Baseado não na obra, mas na mulher que foi Clarisse Lispector, o grupo Geda Cia. de Dança Contemporânea, de Porto Alegre (RS), criou o espetáculo “Não Me Toque, Estou Cheia de Lágrimas. Sensações de Clarice Lispector”, com apresentações em Belém na próxima quarta e quinta-feira (sendo esta segunda sessão com audiodescrição para o público cego), sempre às 19h, na Escola de Teatro e Dança da UFPA. Além do espetáculo, haverá uma oficina de processo criativo em dança, hoje, às 17h, no mesmo espaço. Tudo com entrada franca.
Espetáculo solo que conduz o público pelo misterioso e fascinante universo de Clarice Lispector, esta obra coreográfica é baseada na personalidade, nos movimentos e na profundidade da prosa poética da escritora. A montagem constitui-se de três partes: o nascimento, a infância e a vida adulta de Clarice. Transita, assim, da dimensão lúdica aos conflitos da maturidade.
Afinal, “o adulto é triste e solitário”, já “a criança tem a fantasia solta”, como diferenciou a própria Clarice em sua última entrevista, na qual também baseou-se a pesquisa do grupo de dança. “A concepção de ‘Não Me Toque...’ tornou-se uma aventura perigosa e desafiadora para a criação desta obra coreográfica de dança contemporânea. Cada informação obtida através de diversas biografias da escritora fazia com que o investimento na pesquisa se desdobrasse em mais dedicação e trabalho”, afirma a diretora e coreógrafa do espetáculo, Maria Waleska Van Helden.
INTIMIDADE
A companhia gaúcha Geda transpõe a intimidade das palavras de Clarice à linguagem da dança por meio da moldura gestual da bailarina Fabiane Severo. “Esta obra foi concluída sob o signo da beleza e sensibilidade de Clarice. Tocar nas sensações dela contaminou todo o elenco. Neste espetáculo, a vida desta instigante mulher se transforma em movimento e chega ao público com revelações plurais, mesmo ela sendo singular, mas que, dentro de si carregava uma imensidão de gestos, deslocamentos e movimentos”, completa Maria Waleska
A obra ganhou o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2014 – Circulação, reconhecendo a trajetória da companhia de dança contemporânea fundada em 1980, e que teve atuação marcante no interior do Rio Grande do Sul. A mudança do grupo para Porto Alegre, conta a diretora, se deu em 2002, permitindo desenvolver de forma mais ampla “um trabalho de dança contemporânea e dança teatro ou teatro coreográfico”, define.
Neste espetáculo, o grupo ainda agrega outros artifícios, que levam a produção a um enlace também com a performance e a projeção de imagens em vídeo, que fazem interação entre público e artista. “O nosso trabalho lida com o gestual mais natural e perto da emoção propriamente dita, bem mais que o movimento pelo movimento. Tem intenção, razão e pesquisa corporal”, diz a coreografa.
Entre as pesquisas biográficas que fundamentam o espetáculo estão importantes trabalhos como “Clarice,”, tida como a mais completa biografia de Clarice Lispector, escrita pelo norte-americano Benjamim Moser. Nela é revelada, pela primeira vez, aspectos fundamentais na trajetória da escritora, desde a origem miserável e violenta na Ucrânia – para onde o autor viajou – ao reconhecimento crítico. Detalhes que se somam à entrevista que Clarice concedeu ao jornalista Júlio Lerner e publicada, atendendo a um pedido dela própria, após sua morte, revelando aspectos do encontro entre o seu lado escritora e seu lado mulher, ou mesmo adolescente e criança.
“Você poderia nos dar uma ideia do que era a produção da adolescente Clarice Lispector?”, pergunta o jornalista em determinado momento. E ela revela: “Caótica. Intensa. Inteiramente fora da realidade da vida”. E são esses sentimentos, traduzidos em gestos e passos, que a companhia gaúcha pretende apresentar ao público de Belém.
Oficina de processo criativo em dança
O processo criativo que levou às coreografias de “Não Me Toque…” também servirá como base para a oficina que o grupo ministra hoje, na Escola de Teatro e Dança da UFPA, com 30 vagas para alunos, professores, gestores em dança e/ou teatro, a partir dos 16 anos. A atividade é gratuita e cada participante deverá levar um par de sapatos de sua preferência para ser usado como elemento cênico e ponto de partida para a elaboração de uma performance.
A oficina pesquisa o espaço corporal e conexões articulares dos alunos, que serão conduzidos pela própria diretora do espetáculo, Maria Waleska Van Helden. No desenvolvimento do processo, os participantes entrarão em contato com o trabalho desenvolvido pela Geda Cia. de Dança.
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
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