Da observação de cenas comuns do cotidiano, o artista Areas Jr busca suas inspirações para pintar. São quadros que revelam o seu traço após uma tarde de caminhada pelo mercado do Ver-o-Peso, no centro de Belém, ou das memórias da infância de carregadores de peixes, na Ilha do Marajó. Aos 50 anos, apenas há dois ele começou a pintar de maneira regular e hoje compõe o rol de artistas da 13ª edição da Bienal Naïfs do Brasil, que ocorre no Sesc Piracicaba, em São Paulo, até o dia 27 deste mês.
A comissão curatorial formada por Clarissa Diniz, Claudinei Roberto e Sandra Leibovici selecionou artistas 111 artistas dos 24 estados brasileiros, que apresentam 185 obras com diferentes técnicas e suportes da arte popular, como pinturas, desenhos, bonecos, a partir da temática “Todo mundo é, exceto quem não é”.
Para Areas Jr, participar da mostra é como uma premiação. Ele, que nasceu em Santa Catarina e veio ao Pará ainda criança, com os pais, apresenta as acrílicas sobre tela “Carimbó” e “Vendedor de Peixes”. “Nunca expus antes, mas estou batalhando. Tenho mais de 50 quadros pintados. Teve um tempo que eu mesmo fazia as minhas telas, usava caixa reciclada de legumes, botava o pano, grampeava e depois pintava. Então só de ter enviado para a seleção já me senti artista, conta Areas Jr, que é autodidata.
Suas principais temáticas pictóricas provêm da cultura popular brasileira. “O que me motivou a pintar o carimbó foi sua musicalidade e expressividade, que eu gosto muito, tem raízes indígenas e africanas. E o Ver-o -Peso que é o cartão postal de Belém, com cores e aromas que só se encontra em Belém. O pescador é uma figura que fica nos barcos no Marajó, onde já morei, e que param no mercado para descarregar o peixe. É uma memória afetiva que tenho de Belém”, conta.
O artista paraense Armando Queiroz também participa da mostra, com a obra “Coletivo (farinha)”, de 2007, uma cuia de metal daquelas que servem para cobrir o queijo do reino, cheia de farinha e com quatro colheres.
A exposição está dividida em núcleos: “Todo mundo é, exceto quem não é”, “Espaço”, “Gráfico”, “Pictórico”, “Matérico” e “Político”, com diferentes abordagens conceituais. Para a curadora Clarissa Diniz, a mostra é uma maneira de valorizar e incentivar a arte brasileira, e a considera uma política de resistência dentro do campo das artes no Brasil desde a primeira edição da exposição, em 1986, em Piracicaba. “Ao longo dos últimos 30 anos essa vocação da Bienal foi expandida, aprofundada, e mais recentemente tensionada”.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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