Belém sedia amanhã o lançamento da 19ª edição do Projeto Sonora Brasil, para o biênio 2017-2018, uma realização do Serviço Social do Comércio (Sesc) para a formação de ouvintes, com o intuito de promover a circulação da música ligada à cultura tradicional e erudita, que não fazem parte dos circuitos comerciais no país. Os violonistas Marcus Ferrer, do Rio de Janeiro, e Fernando Deghi, de Curitiba, além do grupo Cantadeiras do Sisal e os Aboiadores de Valente se apresentarão durante o lançamento.
O assessor técnico em música do Departamento Nacional do Sesc, Gilberto Figueiredo, explica que a capital paraense foi escolhida para sediar o evento nacional por ter uma forte tradição musical. “Escolhemos Belém por se tratar de uma cidade que tem uma importante movimentação, com diversificada produção na música, sendo uma espécie de capital cultural na região Norte. O projeto também tem o objetivo de se espalhar e não ficar centrado na região Sudeste, para que possa se expandir por todo o país”, justifica.
OLHAR CRÍTICO
Também é marca do projeto promover um olhar crítico sobre a música massiva, voltando a atenção para a produção e os mecanismos de difusão de música no país. Ao longo de todas as edições já reuniu aproximadamente 80 grupos, centrados na cultura popular e na música erudita.
Alguns artistas paraenses já integraram o projeto Sonora Brasil: Salomão Habib, Arraial do Pavulagem, Samba do Cacete (manifestação cultural de Cametá, no nordeste do Estado) e Comitiva de São Benedito de Bragança, que se apresenta durante a Marujada.
O estado recebe, na capital e em Castanhal, programação referente ao biênio 2015-2016 entre os meses de junho e novembro. “O projeto tem o objetivo de ir levando a música pouco conhecida pelo brasileiro, que não está contemplada nos meios de comunicação. Por isso, são concertos essencialmente acústicos, aproximando o público e valorizando o intérprete e o músico, sem caixas de som com volume alto. Desde o ano passado começamos a fazer também registros em vídeos para serem exibidos no Sesc TV”, diz Gilberto Figueiredo.
TRABALHO AZEITADO
Além da missão de levar o projeto para cidades diferentes, Belém foi escolhida para o lançamento do Sonora Brasil pela atuação do Sesc Pará na área da música, com a promoção de shows e eventos , além da gestão da Casa da Música, um espaço voltado para cursos e capacitação na área, onde profissionais e técnicos de outras unidades aproveitam para realizar intercâmbio.
“O Sesc Pará possui espaços altamente qualificados, entre os melhores de todos os Sesc’s no Brasil, sem exagero. A Casa da Música tem salas acusticamente revestidas para cada tipo de instrumento e um estúdio muito bem equipado. E o Sesc Boulevard mantém intensa programação para a promoção da música e de artistas locais”, diz Gilberto Figueiredo.
Para José Maria Vilhena, diretor de Educação e Cultura do Sesc no Pará, o lançamento do projeto em Belém significa a valorização das atividades no Estado. “Isso gera divisas na área cultural para os grupos do estado e para o Brasil inteiro, com a circulação de músicos aqui e também a oportunidade de recebermos manifestações culturais de outros estados. Esse é o perfil do projeto, que para nós funciona de forma integrada em todas as unidades”, diz José Maria.
DAS VIOLAS AOS CANTOS DE TRABALHO
A cada biênio, o projeto Sonora Brasil se estrutura a partir de duas temáticas, uma para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e outra para as regiões Sul e Sudeste. Para o primeiro grupo, o tema este ano é “Violas Brasileiras” e reúne tocadores de diferentes manifestações musicais a partir do instrumento - como a viola capipira, a viola do Nordeste, a viola de concerto e as violas singulares (que foram assim conceituadas por estarem ligadas à regiões muito específicas e às vezes, interioranas).
Esta é a versão oposta do que foi apresentado em 2015. “As violas possuem diferenças tanto em suas estruturas do corpo, com formatos distintos, quanto na sonoridade e nos repertórios que os violonistas apresentam. Será uma forma de mostrar a cultura dessa tradição, como, por exemplo, a da viola de cacho, que ocorre na região do Pantanal, e da viola de fandango ou caiçara, tocada no Paraná e sul de São Paulo, e a viola de buriti, da região do Japalão, no Tocantins – que são as violas singulares”, explica Gilberto Figueiredo.
Nas regiões Sul e Sudeste, a temática é “Sonoros ofícios - cantos de trabalho”, que mostrará os cânticos entoados por trabalhadores durante a lida no campo, principalmente da região Nordeste. Serão apresentados os grupos ligados às atividades rurais, como as Quebradoras de coco de babaçu, do Maranhão; as Destaladeiras de fumo de Arapiraca, do Alagoas; e as Cantadeiras do Sisal e aboiadores de Valente, da Bahia; além do Grupo Ilumiara, de Minas Gerais, com músicos que pesquisam repertórios de cantos de trabalho.
“Na vida produtiva no campo, o homem canta durante a atividade laboral e a música cumpre um importante papel, para aliviar o peso do trabalho, e falar sobre críticas sociais e o que hoje entendemos como questões trabalhistas. É um canto coletivo, são canções de domínio público, mas que são muito regionalizadas e não se expandiram”, diz o gerente nacional do Sesc .
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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