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Muito mais que um simples alimento

Os alimentos possuem uma relação de afeto com quem os consome. Isso é o que acredita o fotógrafo paraense Rao Godinho, que neste mês inaugurou a exposição “Timiú”, no instituto Iacitatá, contendo 25 imagens que ilustram a relação extra-alimentar presente

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Os alimentos possuem uma relação de afeto com quem os consome. Isso é o que acredita o fotógrafo paraense Rao Godinho, que neste mês inaugurou a exposição “Timiú”, no instituto Iacitatá, contendo 25 imagens que ilustram a relação extra-alimentar presente na cultura tradicional dos povos da Amazônia, como os indígenas e os ribeirinhos.

Desde 2011, o fotógrafo vem percorrendo diversos interiores do estado do Pará com outros pesquisadores do instituto Iacitatá para ilustrar a forma como os povos de diversos municípios interagem com os alimentos. O grande foco é resgatar, divulgar e fazer a manutenção da cultura alimentar paraense. O manuseio, as técnicas e o modo de produção foram os objetos dessa expedição que já passou por Belém, Bragança, Ourém, Tracuateua e Marajó.

“Eu sempre me interessei pela cozinha. Então, participar de uma experiência como essa foi surpreendente, principalmente por ampliar a minha visão por conhecer diversos outros pratos e ingredientes que vão muito além do jambu, tucupi, açaí e maniçoba”, diz Rao Godinho.

Um dos pontos em destaque proposto no trabalho do fotógrafo é fazer com que as pessoas compreendam a diferença entre a gastronomia e a cultura alimentar. Segundo o próprio Rao, a gastronomia é tudo aquilo o que comemos, já a cultura alimentar vai muito além disso. Ela envolve todo um processo manual de utilização dos alimentos oriundos da natureza, desde o plantio até chegar à mesa. Sempre são utilizados métodos tradicionais, sem qualquer modo de manipulação que possa afetar o desenvolvimento do produto.

Tacho de produtos da mandioca - “Essa talvez tenha sido a história mais emocionante e gratificante que já ouvi nesse trabalho. Por mais incrível e triste que pareça, essas rosquinhas, beijus e o bolo original de macaxeira (a massa está assando dentro das folhas) não eram feitos há mais de 20 anos! Segundo os próprios mestres farinheiros, vítimas da colonização do gosto, ‘isso é comida de pobre, rico come salgadinhos de pacote e biscoito recheado’. Ou seja, a partir do nosso trabalho não só de registro, mas também de conscientização quanto ao valor dessa cultura alimentar tradicional, eles voltaram a fazer e inclusive a comercializar estes produtos que, ao contrário do que pensam, são extremamente valorizados no mercado de orgânicos e alimentos artesanais.” (Foto: Divulgação)

SEU BENÉ

Uma das grandes preocupações do fotógrafo durante o trabalho foi manter vivo exatamente este saber popular das pessoas do interior, que atualmente estão sendo substituídos com frequência pelo conhecimento acadêmico. Porém isso não quer dizer que as técnicas produzidas pela ciência, que muitas vezes envolvem a mecanização dos processos, são superiores às de quem tem a sua própria plantação de subsistência. Para ilustrar casos iguais a este, Rao Godinho faz questão de relembrar a história do seu Bené.

“Uma vez, a Embrapa foi dar o curso sobre como plantar mandioca para o seu Bené, que é mestre de farinha há décadas. Experiente, ele ouviu toda a orientação da empresa e concordou com quase tudo que eles disseram, exceto no ponto de não acompanhar as fases da lua conforme plantavam. O pessoal da Embrapa disse que isso não tinha influência nenhuma e que era coisa da cabeça dele. Então o seu Bené, grande conhecedor das ciências da terra, dividiu o terreno dele em duas partes. Uma para a Embrapa plantar de qualquer jeito, e outra para ele plantar do jeito que já faz há anos, observando as mudanças da natureza. Adivinha qual deu certo? A que seguiu a lua, evidentemente”, relata Rao Godinho.

Leite de Onça- “Bebida típica do caboclo marajoara, feita da mistura simples de leite de búfala e álcool de farmácia. Sempre tinha ouvido falar, além de ver muita gente usando a expressão ‘parece leite de onça’ quando bebe algo ruim e forte, mas nunca tinha sequer visto pessoalmente. Apesar da fama, fiz questão de provar. E, na foto, o ‘leite’ está sendo exibido nessas garrafas plásticas, pois é nesses recipientes reutilizados que a bebida é transportada.” (Foto: Divulgação)

AFETO E MEMÓRIA

As fotos em exposição retratam bem essa realidade que foi encontrada pelo fotógrafo. Elas possuem uma história de afeto e memória de tempos em que o alimento não era apenas um produto para encher a barriga e tirar fotos para postar nas redes sociais, mas que havia uma relação humana, ritualística, de afeto, amor e respeito entre o alimento e o consumidor.

“A exposição sobre a cultura alimentar fez expandir meus horizontes, sejam eles culturais, profissionais ou pessoais, de gratidão pela forma como sempre fomos recebidos e de satisfação por mostrar que a alimentação dos povos tradicionais paraenses não é ‘coisa de pobre’, como ouvimos muitas vezes”, comenta o artista.

As fotos também têm a intenção de trazer um ambiente familiar de nostalgia, afinal todos já passaram pela situação de algum parente chegar do interior com algum tipo de comida especial na bagagem. Recuperar as vivências dessa estética da Amazônia acaba por se tornar uma missão da exposição, pois os povos tradicionais possuem esse tipo de relacionamento que faz o intermédio entre a comida e a família.

“Queremos que as pessoas resgatem essas lembranças de afeto com os alimentos. Se conseguirmos isso, teremos concluído o nosso trabalho com sucesso. Além de que, depois disso, vamos continuar a seguir firme com a valorização dos produtos e preparos dos povos tradicionais ribeirinhos, marajoaras, indígenas e quilombolas”, antecipa Rao Godinho.

(Lucas Muribeca/Diário do Pará)

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