Não é de hoje que o corpo feminino é inspiração para projetos artísticos. Em toda a história da arte, escultores, pintores e desenhistas já se baseavam no corpo nu da mulher para fazer obras famosas, como a Vênus de Milo, o Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli, ou mesmo a Origem do Mundo, de Gustave Courbet. Com o surgimento da fotografia, não foi diferente. Agora, com o discurso do empoderamento e da auto-aceitação, fotógrafos buscam mulheres para mostrar a diversidade da beleza feminina, em projetos que ainda tentam quebrar o tabu sobre a exposição do corpo feminino.
Matheus Pinheiro, de 24 anos, é o criador do projeto “Admitir”, no qual retrata mulheres em posessensuais onde o objetivo é a busca do bem-estar das retratadas. Ele conta que a maioria das participantes relata problemas de autoestima e com aceitação do próprio corpo, por isso o nome do projeto estimula que possam admitir a sua natureza peculiar.
Mayara Lima posou para ajudar o amigo e se redescobriu (Foto: Matheus Pinheiro)
A ideia surgiu há três anos, mas somente em 2015 o fotógrafo pôs em prática a iniciativa. Em novembro passado, lançou um site para compilar osensaios – em média ele realiza dois ensaios por mês.
Matheus começou fotografando bandas, mas com o passar do tempo sentiu necessidade de mudar de foco. "Vi o que estava sendo feito no Sul e Sudeste e fiquei com isso na cabeça. A primeira vez chamei uma amiga, e demoramos dois meses para fazer. Ela estava muito nervosa por ser a primeira, mas as fotos ficaram bem legais, ela se soltou e levou até o namorado. Com isso, depois de uma semana, outra menina ficou interessada. Fizemos e ela postou nas redes sociais mais de 30 fotos, mas algumas pessoas ficaram dizendo que ela estava se expondo demais, que era vulgar ficar postando", conta Matheus.
Durante uma conversa, no entanto, o fotógrafo passou a cantar uma música de uma antiga banda de Belém, Sincera, com versos que pudessem mostrar que ela não estava errada e que poderia interpretar as críticas de outra maneira. E foi assim que surgiu o conceito e a escolha do nome para o projeto. Para Matheus, a fotografia é uma forma que as mulheres encontraram para se libertar e questionar padrões e ele se sente feliz de fazer parte desse movimento. "Percebo que é um momento em que elas querem olhar para si mesmas", conta.
Para Mayara Lima, 26 anos, professora de educação física, que foi a segunda a ser fotografada por Matheus, o “Admitir” representa uma forma de pensar sobre estereótipos. "Nós somos muito amigos e eu topei para incentivá-lo a fazer o projeto. No começo fiquei com vergonha, mas acho que foi importante para que outras pudessem participar também, e com isso acabei me descobrindo também, pois sou negra, de cabelo enrolado e não sou muito magra. Me vi de outra forma, descobri minhas beleza”, conta.
Natália Viggiano resolveu se dar um book de presente de 30 anos (Foto: Neto Soares)
Caminho para autoestima e autoconhecimento
O projeto Tarja Preta, do fotógrafo Neto Soares, também registra as mulheres de forma erótica. Para ele, o trabalho surgiu como um desdobramento do que ele já realizava com fotografia de moda. Acostumado a fotografar mulheres, Neto percebeu que quase todas pediam para melhorar a aparência no Photoshop, e às vezes ele considerava alguns pedidos sem necessidade. Com isso, ele passou a oferecer o serviço para aquelas que quisessem ser fotografadas de maneira especial, para começarem a se olhar diferente.
"O projeto é sobre beleza. Sempre tive ligação com moda e via como as mulheres se colocavam para baixo, queriam parecer mais magras e às vezes nem tinha o que editar, mas não conseguiam se sentir bonitas. O projeto iniciou com a ideia de exposição deensaiossensuais, mas percebi essa forma equivocada que muitas mulheres se enxergam e ficou mais com o intuito de melhorar a autoestima e promover o autoconhecimento", explica Neto Soares.
A jornalista Natália Viggiano foi uma das que se permitiram ser fotografadas pelas lentes de Neto. Ela buscou oensaiocomo um presente para comemorar seus 30 anos e postou algumas imagens em seu Facebook. "Sempre quis fazer um book, mas não queria o de sempre. Conversei com vários fotógrafos conhecidos, mas nunca rolava. E ano passado conheci o trabalho do Neto pelo Instagram. Foi quando decidi fazer. O olhar dele é muito sensível e me ganhou! Não tive dúvida que ficaria bonito", diz Natália.
A jornalista critica também a visão de quem não aprova a exposição das fotos. "Vivemos em uma sociedade hipócrita, que ainda se assusta com esse tipo de coisa. Encaram como exposição e não como arte, mas aceitam a mulher nua no carnaval e seminua nas praias. Já teve homem que me chamou de corajosa, por fazer as fotos e principalmente de publicá-las", relata.
"Percebo que as mulheres querem mesmo se sentir desejadas e qual o porblema nisso?", disse o fotógrafo (Foto: Bob Menezes)
Muito além do erotismo
Para o fotógrafo Bob Menezes, quando se trata de fotografar uma mulher, esteja nua ou não, há uma sutil diferença entre o erótico e o sexual. Por isso ele usa uma técnica especial para fazer as suas imagens, onde a beleza feminina é sempre um tema explorado. "Independente dela estar vestida ou despida, procuro lembrar coisas da infância, para que a expressão do rosto fique com essa aura infantil e não erotizar o momento. Mas na fotografia erótica, a mulher não precisa nem estar nua. Procuro não sexualizar a cena, mas buscar o casual e extrair essa contradição do corpo e do olhar, porque é o olhar que determina. Pode ser uma foto de nu, mas se ela estiver com o olhar triste, a foto gera uma sensação de pena nas pessoas", opina.
Ele mantém em seu blog pessoal uma galeria com dezenas de mulheres que já retratou e também possui um livro virtual, chamado "Grande Hotel", em que duas amigas foram fotografas dentro de um quarto, com roupas íntimas. Bob diz que "foi a fome com a vontade de comer", sobre a realização de trabalhos desse tipo e acredita que hoje em dia há muito mais espaço para esse tipo de fotografia, tanto comercial quanto artisticamente. Um dos motivos, acredita, é que com a possibilidade da fotografia digital a imagem não precisa passar por uma cadeia até ser revelada, reduzindo o número de pessoas que têm acesso ao material.
"Antigamente, para o processo de revelação tinha uma cadeia e muitas não se sentiam confortáveis. Hoje em dia, eu mesmo fotografo, edito e imprimo. E também, muitos dos preconceitos que existiam, acabaram. Percebo que as mulheres querem mesmo se sentir desejadas, e qual o problema disso? Não interessa o que os outros vão achar", opina Bob Menezes, que se lembra ainda de que desde seus primeiros contatos com a fotografia, na década de 1970, a mulher nua já figurava as principais publicações a que ele tinha acesso, de grandes nomes da fotografia na Europa.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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