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Diretor de teatro fala sobre formação de músicos

Não é raro um maestro, ao longo de sua trajetória, colaborar para a formação de novos músicos e maestros. Esse é o caso do diretor artístico do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o maestro André Cardoso. Pelas suas mãos passaram o atual maestro da Orque

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Não é raro um maestro, ao longo de sua trajetória, colaborar para a formação de novos músicos e maestros. Esse é o caso do diretor artístico do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o maestro André Cardoso. Pelas suas mãos passaram o atual maestro da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio, Tobias Volkmann, e o paraense Miguel Campos Neto. Na verdade, atualmente, há poucos jovens que tracem uma trajetória na música sem passar por ele, ocupante da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Música (a qual presidiu até o final de 2015), diretor da Escola de Música da UFRJ, e ainda, regente titular da Orquestra Sinfônica da UFRJ.

O maestro esteve em Belém ao longo da última semana como convidado do Projeto Orquestra, da Fundação Carlos Gomes, regendo a Sinfônica da instituição e ministrando o Seminário de Regência Orquestral a jovens músicos de várias regiões do estado. Após a primeira parte de um ensaio com a orquestra, formada por mais de 90 músicos para esta apresentação em especial, André Cardoso conversou com o caderno Você, em frente ao Theatro da Paz, sobre a experiência como violonista, regente e diretor.

Veja uma apresentação do maestro regendo peça de Vivaldi.

O maestro, que chegou a acompanhar uma edição do Painel Funarte de Bandas de Música em Castanhal, já havia declarado que o cenário musical do Pará é promissor. “O que nós precisamos é criar oportunidades para que esses jovens tenham acesso à música de câmara, a bons instrumentos e bons professores, para que desenvolvam seus talentos e tenham oportunidade de colocação no mercado de trabalho”, avalia. O interesse em aprender dos jovens músicos, cada um “muito concentrado e empenhado em fazer bem as obras” e absorver ao máximo o conhecimento de seus mestres, foi o que mais chamou atenção do maestro, que ainda observou o número de músicos que passaram por suas mãos e hoje fazem carreira no Pará, como o maestro Marcelo Jardim.

“Na Escola de Música (da UFRJ) eu ocupo a cadeira de Regência e lá eu formo novos maestros, além de ser o titular da orquestra, ou seja, jovens músicos de orquestra também passam pelas minhas mãos. Então para mim é uma alegria muito grande eu poder reconhecer em alguns dos meus ex-alunos hoje profissionais já plenamente inseridos no mercado. É o caso do professor Marcelo Jardim, do Conservatório Carlos Gomes, responsável pelo Projeto Orquestra, que me trouxe até aqui e que foi meu aluno de bacharelado e mestrado. É uma das minhas atividades mais prazerosas, formar novos músicos e maestros”, diz ele.

No intervalo dos ensaios, o maestro conversou com a equipe do DIÁRIO. (Foto: Marco Santos/Diário do Pará)

CRISE AFETA PRODUÇÃO MUSICAL

A diferença entre reger jovens e uma orquestra profissional, segundo ele, está na abordagem mais pedagógica às obras. “Procuramos orientá-los não só nas questões técnicas necessárias para que a obra fique bem estruturada, mas questões que dizem respeito também, não só ao estilo da música que a gente está tocando, mas até mesmo a forma como o músico deve tocar em uma orquestra – que é diferente de quando a gente toca solo, faz música de câmara, sozinho. Uma orquestra é um grupo muito grande, então a gente tem elementos que precisam ser abordados para que, quando esse jovem chegue a uma orquestra profissional, saiba como deve tocar, se comportar”.

A própria trajetória do maestro é inspiradora para os jovens que aprendem com ele. “Eu comecei como músico de orquestra, o que eu acredito que tenha facilitado bastante a minha abordagem no repertório sinfônico porque muitas das obras que eu atualmente rejo, eu anteriormente toquei como músico”, comenta. André Cardoso foi violinista e regente graduado pela Escola de Música da UFRJ, com mestrado e doutorado em Musicologia pela Uni-Rio. Ele se aperfeiçoou na Argentina, na Universidade de Cuyo e no Teatro Colón de Buenos Aires. Já atuou em orquestras como a Sinfônica Brasileira, Orquestra Petrobrás Sinfônica, entre outras.

Além disso, ao longo de sete anos trabalhou com a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio, atuando como maestro assistente, onde dirigiu produções como os balés “Copellia”, “Gisele”, “La fille mal gardée, “ Le Sylphide”, além de concertos sinfônicos. Experiência mais que válida para quem hoje é diretor artístico da instituição. “Minha função é não só coordenar os corpos artísticos – nós temos coro, orquestra e o balé – como também fazer a programação de óperas, balés e concertos. Ou seja, definir com os maestros titulares e diretores dos corpos artísticos quais serão os títulos que serão abordados, os solistas e maestros convidados, definir a programação do teatro a partir de uma linha que você estabelece como importante”, descreve.

A preocupação é muito válida para o diretor de um teatro que, fundado em 1909, recebeu os mais importantes artistas do mundo e do Brasil. “Exatamente por ele possuir, assim como o Municipal de São Paulo, corpos artísticos estáveis, ele tem uma função de produzir a própria programação. É diferente de teatros que, não tendo corpos artísticos, devem basear sua programação mais nos espetáculos que são trazidos de fora para dentro do teatro. No nosso caso é o contrário, nós temos que produzir a maior parte da programação artística”, justifica.

Mas, no momento, o fantasma da crise é o que mais causa preocupação a dirigentes de instituições culturais, confirma o maestro. “A crise afetou seriamente a programação do Theatro Municipal do Rio, nós tínhamos uma programação de sete óperas e tivemos que cancelar alguns espetáculos para que a programação coubesse no orçamento – que até agora não foi muito bem definido. Então estamos nos empenhando para conseguir recursos e leis de incentivo, ou seja, patrocinadores que financiem nossa temporada artística. Mas a crise, especialmente no estado do Rio, é muito séria”, admite. O maestro conclui falando que a maior preocupação, em verdade, é “manter o teatro aberto e funcionando”, lembrando a imponência do prédio no Rio, algo semelhante ao Da Paz, às suas costas, uma preciosidade por si só.

(Lais Azevedo/Diário do Pará)

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