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Mostra propõe exercício ao alterar fotos icônicas

A menina que corre de um bombardeio na guerra no Vietnã, a raquítica criança africana observada por um carcará ou uma silhueta espelhada numa poça d´água captada por Cartier Bresson. Poucas pessoas não reconheceriam algumas dessas fotografias, que já faze

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A menina que corre de um bombardeio na guerra no Vietnã, a raquítica criança africana observada por um carcará ou uma silhueta espelhada numa poça d´água captada por Cartier Bresson. Poucas pessoas não reconheceriam algumas dessas fotografias, que já fazem parte da memória coletiva das sociedades modernas. Porém, imagine tudo isso sem a figura humana. O que resta? O joguete faz parte da exposição “Arquivo 2.0 - Desmemórias Fotográficas”, da fotógrafa paraense Flavya Mutran, vencedora do Prêmio de Artes Visuais Banco da Amazônia 2016, e que abre hoje, no Espaço Cultural da instituição.

A mostra reúne duas séries produzidas pela fotógrafa: “Delete.use” e “Raster”. Ambas vêm sendo aprofundadas por meio de sua pesquisa de doutorado na Universidade Federal do Rio Grande Sul, e tratam a fotografia como narrativa, elemento fundamental na construção da memória. Como suporte, usa fotografia, vídeos, objetos, livros e instalações. Assim, ela é uma exposição sobre fotografia e não “de fotografia”, considera a artista.

Neste caso, a artista trata de um universo preexistente, trabalhando com fotos que já circulam. “Não sou autora, sou propositora das conversas em torno dessas imagens”, diz Flavya. Os trabalhos provocam o espectador, que precisa vasculhar o próprio repertório imagético atrás das lembranças fixadas a partir da imprensa, mídia, moda e o tão atual compartilhamento de imagens via web. Porém, fugindo à ideia de ser literal, a artista não apresenta as imagens impressas.

“Elas aparecem em suportes como o vídeo, relatadas por pessoas. Só que não aparece o rosto das pessoas nem as fotos”, explica. Em “Delete.use”, a fotógrafa seleciona imagens conhecidas como parte das narrativas modernas e, simplesmente, apaga, ou melhor, deleta a figura humana, como uma estratégia de reocupação virtual da fotografia enquanto espaço social. “Não são fotografias, e sim espaços de encontro”, diz, no texto de apresentação da mostra.

Já em “Raster”, a fotógrafa apresenta 12 clássicos da fotografia universal, porém em suas versões algorítmicas. “Ela trata da relação da memória orgânica com a da máquina. O que a gente produz de imagem, como salva, como compartilha essa imagem numa época que a própria foto está sob suspeita?”, questiona Flavya. “Para mim, o que mais interessa é: o que vale a pena a gente lembrar? As pessoas falam muito do que elas lembram da foto original, mas, para todos, algum elemento foi esquecido”, provoca. A esse descompasso entre a imagem real e o que as pessoas lembram dela a artista chama “desmemória”, uma combinação de lembrança e esquecimento, mas em fluxo. “O ‘des’, neste caso, está mais ligado ao deslocamento do que a esquecimento”, pontua.

MEMÓRIA SELETIVA

Esta é a primeira vez que a artista apresenta as duas séries simultaneamente, em uma espécie de laboratório de teste. “A obra em si é um pretexto, não é o fim, pelo menos pra mim”, diz. Na mostra, é possível encontrar desde a primeira imagem fotográfica, produzida no século 19, até algumas bem recentes. “Algumas fazem mais sentido ao estar aqui em Belém, porque são de artistas daqui”, avisa.

Nesta seleção, a artista levou em consideração sua própria trajetória e memória. “Enquanto eu conhecia Bresson, também acompanhava Luiz Braga, Elza Lima e colegas que surgiam junto comigo, como Alberto Bitar e GuyVeloso. Não tenho como tirar essas imagens da minha memória, elas estão no mesmo patamar”, justifica.

E o que faz a gente lembrar uma coisa e apagar outra? “Minha ideia era apagar a experiência inicial e colocar a fotografia como espaço territorial. Se você for no Google pesquisar as dez fotos mais importantes do século 20, 19…, vem as seleções mais estapafúrdias, e cada um cria as suas associações mais diversas, ainda mais se você começa a perguntar em outros idiomas”, diz. “Tinha de falar das fotografias que estão aí, que entram na nossa cabeça, na nossa formação, e ao longo da vida a gente vai reencontrado em livros, no Google... Essa hipótese só se confirma quando sugeri uma imagem às pessoas e elas disseram ‘eu lembro dessa foto, ela é isso, isso, isso’. Depois mostro a foto em si e ela diz: ‘Nossa, não é o que lembrava’”, instiga a fotógrafa.

ABERTO AO PÚBLICO
Exposição “Arquivo 2.0 – Desmemórias Fotográficas”, de Flavya Mutran
Abertura: Hoje, às 18h30
Visitação: De 18 de maio a 24 de junho, de segunda a sexta, das 9h às 17h
Onde: Banco da Amazônia (Presidente Vargas, 800)
Informações: (91) 4008-3213
Saiba mais: www.arquivodoispontozero.com.br e www.flavyamutran.com.br

(Lais Azevedo/Diário do Pará)

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