Felipe e Manoel Cordeiro são claramente duas gerações da música paraense e grandes representantes de cada uma delas, dividem o mesmo sobrenome artístico, e, atualmente, o mesmo interesse pelos ritmos caribenhos que há décadas desembarcaram no Pará.
Juntos, fazem da guitarra instrumento mais que suficiente para colocar todo mundo para dançar. É bonito ver o encontro deles no palco, sincronia pura, uma relação pai e filho também.
Por isso, neste Dia dos Pais, o DIÁRIO procurou os dois para saber um pouco dessa parceria musical e de vida, para contar a história desse encontro do ponto de vista de cada um: Do pai que torcia para o filho gostar de música e do filho que ia aos estúdios de gravação com a bola embaixo do braço, sonhando em ser jogador de futebol.
Amizade, admiração e respeito
Como é ser pai/filho um do outro?
Felipe: É um aprendizado constante e uma aventura (risos). O papai é um ser muito autêntico e intenso também, às vezes preciso de um pouco mais de energia pra acompanhar (risos). Mas no fundo é um grande barato ser filho dele.
Manoel: Algo especial. Ele é uma pessoa legal, um ser humano justo, trabalhador. Agora, pelo lado de ser artista, músico, é muito mais especial, porque pode fazer a marcação junto, pode solar junto, compor junto. Fazer uma porção de coisas que me fazem muito orgulhoso.
É meu único filho. Pelo ser humano, pelo músico, temos uma relação muito tranquila, sempre conversando e discutindo sobre tudo, fazendo coisas juntos, às vezes separados, sempre torcendo um pelo outro. O nosso fio condutor é amizade e respeito um pelo outro.
Tem alguma lembrança dessa relação de pai e filho que é especial pra você?
Manoel: Uma vez eu fui inaugurar um programa em Macapá e tinha um quadro que eu precisava de alguém da área de literatura, não tinha ninguém pra aquele dia. Ele tinha ido comigo e convidei ele para gente fazer como se fosse uma conversa entre nós dois. Ele tinha feito uma música que eu achei interessante a poesia. Na hora, no programa, perguntei “como é que você começou a pensar essa música?”. E ele disse: “Foi naquele livro, que você me deu, Flicts”.
Ele me pegou. Foi muito legal perceber que um simples livro, que eu nem lembrava que eu tinha dado a ele, deixou marcado algo na vida dele. Esse livro, “Flicts” é do Ziraldo e fala que todas as cores são bonitas, o azul é bonito, o amarelo é bonito, mas nenhuma era tão bonita quanto flicts, até que um astronauta chegou perto da luz e descobriu que ela era flicts.
Como foi o período de infância e adolescência com um pai músico?
Felipe: Venho de uma família de músicos. Meu tio Barata (da banda Warilou), meu avô Cordeiro eram músicos, então pra mim foi muito natural ver meu pai seguir o mesmo caminho. O papai foi produtor musical por muitos anos e quando eu era criança costumava acompanhá-lo nas gravações.
Às vezes brincava de bola sozinho nos estúdios (risos). Também ia pros shows e viajava junto algumas vezes. Na adolescência tive um afastamento natural porque comecei a me interessar por outros caminhos na música. Nos “reencontramos” musicalmente em 2010 quando gravei o “Kitsch Pop Cult” (2012).
Manoel: O Felipe cresceu nesse meio musical, foi criado no meio da minha atividade, em estúdio, viagens, eu produzia muitos discos e ele vivia comigo pelo estúdio. Ele nunca demonstrou interesse pela música, também não quis forçar a barra, mas claro que eu torcia para um dia ele gostar. Ele queria ser jogador de futebol, dizia que isso que dava muito dinheiro (risos).
Quando ele tinha uns 11 anos tocava uma bateriazinha no palco e ficava tirando onda. Até que um dia eu tava em Manaus e ele disse pra eu trazer um teclado pra ele de lá. Pensei, “égua, Felipe interessado?”. Eu trouxe e deixei com ele. Depois perguntei se queria mesmo aprender, eu conhecia um professor da universidade e ele estudou seis anos piano clássico, se formou.
Sabemos que hoje rola uma grande parceria musical entre vocês. Como ela surgiu?
Felipe: Surgiu quando chamei meu pai pra gravar a guitarra do meu disco “Kitsch Pop Cult”. Nesse momento me dei conta que tinha muito a aprender com ele, que a parceria seria fundamental na minha carreira.
Manoel: Com 14 pra 15 anos, em 1995, ele se interessou em compor. Comecei a achar interessante as letras dele, mas era toda uma outra língua de música que eu não mexia. Em 2006, ele fez um disco, “Banquete”, tem até uma música nossa lá, mas era um disco mais cabeçudo, profundo. Até que em 2009 ele queria outro disco (Kitsch Pop Cult) e me convidou pra participar.
Daí, me convidou pra ser guitarrista da banda dele em 2010, acabei fazendo meu disco com a produção dele, e estamos juntos até hoje. A gente está planejando ir pra Europa esse ano, temos vários projetos pra realizar.
O que você aprendeu com ele ao longo dessa parceria musical e como é hoje dividir o palco com seu pai?
Felipe: O meu pai é músico extraordinário e sem dúvida uma grande referência. Aprendo sempre com ele. Por sermos de gerações diferentes, sempre rolam muitas trocas musicais e de experiências entre nós. Essa é a nossa grande parceria. (Sobre dividir o palco:) É intenso, um privilégio.
(Lais Azevedo / Diário do Pará)
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