Um novo pensamento tem mexido com o mundo da moda. Hoje, profissionais do meio, consumidores e fashionistas reivindicam uma atuação mais limpa da indústria, com uma preocupação que vai muito além do estilo que as roupas representam. Eles exigem mais transparência da cadeia produtiva da moda. E assim a pergunta “quem fez minhas roupas?” também passou a ser importante para definir o que é desejável e fashion.
Começando pelo próprio armário
Foi daí que nasceu o Fashion Revolution Day, amanhã em sua terceira edição, quando mais de 80 países se unem para fazer questionamentos como esses. O movimento global chega pela primeira vez a Belém, amanhã, em parceria com a marca de acessórios de moda sustentável Da Tribu. A programação começa às 9h e inclui oficinas, conversas e show da banda Maiê.
A proposta, como um todo, é direcionar o mercado da moda para um caminho consciente, de consumo sem exagero e produção com responsabilidade. Fernando Hage, professor do curso de moda da Unama, considera este o principal desafio do Fashion Revolution Day. “A missão é abrir a cabeça dos consumidores e pessoas que trabalham com moda para perceber que esse pode ser um mercado mais ético, sustentável, esse é o grande desafio”.
Para Fernando, o primeiro indício de que as pessoas começavam a questionar esse mercado foi quando aconteceu, há três anos, um desastre numa fábrica da Índia causando a morte de milhares de trabalhadores que faziam costura. “Antes, já tinha algumas iniciativas que incentivavam o uso de material sustentável, o consumo consciente, melhores condições de trabalho para os profissionais. Mas este foi um marco que originou o Fashion Revolution Day e parece ter difundido ainda mais esse debate”.
Fernando Hage diz perceber uma mudança gradativa na visão de seus alunos, futuros profissionais da moda. “Muitos alunos ainda chegam na universidade com a cabeça no consumo desenfreado, na moda de estação com roupas mais descartáveis, mas dentro da faculdade a gente tem levado essas (novas) ideias em palestras e no conteúdo das matérias. Acredito que cada vez mais chegam alunos com esta consciência. A questão dos trabalhadores bolivianos encontrados em condição de escravidão são algumas situações que hoje ganham evidência e fazem as pessoas repensarem, perceberem que esse era um ciclo errado”.
A estilista Grazi Ribeiro, que participa da programação junto com Fernando em um bate-papo sobre os desafios dessa revolução na moda, considera que muitas mudanças no comportamento de consumo foram motivadas também pela crise econômica vivida em diversos países, incluindo o Brasil. “Dela veio essa necessidade de você frear o consumo, principalmente o de moda, um dos setores que mais estimula a compra por impulso”.
Grazi também conta que quando ela própria iniciava na área, no início dos anos 2000, isso era algo sobre o qual poucos pensavam, principalmente os profissionais que, como ela, atuavam na área de criação. “Isso só despertou a partir dessa divulgação maior da mão de obra escrava, dos efeitos ambientais e de desperdício de recursos com os resíduos têxteis”, diz ela.
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
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