“O maior capital da Fotoativa é o capital humano”, diz Miguel Chikaoka, fundador da entidade que virou referência na formação e união de fotógrafos no Pará, numa história construída coletivamente por 32 anos, celebrados no último dia 14, e que resultou na geração de novos fotógrafos, professores e pesquisadores do assunto. A programação de aniversário começa hoje e a data não poderia ser melhor, quando se celebra o Dia Mundial da Fotografia.
A história da associação se inicia quando um grupo de fotógrafos empenhou-se de maneira peculiar para fazer e pensar a fotografia. Ana Catarina, Patrick Pardini, Luiz Braga e o recém-chegado à capital Miguel Chikaoka – que é natural do interior paulista e retornava ao Brasil depois de uma temporada na França – queriam entender a linguagem como prática artística, na contramão da fotografia de registro, documental, que era feita de maneira intensa no estado. Mobilizados em torno de projetos coletivos, eles foram essenciais para criar o panorama da fotografia hoje, e entre grupos diversos e atividades comuns desenvolveram ações embrionárias para a criação da Associação FotoAtiva.
A questão pedagógica – que é uma das marcas da associação – foi começando a se delinear quando Miguel, que até então não havia desenvolvido uma atividade com ensino da fotografia, foi convidado para ministrar a oficina “Iniciação à Arte Fotográfica”, reunindo os interessados no assunto, que, para além das questões técnicas, também se preocupavam com uma reflexão crítica. “Esse foi o primeiro foco de um coletivo e, para continuar pesquisando sobre o assunto, era preciso criar um grupo. Queríamos socializar a experiência e expandir”, diz Miguel.
Em 1984, foi criado oficialmente o Projeto FotoAtiva, com verbas da Funarte. Com cada vez mais fotógrafos reunidos, a entidade foi crescendo e se afirmando institucionalmente. Miguel Chikaoka define esse início como “uma árvore que foi crescendo no ramo da outra”, para ilustrar que tudo era um emaranhado de projetos e ações.

Registro de uma oficina para crianças realizada em 1990 (Foto: Divulgação)
Menos técnica e mais sensibilidade
Desde o início, de certa forma, a ideia de compartilhar rendia mais frutos: importava menos a técnica e mais a sensibilização do olhar.Além disso, a entidade também tinha forte apelo político na cidade e foi fundada no período de reabertura política. Os fotógrafos acompanhavam protestos e manifestações e se engajavam em lutas populares. O ponto de encontro do grupo era o Bar do Parque, na Praça da República, onde ocorriam muitas atividades culturais e políticas.
Ao longo dos anos 1990, a entidade continuou promovendo várias ações e se articulando de forma coletiva, com a entrada de novos membros, apoiadores e se estruturando em três núcleos: de Formação e Experimentação, de Pesquisa e Documentação e de Comunicação e Difusão. Para Miguel Chikaoka, perceber a entidade hoje é vê-la mais madura.
“São processos significativos, em que a gente alcança nível de maturidade. Digo isso porque há mais de 10 anos criamos os núcleos e, enquanto linha de frente de ação, foi o que permitiu que as ações se consolidassem, a partir da construção coletiva, num modo de gestão compartilhada”, avalia. Como uma área dinâmica, acredito que ainda há muito o que acontecer. De certa maneira, mesmo com as dificuldades, conseguimos avanços e projetos”, afirma Miguel, que ocupa o cargo de diretor administrativo.
CASARÃO
O grupo foi transformado em associação em 2000 e, em 2005, passou a ter como sede um casarão histórico no Largo das Mercês, uma concessão da Prefeitura. Desde 2011, a casa está em obras com recursos do PAC Cidades Históricas, do Ministério do Turismo/ IPHAN, em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura (Secult). Após a empresa de construção civil abandonar a obra, os integrantes da associação decidiram ocupar novamente o local. “Voltamos para manter o espaço ativo e nossas atividades”, explica Miguel.
Renovação garante articulação
O atual presidente da associação, Michel Pinho, diz que sua relação com a entidade vem de muito tempo, antes de começar a fotografar, nos anos 1990, quando via pela cidade os fotovarais e a luta pela cidadania na Fotoativa. Ele entrou na entidade no início dos anos 2000 e hoje continua disposto a levá-la adiante.
“Estar na presidência é uma missão de cidadania e compromisso, é levar à frente o sonho não só do Miguel, mas de todos os fotoativistas, um mecanismo de interação e atuação com a arte e com a cidade. O grande charme é saber que a imagem muda, mas não mudam os interesses poéticos e políticos e de atuação em relação à fotografia. O importante é pesquisar e pensar essa imagem”, diz o presidente.
“Essa renovação é a contribuição efetiva das pessoas que vão chegando, com suas vontades e seus quereres. Há uma questão mais importante nisso tudo: a Fotoativa nunca se botou à frente para uma formação profissional em si, o objetivo é dar uma formação de base e isso se desenvolve a partir das pessoas”, completa Miguel. “A Fotoativa só faz atiçar o que a pessoa busca com fotografia, sem o compromisso de colocar no mercado profissional, mas vemos que muitos se tornaram profissionais, assim como outros seguiram o caminho da pesquisa. Hoje temos essa articulação com várias áreas de conhecimento. A gente provoca e se provoca”, comemora.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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