O que a pintura contemporânea no Pará apresenta? Certamente este é um cenário fluido e diverso que chama a atenção fora dos limites do estado. A Galeria Virgilio, em São Paulo, abre amanhã a exposição “Margens”, com os paraenses Emanuel Franco, Geraldo Teixeira, Jorge Eiró, Marinaldo Santos, Nina Matos e Ruma de Albuquerque, com curadoria de Marisa Mokarzel.
Marisa destaca que o conceito curatorial não se empenhou em achar um traço que os una, numa maneira de buscar regularidades nas práticas artísticas dos seis pintores. A ideia é apresentar os atravessamentos de cada um e os universos que compõem a singular produção pictórica deles, enquanto moradores de Belém, amazônidas, que trazem referências visuais diversas não só em telas, mas em objetos e instalações, a partir de materiais dos quais se apropriam em estradas, nas beiras dos rios, nas casas por onde os artistas passam.
“Eles são atravessados por muitas variáveis, não há um padrão que unifique os seis artistas. Há a dedicação à pintura pelo oblíquo dos caminhos que podem variar desde a produção matérica até o objeto em que a cor é o componente que serve de eixo para discutir as diferentes questões pictóricas. Estão todos à margem, não porque estejam fora de alguma coisa ou habitem a ‘periferia’, mas porque pelas bordas, sem tanta visibilidade, resistem às intempéries das águas e possibilitam suas histórias”, diz Marisa Mokarzel.
O artista Emanuel Franco apresenta na exposição as lonas que recolhe em postos de combustíveis, junto aos caminhoneiros, ou mesmo das embarcações nas beiras dos rios. São materiais gastos, sujos e com marcas do tempo em que passaram cobrindo a carroceria dos veículos com toda sorte de materiais, ou barcos que trafegam pelos rios paraenses. O artista diz que o interessa a cor que provém desse tempo, uma espécie de marrom, além da possibilidade de poder usar as lonas como suportes para intervenções estéticas e produção de objetos.
“As obras de pintura saíram de seu formato bidimensional e se transformaram em volumes, mas continua sendo um elemento compositivo, já que para mim, a pintura é essa pesquisa pelas nuances pictóricas. As lonas são as pinturas do tempo e não uso intervenção com tinta, só mesmo as palavras que acrescento posteriormente. Vou atrás dos profissionais que consertam essas lonas e também coleto artigos de beira de estrada, objetos pessoais de caminhoneiros, que fazem parte da proposta”, explica Emanuel.
A busca por esse material começou no início da década de 1990, quando Emanuel foi convidado a realizar um carro dos anjos para o Círio de Nazaré, mas não queria mostrar o colorido das fitas ou de outros objetos tradicionais desse período. “Busquei as lonas para mostrar a vida ribeirinha, com a referência ao barrento das águas. Desde então, não parei mais com a pesquisa sobre esse elemento”, diz.
“Aldeia extraordinária” de inspirações
Jorge Eiró, que se considera um amante da pintura e genuinamente um pintor, mesmo com produções em outras linguagens, diz que a linguagem tem muitos representantes no estado. Para ele, estar ao lado dos outros artistas da mostra é uma forma de expor a potência da visualidade de cada um.
“Essa exposição não representa uma culminância, mas uma dobra, um desdobramento. A pintura contemporânea no Pará é muito diferenciada por sua cor, temperatura e narrativas. Essa margem que falamos não é com a conotação pejorativa, mas uma coisa boa. Não se trata de uma visão pitoresca, mas do labirinto líquido amazônico. Faz da nossa aldeia extraordinária”, opina o artista.
Entre as influências de seu trabalho, destaca o poeta Max Martins, que escreveu: “O rio que eu sou não sei ou me perdi”. “Para mim, especialmente, esse calor influencia diretamente nas minhas pinturas, uma luz que explode na vista e que apesar da minha fotofobia, me alimenta. Tenho esse encantamento com a paisagem para criar minhas narrativas, que está também na poesia de Max Martins, nas fotos do Luiz Braga, na literatura de Miltom Hatoum”, enumera.
A curadora Marisa Mokarzel comenta que o que poderia ser uma pintura clássica de gênero é subvertida pelo artista, e que, com ironia, dota a paisagem de novos conceitos. “Se sobressai a solidão contemporânea, as paisagens subjetivas, constitutivas do jogo estabelecido por quem, apaixonado pela pintura, deixa-se tramar pela fotografia, literatura. Para Eiró, as paisagens demarcadas pela linha do horizonte, emergem da imensidão amazônica: ‘Daí uma certa predileção pela linha do rio-mar, pela perspectiva de margens que se perdem no infinito’”, comenta a curadora.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar