Quando era moleque no interior do Paraná, no final dos anos 1970, o jornalista Jotabê Medeiros tinha em Belchior um de seus ídolos. No tempo em que ter livros e discos não era simples, era a obra do cearense que pousava no toca-discos de Jotabê, junto com Zé Ramalho e Bob Dylan. “Às vezes a gente andava pelos corredores da Universidade Estadual de Londrina cantando Belchior e Zé Ramalho pelos corredores, era uma espécie de terapia de grupo”, relembra.
Hoje, com a experiência de 30 anos de jornalismo com passagem por veículos como “Veja”, “Folha de S.Paulo” e “O Estado de S. Paulo”, especialmente na cobertura cultural, Jotabê tem em mãos uma missão e tanto: está escrevendo um livro sobre o ídolo de juventude, com previsão de lançamento para o ano que vem. “Sempre tive vontade de escrever sobre o Belchior, mas nunca tinha idealizado uma biografia”.
O cantor e compositor sumiu no mapa há cerca de dez anos, deixando para trás uma agenda de shows não realizados e dívidas, muitas dívidas.
De uns anos para cá, o jornalista começou a reunir material, especialmente publicações em jornais e revistas. Foi quando se deu conta que não havia uma biografia. “E ele é um compositor importante da música brasileira. Lógico que desde o sumiço dele virou um hiper, todo mundo quer saber do Belchior. A ideia do livro é anterior a isso, é muito antiga”.
O livro será uma biografia não-autorizada. “Até porque não dá para consultar o Belchior sobre nada, ele rompeu ligações com o mundo conhecido. Mas acredito que não ia pôr resistência, não é do temperamento dele. É um cara sofisticado, que inclusive ia gostar de saber que eu ia colaborar. É que ele escolheu um caminho de rompimento social, então eu vou publicar de qualquer jeito. Acho que é importante que a obra dele chegue a mais pessoas, e que tenham conhecimento da importância dele dentro do contexto da música brasileira”, diz Jotabê.
Perfil composto de muitos depoimentos Amelinha, que foi amiga de Belchior em Fortaleza. Ex-namoradas, amigos de outras épocas, de bebedeira, ex-produtores. Entre os muitos entrevistados por Jotabê para a biografia de Belchior, estão pessoas como o músico Jorge Melo, parceiro do compositor em 19 canções e que morou com ele em São Paulo e no Rio. “Ele sempre soube que o Belchior era um cara extraordinário. Às vezes, ele escrevia as músicas e jogava o papel fora, o Jorge guardava. Ele tem um acervo fundamental para quem vai fazer qualquer coisa sobre o Belchior”. E também o maestro Marcos Vinícius, produtor do primeiro disco gravado por Belchior, em 1974, mesmo ano em que o cantor se mudou para São Paulo. “Esse cara, na época, era um músico muito destacado, tinha um trabalho experimental forte e foi quem produziu ‘Mote Glosa’, na minha opinião, um dos discos mais importantes da música brasileira. Muito avançado, muito sofisticado na fusão de concretismo com música nordestina. O Marcos Vinícius foi um cara muito importante para saber as circunstâncias em que o Belchior começou a carreira musical dele”, afirma. O desafio agora será “cotejar as fontes”, confrontar as informações, para escolher que história de Belchior contar, separar o que é mito e o que não é. |
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar