Debruçada sobre fotografia há mais de 30 anos, a curadora – que prefere se denominar editora – Rosely Nakagawa esteve em Belém para a mostra “Retumbante Natureza Humanizada”, com imagens de Luiz Braga, e conversou com o Você sobre esta linguagem artística e sobre sua relação com os fotógrafos da capital paraense. No rol de artistas, que ela aprecia e estuda, constam Alberto Bitar, editor do Diário; Guy Veloso, Miguel Chikaoka e Paula Sampaio, por exemplo.
Essa relação não vem de agora. Rosely veio à Belém pela primeira ainda na década de 1980, quando o movimento da fotografia germinava por aqui, com a criação da Associação Fotoativa e de eventos e ações públicas que culminaram na formação de uma geração de fotógrafos. Ela destaca esse período e a permanência no território amazônico como uma chave para que a criatividade dos artistas fosse reconhecida nacionalmente.
Além disso, Nakagawa fala também sobre o alargamento da fotografia na arte contemporânea, que deixa de ser apenas a imagem e transmuta-se para outras estruturas e intervenções nas artes cênicas, na música, na performance, alargando as possibilidades de criação.
Como você vê a fotografia contemporânea brasileira?
O que se destaca na produção atual e como isso nos representa?Hoje a fotografia ocupa um lugar nas artes visuais e faz parte das manifestações artísticas como ferramenta e mídia. Mídia não somente como veículo de expressão, mas como veiculo de divulgação. É assim que ela se destaca das outras formas de expressão, sendo a ferramenta da arte contemporânea que possibilita a comunicação eletrônica imediata.
Você conhece o trabalho de fotógrafos paraenses também. Como você se aproximou de Belém?
Em sua visão, o que caracteriza a fotografia feita aqui e qual nosso lugar na fotografia brasileira?
Me aproximei de Belém a convite do Luiz Braga, para participar da Semana de Fotografia em 1985. A característica principal da fotografia então era a cooperação, o coletivo, ações como a da Fotoativa que permanece ainda hoje. A característica mais forte, a formação e a discussão eram intensas e as trocas também. Hoje a fotografia paraense está disseminada, reconhecida também fora do território paraense e além, fora do Brasil, assim como a fotografia brasileira de um modo geral. Grande parte dos fotógrafos paraenses que iniciaram seus trabalhos na década de 1970 e 1980 hoje tem reconhecimento internacional.
Você acha que a opção por ter ficado aqui de alguma forma contribuiu para esse cenário?
O isolamento territorial, ou melhor, a produção fora do eixo Rio-São Paulo, talvez tenha contribuído para esta busca de alargamento de fronteiras. A produção contemporânea paraense sempre teve que buscar reconhecimento fora do eixo para se destacar da produção do sudeste. A tradição da cooperação fortaleceu a criação coletiva, mostras e participação em festivais e mostras, divulgando os fotógrafos que participaram desde então das Bienais Nacionais e Internacionais, foram premiados em bolsas e editais como a Fundação Vitae, o Prêmio Porto Seguro, Conrado Wessel, Marc Ferrez. Outro fator também foi a formação acadêmica de profissionais que, além de uma produção artística pessoal, buscaram uma reflexão teórica sobre a fotografia. Alguns deles formaram assim um grupo de mediadores e curadores que hoje atuam na área, colaboram na organização de editais em Belém e participam como curadores de diversos eventos.
Você estuda e acompanha o movimento da fotografia nacional ha mais de 30 anos. O que mudou ao longo dos anos, de que maneira os artistas passaram a fotografar e o que as novas tecnologias trouxeram nesse caminho?A fotografia hoje é um instrumento de reflexão, ensaio e mídia nas artes como um todo. Assim como a fotografia em movimento, que cria uma extensão da fotografia sem ser cinema, ou da performance sem ser apenas uma ferramenta de registro. A fotografia é um território de criação dentro das artes: visuais, cênicas, dança, musica, etc.
Você poderia nos destacar algumas imagens que são referências nesse contexto?
Acho que posso destacar alguns artistas, como Keiichi Tahara, fotógrafo que hoje faz esculturas com luz, ou Leonardo Crescenti que faz instalações com espelhos, a partir de sua experiência com cinema e fotografia.
De que maneira a curadoria foi surgindo para você e de como você costuma conduzir esse trabalho?
Me considero editora e organizadora de mostras e publicações, pois a curadoria é geralmente atribuída a quem cuida de uma coleção ou arquivo. Conduzo meu trabalho como um ensaio, dentro das possibilidades criadas a partir da relação com o artista que possui uma identidade com a minha visão e formação de arte. No meu caso, tive a formação em arquitetura e museologia e não sei pensar na imagem sem pensar no espaço e no suporte. O processo de criação e de realização, na minha visão, fazem parte do projeto e do pensamento a ser construído e que nasce dessa relação de interação com o artista.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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