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