Após mais de dois meses de intensa movimentação na internet, de mobilização artística local e nacional, de programações aos domingos na Casa das Onze Janelas, de debandada do chef Alex Atala do projeto e até de uma reunião com o governador do Estado, Simão Jatene, que deu em nada, o movimento que é contrário a retirada do museu de arte contemporânea de mesmo nome instalado no prédio para a implantação do Polo de Gastronomia do Pará finalmente conseguiu que audiência pública pleiteada durante todo esse período fosse marcada. O encontro ocorre hoje, a partir das 15h, no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil – PA (OAB-PA), em Belém.
O movimento se intensificou após a publicação do decreto Nº 1.568, de 17 de junho de 2016, no dia 20 do mesmo mês. O anúncio oficial do empreendimento, que pegou a todos de surpresa, gerou um enorme descontentamento na classe artística, que não aceita o fechamento do espaço cultural em funcionamento há 14 anos, e que faz parte do Complexo Feliz Lusitânia. Além disso, artistas, curadores, professores e arte-educadores reclamam da maneira arbitrária com a qual a implantação do novo projeto, voltado para a culinária, vem sendo conduzido. Val Sampaio, artista e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), lembra que ficou sabendo do Polo Gastronômico por meio da imprensa, por notícias publicadas em 2015, quando da realização da Expo Milão, na Itália, onde o projeto foi apresentado. Mas
não imaginava que o museu seria extinto a reboque. A expectativa, agora, com a audiência pública, é ouvir as diversas vozes envolvidas neste processo, o que deveria ter sido feito de forma democrática no início. “A gente espera que o governo esteja presente e nos dê respostas sobre o decreto, sobre o que significa de fato o Polo. Queremos reverter o decreto e a audiência é um dos passos para isso. Não estamos advogando em causa própria. Precisamos, além dos artistas, de toda a população lá. Lutar pelo museu não é somente uma causa para os professores e artistas, mas para toda sociedade”, defende Val Sampaio. Ela espera ainda a participação de representantes do Ministério Público Federal (MPF) e Estadual (MPE).
O movimento chegou a publicar nas redes sociais um manifesto após a reunião com o governador do Estado, fazendo diversos questionamentos como a falta de transparência no processo de implantação do Polo e os motivos de não se levar o projeto para outro prédio histórico da capital paraense, já que o Museu das Onze Janelas tem toda sua estrutura em pleno funcionamento. Os integrantes da comissão de artistas querem saber claramente quais os critérios de escolha do prédio, o que será feito com o acervo de obras adquirido ao longo dos anos, de que forma as ações com escolas serão continuadas e até quem faz parte do projeto e de que forma ele vai impactar a cultura e a identidade paraense. Perguntas que esperam ser respondidas durante a audiência.
“Estamos em uma batalha uma guerra longa, e estamos usando as estratégias legais para reverter esse decreto. E a população precisa brigar pelas suas conquistas. As atividades do museu são ferramentas para a formação sociocultural, política e sensível para uma sociedade. Nenhum argumento nos convence de que extinguir um museu seja um benefício e o modo como foi pensada a retirada do museu implica na morte do espaço”, acrescenta Val Sampaio, informando que o movimento pretende entregar ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) o resultado de uma petição virtual com mais de 3 mil assinaturas.
De acordo com a advogada Leny Carvalho, da OABPA, o movimento protocolou um documento na ordem no dia 21 de julho, solicitando apoio no caso. A Comissão de Arte e Cultura fez uma análise do material e decidiu que era de relevância fazer a audiência pública. “A gente vê esse impasse como um movimento natural da sociedade civil, que proclama que o espaço seja permanente, que não seja alterado, e por isso a comissão deseja realizar o fórum de discussão, para chegarmos a uma solução viável. É uma forma de expor anseios para os vários segmentos envolvidos neste contexto”, explica.
Entenda a confusão
O movimento pela manutenção do Museu de Arte Contemporânea Casa das Onze Janelas teve início para buscar um diálogo com o Governo do Estado, na tentativa de buscar informações sobre o procedimento de implantação do Polo de Gastronomia do Pará, projeto que envolve mais de dez instituições, como o Instituto Paulo Martins, o Centro de Empreendedorismo da Amazônia, o Instituto Socioambiental, o Imazon, o Conselho das Populações Extrativistas e o Instituto Peabiru. Está vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Social, Mineração e Energia (Sedeme), com apoio da Secretaria de Estado de Turismo (Setur), e recentemente foi apresentado como um dos principais projetos do Programa Pará 2030.
Diante das repercussões negativas sobre a iniciativa do Governo, o chef Alex Atala, que comanda o Instituto Atá e até pouco tempo também estava no jogo, anunciou sua retirada do projeto, mas nem isso convenceu o movimento. As ações começaram a tomar corpo, inclusive com repercussão nacional, justamente pela postura do famoso chef paulistano, que bateu em retirada.
O curador e pesquisador em fotografia Eder Chiodetto, que está com uma mostra instalada na Casa das Onze Janelas atualmente; Tadeu Chiarelli, diretor da Pinacoteca de São Paulo; Heloísa Espada, coordenadora Departamento de Artes Plásticas do Instituto Moreira Salles (IMS); e Rubens Fernandes Júnior, diretor do Departamento de Comunicação da Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP, de São Paulo, são alguns dos nomes de expressão nacional que declararam apoio ao movimento em prol da manutenção do Museu da Casa das Onze Janelas
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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