O circo de hoje, com espaço físico modernizado e toques de tecnologia, nem de longe lembra a aparência do circo de outrora. Era debaixo de uma lona de plástico, com arquibancada de madeira, picadeiro modesto e com acrobacias simples que os artistas se apresentavam. Mas o que mais acontecia naquele espaço itinerante, com uma trupe de artistas? O resgate dessas memórias está no documentário “Divas do Picadeiro”, que será lançado hoje, às 18h, no Centro Cultural Sesc Boulevard, em Belém. A entrada é gratuita.
O filme, de 30 minutos, tem como protagonistas as irmãs Gilma e Gilda Marques, representantes de uma família tradicional do circo no Pará, que atua na área desde a década de 1940. A diretora Marina Mota conta que elas narram suas histórias, a carreira e a própria vida, já que no ritmo do circo essa divisão é muito tênue. “São mulheres fortes. A Gilda era bailarina, dançarina de mambo e Gilma era contorcionista. Mostramos como elas foram construindo essa carreira, fatos que marcaram. Como era viver todos juntos, viajando para lugares diferentes”, diz.
A ideia do documentário partiu da pesquisadora Virgínia Abasto, que durante seu trabalho de mestrado investigou a história do circo no Pará. Para que a pesquisa também pudesse ter outro material de registro, além da dissertação, ela decidiu procurar Mariana para fazer um registro em vídeo – que foi viabilizado por meio do Prêmio Funarte Caixa Carequinha de Estímulo ao Circo 2014.
“Apesar de falar do circo em geral, as irmãs já eram destaque da pesquisa da Virgínia, que percebeu a força da história delas, por isso trouxemos para o audiovisual. Elas são tratadas como divas porque elas mantêm essa postura nas memórias que contam, na gestualidade, em sua afetividade. A forma como elas narram essas memórias é muito rica. Elas são referências da própria família, e têm força para contar essa história”, conta a diretora.
Além disso, a família Marques é a base de toda uma geração de artistas de circo e das artes cênicas em geral, já que atuaram por quatro décadas e passaram pelo Amazonas, Acre, Maranhão, Piauí e países da América do Sul. A família teve várias companhias, que mudavam de nome conforme a situação política. Chamaram-se circo Barcelona, Real Brasil, Magalhães Barata...
O documentário apresenta essa peculiaridade da família tradicional de circo, atravessada por hábitos e estilo de vida totalmente diferente do padrão das pessoas comuns. A ideia é mostrar também a própria construção de Gilda e Gilma enquanto mulheres, como elas foram se afirmando nesses espaços.
Segundo a diretora, não se trata de falar sobre preconceitos, o que elas não costumam relatar, mas do próprio espaço e o tempo em que elas atuavam.
“A Gilma disse que quando foi para a maternidade para ter um dos filhos, o marido, que era palhaço, ficou sabendo porque outra mulher entrou no número e o avisou. E ele saiu direto para o hospital. Depois de três dias, ela saiu do hospital de sapato alto, vestido curto, com o bebê no colo”, conta Marina Mota.
Para a diretora, o trabalho foi de imersão na vida das irmãs e mesmo não sendo exatamente do circo, acabou se envolvendo com a história. “Passei por um processo de encantamento pelas duas, pela possibilidade de deixar o registro dessas memórias e desse fazer circense, já que muitas coisas se perdem. É um registro em vida ainda, que é muito importante para a classe artística, para a geração posterior e para própria memória do que fazemos aqui”, opina a diretora.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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