
Na série “Minha Palestina”, poças d’água refletem realidade urbana (Foto: Marcelo Lelis)
O primeiro olhar costuma enganar quem nunca se deparou com as fotografias que Marcelo Lelis, editor do DIÁRIO, publica há cerca de um ano em seu Instagram com a legenda “Minha Palestina”. O surrealismo das imagens não permite perceber imediatamente que estamos diante de uma cena real, duplamente refletida: primeiro pela câmera do fotojornalista; depois, através de uma poça d’água. Assim, o asfalto pode parecer um céu estrelado, um respingo de tinta ou uma fotografia manchada pelo tempo.
As publicações acabaram rendendo ao fotojornalista uma nova série, agora intitulada “Minha Palestina (Habitante Subterrâneo)”, um acervo de 129 fotografias contemplado este ano com o Prêmio de Experimentação, Pesquisa e Difusão Artística, da Fundação Cultural do Pará. Parte deste acervo pode ser visto a partir de hoje em uma exposição na Galeria Ruy Meira, da Casa das Artes, como parte da Mostra Seiva, que apresenta o resultado de pesquisa de todos os projetos premiados
pela instituição.
A concepção do projeto se baseia principalmente na mudança de ferramenta do fotógrafo – das máquinas fotográficas profissionais para a câmera do celular -, o que permitiu mais liberdade para registrar o cotidiano. “Eu fotografo muito em feiras, na periferia de Belém, e quando a gente usa um equipamento profissional acaba chamando muita atenção. Às vezes, até afastava as pessoas que eu queria registrar nesses reflexos. O celular proporcionou uma camuflagem melhor”, explica.
Apesar de não lembrar quando veio a primeira foto, Lelis é muito ciente de quando os registros começaram a tomar uma continuidade e se transformar em uma série.
“Foi quando surgiu a vontade/necessidade de investigar, explorar as poças de água do bairro. A essa altura já havia várias fotos. O primeiro título surgiu nesse período: ‘Minha Palestina’, somente”, ele relata. Com o tempo, ficava cada vez mais clara a analogia entre a violência na Palestina, no Oriente Médio, e violência urbana que assola as periferias da Grande Belém.
O subtítulo veio algum tempo depois, a partir da reflexão do artista de que em todas as fotos há o elemento humano, mas sempre “encravado no cenário, alguém que não é visto, o ‘Habitante Subterrâneo’ mesmo, aquele à margem”, define.
Para a curadora da mostra, Ruli Moretti, “enquanto projeto de pesquisa, o trabalho de Marcelo Lelis explora as possibilidades de combinações entre uma série de imagens, remetendo à estética do Instagram, levando para o espaço expositivo essa noção de acúmulo, de testemunho da cidade, da sobreposição de diversos olhares”.
Poética sobre a periferia
O olhar do fotógrafo para a periferia não é uma situação isolada na série “Minha Palestina (Habitante Subterrâneo)”. Criado no bairro do Guamá, Marcelo Lelis trouxe o tema na sua primeira mostra individual, realizada recentemente com a série “Marginal (do rio pra cá)”, no Sesc Boulevard, que tinha como ponto de partida e de investigação visual as pessoas que chegam a Belém a partir dos rios, sua bagagem e contribuição cultural, a relação e troca de quem vem para os centros urbanos a partir das margens da cidade, criando um ambiente fértil para cultura e o caos.
Apesar de serem duas séries diferentes, quando se olha apenas as imagens, existe pelo menos um ponto em comum entre “Minha Palestina” e “Marginal”: a água e a periferia como partes da identidade belenense. No entanto, o uso das duas como elemento de denúncia é ainda mais forte na atual exposição, considera Lelis. “A água é elemento fundamental no MP (Minha Palestina). Ela está presente ali como forma de denúncia, literalmente, da falta de saneamento básico em alguns casos”, diz ele. E levá-las das redes sociais para uma exposição “é dar amplitude”, considera o fotógrafo.
O artista
Fotógrafo e editor do DIÁRIO, Marcelo Lelis já participou de diversas mostras coletivas em Belém. Iniciado na fotografia por meio da Fotoativa, no final da década de 1990, atua há mais de uma década como fotojornalista, e já teve trabalhos premiados pelo CCBEU e pelo Salão de Pequenos Formatos da Unama.
Veja
Exposição “Minha Palestina (Habitante Subterrâneo)”, obras de Marcelo Lelis
Abertura: Hoje, às 19h
Visitação: De 21/11 a 02/12, de segunda a sexta, das 9h às 18h
Onde: Galeria Ruy Meira da Casa das Artes (Praça Justo Chermont, 236, ao lado da Basílica de Nazaré)
Quanto: Gratuito
Informações: 91 3202-4391
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