Filho do escritor paraense Salomão Larêdo, o editor Filipe Larêdo recorda: “Um dia sentei na frente da máquina de escrever do meu pai e escutei essa pergunta dele: ‘O que você tá fazendo aí, seu moleque?’. Então respondi: ‘Escrevendo um livro’”, igual ao que o pai fazia. Já na vida adulta, Filipe até tentou seguir a carreira jurídica e formou-se em Direito, mas não demorou muito para enveredar pelo mundo das letras. Hoje é publisher na Editora Empíreo, sediada em São Paulo, e que promove a publicação de diversos títulos de autores paraenses.
No Dia Nacional do Livro Infantil, instituído em 2002 e celebrado hoje para lembrar o dia de nascimento do autor Monteiro Lobato, o Caderno Você apresenta um bate-papo com o editor, em que ele narra as suas memórias de infância entre livros e, ainda, o desafio de editar o primeiro livro destinado ao público infantil. O pai foi certamente um grande entusiasta e o incentiva fazendo um jogo de perguntas sobre as histórias. Além disso, Filipe analisa a importância do estímulo à leitura ainda na infância para a formação intelectual. Confira:
Como foi a sua relação com os livros na infância? O seu pai certamente foi um grande entusiasta!
Minha relação com os livros na infância foi bastante natural. Apesar de ser filho de escritor, nunca houve uma obrigação para ler livros. Mas é claro que houve um ótimo direcionamento da parte dos meus pais. Lembro-me que, quando pequeno, íamos muito em livrarias, e eu adorava isso. Gostava porque eu sempre tive liberdade para interagir com todos os livros que desejasse. E quando separava os que queria, meus pais faziam um enorme esforço de levar todos, independentemente da quantidade ou da dificuldade que eles sabiam que eu teria na leitura. Uma outra experiência que tive aconteceu quando eu nem ao menos sabia ler. Meu pai trouxe dois volumes enormes de “O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de La Mancha”, e contou rapidamente a história para saber se eu queria ouvir. Como gostei, ele fez um acordo comigo que leria dez páginas por dia, mas eu deveria, sempre antes das leituras, responder alguns detalhes, como “qual era o nome do cavalo do D. Quixote” ou “por qual donzela D. Quixote lutava”. Se eu não respondesse corretamente, ele não leria a história naquele dia. Nas minhas recordações eu ficava ansioso para chegar a hora de lermos mais dez páginas daquela história.

Felipe com o pai, o escritor Salomão Laredo. (Foto: divulgação)
Quais livros infantis marcaram a sua infância? Recorda de algum em especial e por quê?
Lembro-me com muito carinho de “O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de La Mancha”, livro que meu pai leu numa versão completa em dois volumes, cujas ilustrações eram feitas pelo famoso Gustave Doré. Quem conhece esse artista francês consegue imaginar o quanto eu, com cerca de seis anos de idade, fiquei impressionado. Tinha medo daquelas ilustrações obscuras, mas não conseguia evitar a curiosidade. Depois, quando aprendi a ler, lembro que gostava muito dos gibis da “Turma da Mônica” e meu personagem preferido era o Chico Bento. Também adorava “O Menino Maluquinho”, que conheci por meio do próprio Ziraldo que esteve na minha livraria favorita em Belém e que escreveu uma linda dedicatória. Ao saber que meu sobrenome era Larêdo, ele desenhou uma escala musical com as notas LÁ, RÉ e DÓ, que juntas montavam meu sobrenome. Tenho esse livro na minha estante até hoje.
De que forma a leitura da infância auxilia na formação de leitores? Qual a sua opinião sobre a importância do estímulo à leitura desde cedo?
Quanto mais cedo a pessoa iniciar o hábito da leitura, mais facilidade terá para se aventurar em livros com narrativas complexas e difíceis. Porém, o mais importante nessa lógica é pensarmos na leitura como uma atividade prazerosa. Quando a pessoa associa “ler” com “prazer”, já tem uma baita vantagem. Por outro lado, se forçarmos as crianças a ler, corremos um sério risco de formar inimigos dos livros. E como podemos fazer isso? Começando dentro de casa, mostrando às crianças que nós mesmos somos praticantes da leitura por prazer. Vendo esse exemplo as crianças tendem a querer saber a fonte de tanta alegria e acabam repetindo nossos atos. É interessante citar que, segundo a última pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” os professores e a mãe (ou a responsável do sexo feminino) são os maiores responsáveis por influenciar os leitores a ler, logo seguidos pelos pais (ou o responsável do sexo masculino).
Hoje você comanda a Editora Empíreo, que fará o lançamento do primeiro livro infantil. Qual o nome do título e o autor? Do que se trata?
O autor se chama Diego Freiro e o ilustrador é o Rogério Maroja. O livro se chama “O Saci,a Mula, o Boitatá e o Boi Bumbá” e, em versos, conta uma história divertida envolvendo os personagens do título. As ilustrações do Rogério são de altíssima qualidade e tenho certeza que o público, tanto infantil quanto adulto, vai adorar.
Para você, qual a diferença entre editar um livro para adultos e outro para o público infantil?
Essa divisão entre livros adultos e infantis é bem recente e veio acompanhada de diversos detalhes que dividiram a edição. Para começar, existem alguns temas que precisam ser tratados de modo especial, tais como sexualidade, violência, morte etc., pois estamos tratando com seres humanos em processo de formação e que precisam receber as informações corretamente. Apesar disso, eu sou da opinião que quem deve orientar os assuntos a serem tratados são as próprias crianças. Então busco nesse processo ser honesto com elas, entregando aquilo que elas buscam. Claro que com o cuidado de não sobrecarregá-las ou confundi-las. Outros pontos diferentes são mais técnicos, como por exemplo o fato das crianças se identificarem melhor com desenhos redondos. Porém essas regras tendem a padronizar a produção de livros infantis e eu não sou muito favorável a isso. Como falei, era criança quando meu pai me apresentou a um livro com ilustrações do Gustave Doré, altamente obscuras. Eu as adorei e nem por isso sofri qualquer trauma.
Um outro exemplo dessa fuga de padrões são os belíssimos livros escritos pelo Neil Gaiman e ilustrados pelo Dave McKean. Em “O Dia Em Que Troquei Meu Pai por Dois Peixinhos” e “Os Lobos Dentro das Paredes” eles tratam de assuntos nada convencionais com artes estranhas e complexas, e foram absolutos sucessos de vendas, de crítica e de público.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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