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Mergulho na cor e fotografia de Luiz Braga

O Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, de Francisco Ferreira Azevedo – uma obra de sentidos e não de sinônimos e explicações – aponta a palavra “Sideral” como “esfera, cosmo, harmonia, firmamento, imensidão azul, arquitetura celeste, poeira de luz,

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O Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, de Francisco Ferreira Azevedo – uma obra de sentidos e não de sinônimos e explicações – aponta a palavra “Sideral” como “esfera, cosmo, harmonia, firmamento, imensidão azul, arquitetura celeste, poeira de luz, céu, astro criador, estender-se ao infinito etc”. O fotógrafo paraense Luiz Braga fez questão de ler cada uma dessas palavras, dentre outras tantas correlatas, para tentar descrever a sua nova exposição, “Sideral”, que abre na próxima quinta-feira, 28, na Galeria Leme, em São Paulo.

São 20 imagens escolhidas em seu acervo, realizadas entre 1982 e 2015. Um recorte pequeno de sua imensa produção, mas que revela os meandros de como a mostra foi concebida. Menos atento a um conceito, já que a mostra não tem curadoria, ele prefere explicar a seleção por meio das suas relações com pessoas queridas. “Esta tem um histórico diferenciado”, inicia. O próprio Luiz e a diretora da galeria, Camila Siqueira, que já estuda e comercializa a obra dele há algum tempo, foram os responsáveis pela triagem, sob a temática da cor em quatro décadas de carreira.

Até aí, tudo bem, não fosse o fato de Camila nunca ter vindo a Belém, ao Pará, e consequentemente ao universo cósmico e multicor que o fotógrafo retrata em suas obras. Foi quando Guilherme Coelho, diretor do filme “Órfãos do Eldorado” (2015, adaptação do livro de Milton Hatoum), instigou a diretora a conhecer a capital paraense. E ela o fez, em março deste ano, quando aproveitou para azeitar a exposição com Luiz Braga e convidar o próprio Guilherme para escrever o texto da exposição.

“Selecionamos juntos, em três dias dentro do estúdio, e tem essa marca da primeira vez dessa pessoa estar aqui, um acontecimento mediado pelo filme. Quando estávamos na ilha do Combu, ela falou: ‘quem tem que escrever esse texto é o Guilherme’. Ele ficou superfeliz e eu também, porque foge do viés semiótico dos curadores”, explica o fotógrafo.

A relação com Guilherme teve início com as filmagens em Belém, onde Luiz Braga atuou como uma espécie de consultor de imagem e fotografia para o diretor, indicando locações e melhores horários para filmar. Ao ver o resultado do longa, o fotógrafo ficou impactado, principalmente pela atuação da atriz paraense Dira Paes. “Liguei para ela, dizendo que precisava fotografá-la. E ela veio, fizemos em março”, diz.

“Para mim, essa exposição é quase uma conspiração de várias coisas que deram certo, por isso usei uma foto chamada ‘Sideral’ para dar conta do todo. Como os artistas de música, que escolhem uma música para promover um CD. A foto tem essa expressão e a mostra é fruto dessa cumplicidade entre pessoas com admiração recíproca. Isso para mim vale muito”, explica Luiz, sobre a foto que abre esta matéria, em que registra um antiga aparelhagem, que estava tocando na estrada do Mosqueiro, e que o cativou pela luz.

(Foto: Luiz Braga/divulgação)

MATURIDADE PARA OLHAR A PRÓPRIA OBRA

Com 40 anos de carreira, Luiz Braga começou a fazer uma revisão de sua produção fotográfica. É menos uma análise formal para categorizá-la que a busca de uma da poética dispersa pelo tempo, em negativos engavetados em seu escritório na Travessa Tiradentes, em Belém, ou em suas próprias memórias. Alinhá-las tem sido um exercício de pensar sobre o ofício, ora entre recordações íntimas ora por ajuntamentos temáticos, com auxílio de curadorias específicas e que possuem um viés determinado por ocasião da perspectiva expositiva.

Em 2011, por exemplo, na mostra “Solitude”, que integrou o Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia, selecionou imagens que perpassaram três décadas e deram vazão ao conceito de ausência, de perda, em fotos de espaços desocupados, cadeiras vazias e com detalhes que o lembravam de parentes, como uma toalha de crochê. Em 2014, na exposição “Retumbante Natureza Humanizada”, promovida pelo Sesc SP, com 140 imagens em cor e P&B, com curadoria e pesquisa de Diógenes Moura, o artista promoveu uma nova imersão na produção das décadas anteriores.

Ele diz que agora está mais maduro para olhar para o passado. “Isso é como se fosse um processo de retroalimentação. Não é viver do passado, mas buscar o novo. Esse processo começou em 2005, com o projeto ‘Arraial da Luz’ e percebo agora como uma arqueologia de mim mesmo e nesse momento se cria uma mecânica a que me mantenho fiel porque ela é muito rica, com o olho de hoje, amadurecido, menos impactado por modismos e pressões”, revela.

Perto de completar 60 anos, ele explica ainda que é viver o agora, sem precisar ter pressa, tampouco subestimar a si mesmo nesse processo de revisita à sua produção.

Em Belém, algumas dessas imagens podem ser conferidas na atual exposição do Prêmio Diário, no Museu Casa das Onze Janelas. De acordo com Luiz, são fotos inéditas feitas em 1977, quando ele tinha pouco mais de dois anos de carreira e não as considerava apropriadas para expor. Mostram a decadência da Belle Époque em sete imagens, editadas e pensadas como série em 2016.

Enfático e explicativo, ele se diz em processo de decantação – para retirada de impurezas e resíduos: “Isso tem sido muito enriquecedor, não estou vivendo de pinçar foto velha. Tem uma quantidade grande de fotos decantando para encantar. Tenho usado essa palavra: decantar. Para que as imagens possam virar potências, argumentos, porque existe uma vontade de rever essas imagens inéditas e pegar só a quintessência da história, não quero nada que não seja essencial, não quero penduricalhos”, diz.

(Domink Giusti/Diário do Pará)

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