Prólogo. Assim começa uma peça de teatro e se apresenta o enredo de um espetáculo. Mas a Companhia Caixa do Elefante Teatro com Bonecos, do Rio Grande do Sul, resolveu usar uma redundância para nomear o seu mais novo espetáculo, “Prólogo Primeiro”, com o objetivo de enfatizar duas questões: a experimentação no grupo entre corpo de atores e corpo de bonecos, e a encenação de texto homônimo, juntamente com “O Fim do Sr. Peixe e da Sra. Espinha”, do diretor cenógrafo britânico Edward Gordon Craig (1872-1966) – que são inéditos no Brasil e pela primeira vez são montados em português. A peça será apresentada hoje e amanhã, no Teatro Waldemar Henrique, com direção e concepção visual Paulo Balardim.
Instigado por novas práticas de criação teatral o grupo, que completa 25 anos de atuação em 2016, resolveu apostar em outras técnicas de bonecos. A companhia já fez peças com técnicas tradicionais, com o uso de fios, luvas, bastão de varas, nas quais o ator não aparece por completo e o personagem manipulado é o protagonista. Desde 2010, no entanto, com a entrada de novos integrantes, a companhia investiga de que forma o ator também pode se envolver ao corpo inanimado para se completarem cenicamente.
“Investigamos essa co-presença do ator com o boneco e buscamos essa relação da presença do corpo do ator com a presença do corpo do boneco. E isso nos motiva. A atriz e o ator interagem com o boneco para compartilhar o mesmo corpo. E o corpo do ator é o corpo do boneco, e esse paradoxo a gente tenta buscar, para essas novas formas de sentir”, explica o diretor. “A gente já vem trabalhando e desenvolvendo essas pesquisas desde a montagem de ‘A Tecelã’, sobre a presença visível do ator contracenando com o boneco em escala humana, com bonecos incompletos, que não possuem todas as partes do corpo e necessitam do corpo do ator para criação de um novo ser”, completa Balardim.
EXPERIMENTAÇÃO CÊNICA FOGE DO ÓBVIO
A escolha do autor britânico Edward Gordon Craig foi fundamental para as questões que movem o grupo, já que se trata de um dramaturgo que rompeu com paradigmas teatrais do século 19 e início do século 20, representando um momento de ruptura e impulso criativo nas artes cênicas. Conhecido pelo conceito de “teatro do futuro”, o diretor é considerado revolucionário por sua técnica com bonecos e a “supermarionete”, com outra abordagem pedagógica teatral. Isso alterou ainda mais as questões estéticas no palco.
“Ele é um dramaturgo e pesquisador teatral muito importante para as vanguardas do século 20, pois representa toda uma classe de artistas que estavam insatisfeitos com o modo naturalista que o teatro era feito. Ele buscou outro modelo de atuação para o ator, mais ligado ao simbólico, e encontrou essa experiência na marionete, com outro modelo de atuação para o ator. Também é importante na parte da cenografia, pois propõe um conteúdo dramatúrgico diferente ao se contrapor ao teatro textocêntrico, baseado no texto. E isso nos fez chamar atenção para esse autor”, diz Paulo Balardim.
O autor não é muito encenado e a companhia decidiu também homenageá-lo no ano que completa 50 anos de sua morte. Ele é mais conhecido no meio acadêmico, teórico, pelas suas concepções de espaço cênico e do uso do ator. A própria companhia fez a tradução dos textos, a partir de um livro do Institut International de la Marionnette. Paulo diz ainda que, ao final da vida, Craig se propôs a escrever 365 peças, mas acabou deixando prontas pouco mais de 100 e outras tantas inconclusas. Esse viés representa também a forma que o autor buscou construir suas peças, sem histórias coerentes ou enredos fechados, mas a partir da mistura de várias histórias, que possibilitam entendimentos de sensações e não de um enredo específico. O diretor acredita que o resultado pode ser até mesmo “perturbador”, por isso enfatiza que a peça é indicada para maiores de 14 anos e não se destina ao público infantil.
“São textos simbolistas, parecem nonsense, apresentam certa incoerência, mas têm um bom mote para criar cenas cômicas, paródicas. Talvez o público ache estranho, é perturbador. Geralmente as pessoas vão ao teatro para encontrar o que está em cena, uma história, mas propomos mais sentir a cena do que encontrar um sentido. Isso repercute no espectador e vai fazer com que ele sinta coisas ao ver aquilo, tenha sensações, e provoque memórias e emoções. Então, a gente se despreocupou em contar história, de fazer um teatro com início, meio e fim, mas criar cenas que provocassem sensações. É como ver um pôr do sol: é bonito, é belo e a gente se sente bem. A premissa do espetáculo é essa”, conclui Paulo Balardim.
ASSISTA
Espetáculo “Prólogo Primeiro”, da Companhia Caixa do Elefante Teatro com Bonecos
Quando: Hoje a amanhã, às 20h
Onde: Teatro Experimental Waldemar Henrique (Praça da República)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
Classificação: 14 anos
Informações: (91) 3222-4762
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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