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Exposição mostra formas de entender o que é amar

Quando você pensa na acepção da palavra amor, qual o primeiro conceito que lhe vem à cabeça? O amor romântico? O amor familiar? Entre amigos? O amor a si próprio – o ego? O amor a objetos, à natureza, a coisas quaisquer? Difícil amarrar um conceito tão am

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Quando você pensa na acepção da palavra amor, qual o primeiro conceito que lhe vem à cabeça? O amor romântico? O amor familiar? Entre amigos? O amor a si próprio – o ego? O amor a objetos, à natureza, a coisas quaisquer? Difícil amarrar um conceito tão amplo, com tantos significados que têm tantos desdobramentos para cada pessoa, mas foi esse o grande desafio a que se lançaram as curadoras Denise Carvalho e Monika Szewczyk, com uma exposição aberta na última segunda-feira, 9, no Oi Futuro do Flamengo, no Rio de Janeiro, com um título amplamente curto: simplesmente “Amor”.

No caminho para a exposição, mil imagens começam a se formar na cabeça a partir do tema. Haverá fotos de casais, de mães e filhos, imagens com olhares de ternura entre amigos, ou de paixão ao se enxergar a si próprio no espelho. Mas não. Apesar do nome tão abrangente, elas fizeram um recorte muito específico. Optaram por tratar de questões vistas sob uma ótica feminina, a partir da reunião de artistas do Leste Europeu, vindas da Polônia, Bósnia e Herzegovina, Uzbequistão, Lituânia, Ucrânia, Bulgária, República Tcheca, Estônia e Eslovênia, entre outros países. “As artistas da Europa Oriental saíram de seus países e foram morar em outros, viajam muito. A gente pensa nesse apagar das bordas que existem por conta da relação geopolítica, que nelas se constrói de outra forma”, define Denise Carvalho.

Mas, então, por que “Amor”? “Queríamos trazer o amor como fator não local, mas como algo que se expande além das fronteiras e tem uma capacidade invisível nas situações da mulher artista”, diz Denise. “O amor não é necessariamente entre homem e mulher ou conceitos que identificamos de imediato. Também inclui isso, mas tentamos expandir. O que é o amor como identificação com o outro? O amor como forma de tradução das histórias mais invisíveis da mulher? O amor como linguagem e como poder transformador de nossa forma de entender as limitações sociais?”, prossegue.
E por que artistas mulheres da Europa Oriental? “Acho que a Europa Oriental tem uma arte das mais poderosas. Os países estão em processo de mudanças e, para as artes, são bons os momentos em que nem tudo vai bem. Isso dá frescor, especialmente dentro dessa filosofia do poder do amor, porque o amor é o motor para essa mudança”, justifica Monika Szewczyk. “As artistas contemporâneas estão sendo impedidas de expandir a sua voz e a sua compreensão das tendências de liberdade. Os governos atuais dos países do Leste Europeu estão sendo muito de direita, conservadores, tentando impedir liberdades artísticas”, completa Denise. Isso é reforçado quando se ouve da boca de uma artista como Magdalea Jetelová que há um fio invisível que une os trabalhos distintos de todas elas. “Viemos de uma parte da Europa Oriental totalmente destruída pelo sistema. Acho que estamos todas no mesmo barco, muito próximas umas das outras”.

Intimidade revelada contra o sistema

Para tantas perguntas, muitas respostas. Basta olhar as obras para entender que tudo que parece interrogação pode ser reticências, exclamação, ponto em seguida, como a obra da artista polonesa Elzbieta Jablonska, que mostra o amor de mãe como ato heroico, ou melhor, super-heroico. Ou o vídeo “Kiss”, de Anna Jermolaewa, em que um casal com máscaras de Mickey Mouse troca beijos que começam delicados e que vão se tornando cada vez mais violentos, até se destruírem. Nela, “a mensagem é clara: o amor é forte e frágil, capaz de criar e destruir. Seu exagero pode ser mortal”, define Denise.

Na obra “Lesson of History”, de Agata Michowska, uma mulher folheia as páginas de um livro com os pés descalços, como se quisesse deixar as marcas de seus passos – em vão - naquela história. Perturbadores também são os trabalhos que tocam no delicado tema da sexualidade, como o da artista russa Victoria Lomasko, que revela o seu olhar sobre os casais de lésbicas em clubes semiprivados na Rússia. Ou, mais ainda, Mare Tralla, das Estônia, que expõe páginas e páginas de seu próprio diário rico em detalhes e muitas angústias.

“Esta artista nos revela a descoberta de sua homosexualidade em meio a um casamento estável, com filho pequeno. Ela nos revela como se sente oprimida e como não encara o local onde mora como um lugar onde pode se libertar e ser o que quiser ser”, descreve Denise. “Isso não é só uma história privada, mas um gesto de oposição a um sistema, se lembrarmos que a homossexualidade não é algo tratado de forma aberta na Rússia”, pontua.

Esta é a primeira vez que uma mostra com esse tema e recorte é realizada no Brasil, provavelmente a única também em toda a América Latina, segundo os organizadores, e ficará aberta a visitação no Rio até julho. Nela, como diz Denise, “o amor não se trata apenas de uma palavra, mas de uma ação, das interações do desejo, luta, desespero, mudança e esperança”. Nela, “enxergamos o amor como potencial de expansão e de apagar distinções que tenham a ver com gênero, etnia, raça, história”. Nela, entendemos o quão plural é o ato de amar.

(Esperança Bessa)

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