A pergunta é simples e é a que muitos que transitam no circuito cultural de Belém têm se feito: “O Gotazkaen vai mesmo fechar as portas?”. A resposta sobre o funcionamento do espaço independente que se tornou um dos mais ativos na produção local - promovendo shows, festas, exposições, palestras e encontros - é um pouco mais complexa, afirma Daniel Zuil, um dos sócio-fundadores da galeria, que hoje também é estúdio, bar, co-working, loja e cozinha. “O Gotaz completa agora nove anos de existência. E por conta disso é fundamental que a gente pare e repense o que vai ser dele nesses dez anos que vai completar em 2017. Se a gente não der um tempo agora, não conseguiremos realmente nos preparar para essa nova década”, diz Zuil.
Após o anúncio oficial em redes sociais – quem frequentava a casa já ouvia pelos cantos sobre o possível fechamento – foram mais de 200 comentários questionando as razões e se realmente era o fim ou uma mudança de endereço. A saída da casa, localizada na Rui Barbosa, no bairro do Reduto, está confirmada. E é a deixa perfeita para por o Gotazkaen para refletir. O local, alugado há um ano e meio, será entregue no dia 11 de junho. Quanto à continuidade em outro endereço, Daniel afirma que “não existe possibilidade do Gotaz acabar”, pelo menos não para ele, um dos três sócios da galeria, mas diz que “por enquanto, é uma parada por tempo indefinido” .
O Gotazkaen começou com Daniel Zuil e a fotógrafa Diana Figueroa – que hoje mora e estuda no Rio de Janeiro. Começou como um estúdio de design e fotografia, mas de forma muito rápida migrou para um coletivo de artistas. “Em questão de três semanas a gente abriu uma primeira exposição, comigo, Leandro Bender, Gabiru Cavalcante, Rodrigo Cantalício e Diana Figueroa. Nesse momento a gente percebeu que podia trabalhar com as pessoas, trazê-las para dentro do estúdio”, diz ele.
No início, a dupla passou por uma série de dificuldades relacionadas a montar uma empresa, “o que é normal”, diz Daniel. Mas assim que abriu seu primeiro espaço, cada vez mais pessoas passaram a querer interagir com a casa. “Hoje a gente tem uma loja com nove produtores de design e moda local, um espaço de co-working que fala de tecnologia da informação e empreendedorismo, uma cozinha vegana, tem um bar gigantesco, que recebe uma média de 200 pessoas por dia. A gente agrega hoje, além do Gotazkaen, várias pessoas e até outras empresas”, destaca.
Por isso alguns desafios do tipo “como vou atender a 600 pessoas numa noite de Carimboom?”, uma das festas mais populares da casa, surgiram no último ano. Mas o desafio maior, diz Daniel Zuil, é fazer do Gotazkaen um espaço de troca constante entre suas diferentes faces de atuação. “O cara entra, tem uma loja, tem um co-working, comida vegana, estúdio de tatuagem, piercing, tem exposição. Precisamos pensar como a gente vai conseguir fazer as pessoas circularem entre todas essas possibilidades de uma maneira legal”.
PROJETO PARA INICIAR UMA RESIDÊNCIA ARTÍSTICA
O Gotazkaen também parece preocupado em não perder a razão pela qual nasceu: ser um espaço dedicado à arte, desde a produção, até a troca, reflexão e experimentação. “Nós estamos pensando em abrir um edital de residência artística. Fecham o MinC, o que deve ser debatido com muita força, e a gente já vem e diz: ‘Quer saber, a gente vai financiar essa galera’. A gente nunca, jamais, quer perder esse viés de que aqui dentro você terá contato com a arte. Mas a gente tem que pensar uma maneira de como fazer tudo isso funcionar, porque é muito difícil”, diz Daniel.
No caso de oferecer uma residência artística, o sócio-fundador da Gotaz lembra que será preciso abrir espaço que permita ao artista trabalhar, ser bem recebido. Além disso, ele também quer repensar a realização de festas. “Como serão essas festas? Quem a gente vai trazer para tocar?”. Outra questão é o próprio lugar onde eles atuam hoje, em que as festas e eventos com grande público passaram a incomodar a vizinhança.
“A gente entende essas pessoas, e é fundamental que a gente as respeite também. Mas o fato é que se tornou muito difícil trabalhar com a pressão de não saber se você vai ter aquele espaço no dia seguinte. Isso estava deixando a gente muito cansado, o medo de chegar aqui e de repente o Ministério Público fechou o lugar, ter que pensar em papelada e tanta coisa, além do trabalho que a gente já tem”, diz Daniel.
Por isso, é improvável que um retorno ocorra no mesmo bairro, o que é lamentável, destaca Daniel, já que isso tinha possibilitado uma retomada dessa parte da cidade. Logo próximo à galeria há a sede da Se Rasgum Produções, o espaço Casarela, a Muamba Estúdio. “Com o grande movimento de pessoas, acabamos forçando a existência de um maior policiamento na área, as pessoas passaram a poder circular com menos risco de assalto. A bandidagem se sente intimidada com uma rua que tem a circulação de 200 a 300 pessoas à noite”.
E muita gente passou mesmo pelo local. “Das artes plásticas, foram mais de 50 artistas, mais de 50 músicos tocando, mostrando seu trabalho, mais de 30 performances. Acho que nisso a gente sempre contribuiu, sempre foi aberto a toda e qualquer linguagem. Até hoje, quando perguntam ‘como eu faço para expor aí?’, digo para me mandar um e-mail. O mesmo quando alguém quer mostrar sua música, ‘traz um violão aí e vamos conversar’. Recebemos muita gente legal, incentivamos muitas pessoas a produzir arte”, avalia Daniel.
A TURMA POR TRÁS DO GOTAZKAEN
Além do designer e músico Daniel Zuil, a fotógrafa Diana Figueroa, uma das fundadoras do espaço, continua sendo uma consultora para a equipe que faz o Gotazkaen, mesmo morando no Rio de Janeiro atualmente. “Até por ser mulher, a visão de mundo dela é diferente. As perspectivas dela sobre o Gotaz são diferentes”, comenta Daniel.
Atualmente, o local possui três sócios: Daniel, Alonso Nugoli e João Pedro Silva. Além deles, ainda atuam no local diversos profissionais que também ajudam nesse direcionamento.
Entre eles, Petrvs Figueiras, gerente da loja, o chef Frank, da Veg Casa, responsável pela alimentação na Gotazkaen, alguém fundamental, afirma Daniel. “É muito importante pra gente ter um conceito sobre isso, de como as pessoas que vêm aqui vão se alimentar, e ele tem uma visão sobre alimentação vegana, de respeito aos animais”.
Ainda tem o Luiz Sepeda, fotógrafo oficial da casa, “fundamental no processo porque as pessoas enxergam o Gotazkaen pelos olhos dele. Muita gente nem veio aqui ainda, mas conhece a casa pelo Sepeda”.
São cerca de 20 profissionais que trabalham diretamente com o espaço. “Claro que as decisões finais virão dos três sócios, mas ouvir os atores que fazem o Gotaz junto com a gente é fundamental, para descobrir o que será daqui em diante”, diz Daniel.
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
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