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Francês lança livro que se passa em Belém

Gilles Lapouge era um jovem jornalista francês desempregado. Por acaso, recebeu de um amigo a informação de que um jornal brasileiro, “O Estado de São Paulo”, estava com vaga aberta para um correspondente internacional por aqui. Arrumou as malas e não só

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Gilles Lapouge era um jovem jornalista francês desempregado. Por acaso, recebeu de um amigo a informação de que um jornal brasileiro, “O Estado de São Paulo”, estava com vaga aberta para um correspondente internacional por aqui. Arrumou as malas e não só encontrou um novo emprego, como um país multicolorido em diversos aspectos – das cores de pele ao clima das cidades, em contraste com o pós-guerra que enchia a Europa de cinza – e uma paixão para toda a vida: o Brasil.

Lá se vão mais de 65 anos desse episódio e muita coisa mudou de lá para cá, menos a ligação dele com o país. Daqui ele retornou à França, mas continua sendo correspondente do mesmo jornal por lá até hoje. E, aos 93 anos, suas memórias são dedicadas a lembrar de tudo o que viveu por aqui, inclusive um episódio em Belém que rendeu seu mais recente livro, “Nuits Tranquilles à Belém”, ainda sem tradução em português.

Em comemoração aos 400 anos da capital paraense, Gilles esteve em Belém na última terça-feira, para lançar a obra e falar ao público. E também para se emocionar, já que ele encontrou uma cidade muito diferente do que ele havia conhecido décadas atrás, mas sem que isso tirasse a emoção de seu peito. “É como se um rio estivesse passando em minha frente”, disse. A seguir, trechos da fala do jornalista – em um português arrastado mas ainda bem claro - para a restrita plateia presente na Aliança Francesa, que o recebeu por aqui.

Chegada ao Brasil

“Vim parar aqui por acaso, não escolhi o Brasil. Estava em Paris e encontrei um amigo de infância no Champs-Élysées, e disse que estava desempregado. Ele me avisou que um jornal do Brasil estava contratando e fiz um concurso com outras pessoas para a vaga. Cheguei ao Rio de Janeiro e fui recebido pelo diretor do jornal, Júlio Mesquita Filho, que fez a viagem só para me acolher. Íamos de carro até São Paulo, mas ele me convidou para dormir aquela noite no Copacabana Palace. Para mim, foi uma espécie de cinema: abri as janelas do hotel e vi um mundo colorido. Na França, havíamos acabado de sair de uma guerra e, como toda a Europa estava destruída, só carvão, era tudo cinza, sem cor. Aqui o país era colorido também por causa da pele das pessoas. No meu livro ‘Dicionário dos Apaixonados pelo Brasil’, conseguimos mostrar que existem 136 cores de pele aqui.”

Desbravando o Brasil

“O jornalismo no Brasil estava muito adiantado. Os jornais franceses ainda nem trabalhavam com máquina e aquela redação enorme do ‘Estado’, com uns 300 jornalistas escrevendo à máquina, para mim era muito barulhenta. Eu não falava uma palavra em português e não falava inglês – até hoje não falo inglês – e por isso foi um pouco complicado no início para mim, mas a gente brasileira era muito gentil comigo. Fazia crônicas econômicas e, por outro lado, reportagens. Não sou filósofo, mas olho e gosto de pequenas histórias. Sou contador. Viajei o Brasil inteiro e conheço muita coisa que nem os brasileiros conhecem. A própria região amazônica, por exemplo, tem muita gente de São Paulo que não conhece. Acho que até hoje o brasileiro não conhece a totalidade de seu país.”

Visita ao Pará

“Estive há 63 anos no Pará e agora encontro uma cidade absolutamente diferente. Quando falo isso tenho uma espécie de vertigem, como se um rio de 63 anos atrás estivesse passando em minha frente. Em 1953, estive em Marabá fazendo uma reportagem sobre ensino nos colégios de lá. Cheguei a uma determinada escola de padres italianos e, quando descobriu que eu era francês, o diretor mandou chamar o professor de francês. Vi na hora que havia algum problema, o professor estava muito pálido. Percebi que ele não sabia falar nada de francês, mas pensei: ‘Não posso fazer aquele coitado ser demitido’. Comecei a falar uma mistura de francês com latim, ele percebeu a minha estratégia e começamos um diálogo maluco, sem pé nem cabeça. Depois pensei que muitos meninos se formaram naquele francês errado por minha culpa, e até hoje deve ter em Marabá gente falando uma espécie de dialeto misturando português, francês e latim que inventamos naquele dia (risos).”

“Charlie Hebdo”

“Na França não há censura, só aquelas normais, da linha editorial do jornal. Se eu trabalho no ‘Le Figaro’, não vou fazer um artigo dizendo que a esquerda é melhor que a direita, porque ele não será publicado. Mas vivemos tempos de intolerância. A totalidade da França ficou consternada com o que ocorreu no ‘Charlie Hebdo’ [quando a redação foi invadida por terroristas e muitos jornalistas foram assassinados], mesmo quem não era muito a favor do que ele fazia. Eu, por exemplo, achava que ele não deveria fazer caricaturas tão feias de Maomé, porque não aceitaria se fossem feitas caricaturas de Jesus Cristo ridicularizado, então Maomé também não acho interessante que tenha este tratamento. Mas isso não justifica a intolerância.”

O Brasil pelos franceses

“A Europa como um todo tem imagens de horror do Brasil. De sangue, de tiroteio, de país violento. Mesmo assim, o Brasil tem uma mitologia especial, quase desconhecida. A França ama o Brasil, mas não sabe por quê. Para mim, é um dos países mais calorosos, cheios de ternura, mesmo em cidades mais duras como São Paulo. O Brasil não tem a educação com polidez, mas tem a educação que vem direto do coração. Uma vez, cheguei às 3h de viagem de ônibus a Natal e decidi não ir para o hotel, e sim dormir na praia, com a cabeça sobre a mala. Quando acordei, percebi que meu rosto não estava exposto ao sol, e descobri que uma criança segurava um guarda-sol para me proteger há horas. Hoje a França está de olho na Amazônia, que é a chance da humanidade. Aqui está vegetação, água e muita coisa a ser descoberta pela indústria farmacêutica, por exemplo.”

Pierre Verger

“Fui à Bahia nos anos 1970 e Jorge Amado me apresentou a Pierre Verger. E Verger me apresentou a Bahia. Ele era um dos maiores conhecedores das religiões de base africana no Brasil e me levou para cultos ocultos com filhos de santo que dançavam.”

Crise no impresso

“Todos os jornais impressos no mundo estão passando por uma fase de readequação e isso no Brasil tem sido sentido com muitas demissões porque aqui os jornais dependem mais da publicidade. Aqui tem jornais que, aos domingos, chegam a 100 páginas; na França, no máximo chegam a 30. Agora com a internet os jornais correm muito perigo e a crise é evidente, mas não acho que seja tão doloroso quanto a gente pensa. Há uns três anos, o mercado de livro na França viveu uma grande crise e hoje as pessoas voltaram a ler e isso se equilibrou. Quando a fotografia foi inventada, lá por 1850, pintores impressionistas como Monet e Renoir achavam que estariam mortos, porque não podiam combater a fotografia. Depois a pintura se reinventou, veio Picasso, e hoje a produção nunca foi tão importante, poderosa e cara.”

Crise política no Brasil

“Dilma Rousseff não é uma figura para a França como o Lula foi e continua sendo, mesmo ele tendo feito muita besteira. Mas chocou muito a França esta demissão da Dilma e a instalação do novo governo foi muito mal recebida. O mundo não entende o atual momento brasileiro.”

(Esperança Bessa/Diário do Pará)

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