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História gravada em fina estampa

Ornamento de construções históricas nos bairros do centro de Belém, principalmente na Cidade Velha, Campina e Reduto, os azulejos são heranças do período da colonização da cidade e vieram de países como Portugal, França e Alemanha, principalmente. O mater

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Ornamento de construções históricas nos bairros do centro de Belém, principalmente na Cidade Velha, Campina e Reduto, os azulejos são heranças do período da colonização da cidade e vieram de países como Portugal, França e Alemanha, principalmente. O material, não só pelo teor histórico, mas também pelo seu caráter estético e técnico, instigou as pesquisadoras Dora Monteiro Alcântara, Stella Regina de Brito e Thaís Sanjad a elaborarem o livro “Azulejaria em Belém do Pará - Inventário – Arquitetura Civil e Religiosa – Século XVII ao XX”, em que estão catalogados 274 tipos de azulejos , 149 de guarnições (aqueles em formato de friso e moldura) e ainda 49 de temática religiosa, os chamados devocionais. A publicação, lançada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Rio de Janeiro, no último dia 6, terá lançamento na capital paraense, provavelmente em setembro.

O livro é a consolidação de pesquisas que vêm sendo desenvolvidas desde de 1971 pelo engenheiro Pedro Alcântara, já falecido, e sua esposa, a arquiteta e urbanista Dora Alcântara, vinculados ao Iphan do Rio de Janeiro, e ainda Jorge Derenji e Maria Dorotea de Lima, da sede do órgão no Pará. Possui textos sobre a história do desenvolvimento urbano de Belém, a evolução de técnicas e materiais de fabricação dos azulejos, bem como a aplicação deste elemento na arquitetura civil e religiosa. As autoras também classificaram os azulejos conforme sua tipologia e disponibilizaram na publicação fotoagrafias de um a um. Outro anexo é a lista de navios com as importações e os recortes de anúncios de jornal da época, além de mapas da localização dos imóveis.

As autoras explicam que a cerâmica, que é a base dos azulejos, é uma técnica muito conhecida mesmo antes da era cristã, e foi difundida por civilizações antigas, a partir do uso do barro. Com as descobertas chinesas dos processos de fusão de esmaltes a partir de temperaturas elevadas, foi possível revestir o material – o que se reconhece ter surgido na cultura do Islã, sob a forma de “alicatado”, a técnica que permite a junção de azulejos para a criação de uma determinada forma gráfica e inscrição de palavras. Na Europa, foi por meio dos califados ibéricos que a tradição tomou novo rumo, com a população mudéjar, em Sevilha. Já em Portugal, foi D. Manoel I que iniciou a introdução dos azulejos, já que diz a história, ele teria se encantado com o material visto em Alhambra.

E de lá, a tradição veio para o Brasil, primeiramente para a região Nordeste, ainda no século 16. Mas só se tornou difundido em outras capitais a partir do século 17. “Em várias cidades brasileiras, especialmente nas nordestinas, ainda podem ser vistos conjuntos desses revestimentos. Muito expressivos são os de São Luís e Belém. Nesta, porém, ainda que prevaleçam os exemplares de produção portuguesa, são muito numerosos os de outras procedências, assim como é mais extenso o período de importação, devido à riqueza proporcionada pela exportação da borracha”, diz trecho do livro, fazendo referência ao período da Belle Époque, quando o projeto de embelezamento da cidade também foi fundamental para o aumento das casas com azulejo.

Sobre o quesito técnico, as autoras destacam que Belém ainda guarda boa parte da evolução tecnológica da produção de azulejos na Europa, em diversificado acervo com técnicas artesanais, semi-industriais e industriais. Elas destacam que nesses mais de 400 anos, a maneira como o produto é elaborado sofreu várias modificações, por exemplo, na sua espessura, coloração que varia do branco ao bege, rosa ou vermelho; e ainda o peso, além de outras mudanças mineralógicas e químicas. “Essas características são adquiridas em função da tecnologia empregada na preparação, moldagem e queima da pasta cerâmica, que é constituída principalmente de argila”, informa a publicação.

De acordo com Maria Dorotea de Lima, superintendente do Iphan no Pará e Amapá, trata-se de um livro referencial com informações inéditas sobre o tema e que se torna um importante meio de divulgar as classificações para os azulejos, tipologias e procedência. “Foram feitas diversas etapas de pesquisa. Enquanto a Dora e a Stella se debruçaram sobre a parte do inventário, da classificação e da origem, numa perspectiva histórica e de catalogar, a Thais pôde colaborar com a parte técnica, abordando como as peças eram feitas. Ainda esperamos que haja um segundo momento, comparativo, sobre as perdas desse material na cidade”, diz a superintendente.

Pesquisa teve início nos anos 1970

A relação de Dora Alcântara com o Pará é curiosa: mesmo antes de pisar na cidade, recebeu do marido, que veio à capital paraense participar de um evento, uma lista de imóveis com a fachada azulejada. Quando chegou aqui em 1958, foi aos pontos anotados e passou a fazer desenhos dos motivos estampados nas residências. Ela já havia morado em São Luís, no Maranhão, onde costumava catalogar peças por meio de desenhos e já tinha feito uma pequena publicação sobre o assunto. O maior especialista em azulejos no país, João Miguel dos Santos Simões, soube que a jovem profissional estava realizando por conta própria o trabalho e a chamou para uma temporada em Portugal, concedendo a ela uma bolsa de estudos. Foi quando ela se aprimorou nos desenhos, a partir de técnicas específicas para a catalogação do material. Voltou a Belém mais de 20 anos depois, em 1979, e recebeu a proposta de fazer uma pesquisa para a cidade.

“Eu gostei muito da cidade, achei um encanto, tem esse gosto pelo europeu, mas com tratamento diferente. Quando voltei, o governador Fernando Guilhon, que era entusiasmado pela questão do patrimônio, me perguntou se eu não queria fazer o mesmo que já tinha feito em São Luís com os azulejos de Belém. Respondi: ‘Claro que sim’. Voltei para o Rio e conseguimos verbas junto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para realizar o estudo e fizemos uma pesquisa histórica”, conta Dora.

A arquiteta diz que Belém guarda relíquias seculares. “No livro, a gente mostra os azulejos da Capela de Santo Cristo, que são os primeiros exemplares do século 17, do reinado de Dom João V, Portugal. E da segunda metade do século 18, do Convento de Santo Antônio, que são os únicos no Norte desse período”, revela.

(Dominik Giusti)

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