Da infância à terceira idade, a mulher tem seus ciclos íntimos e delicados. A fotógrafa paulista Grazi Ventura passou a observar que o dia a dia de cada um desses ciclos possui peculiaridades e belezas. E depois de constatar que a maioria das imagens realizadas em sua carreira profissional era de mulheres, ela criou o projeto “Ciclos do Feminino”, no qual revela de forma documental a vida de meninas indo para a escola, de adolescentes se maquiando, da jovem que acabou de sair de casa, da mulher grávida e depois com o filho no colo, da mais madura, e porfim, da idosa.
Ela escolheu sete mulheres e passou a conviver de forma mais intensa com elas, ora dormindo na casa, ora visitando no trabalho, por exemplo, para fotografar as rotinas diárias de cada uma. Para a fotógrafa, não importa se o cenário está bonito ou se as mulheres estavam descabeladas, mas sim o gesto, o olhar, a fala, e as interações com os outros no momento em que ela estava com a câmera e na presença dessas mulheres.
“A vida transcorre de sete em sete anos. E separei os ciclos em sete fases: infância, adolescência, independência, gestação, maternidade, maturidade e terceira idade, que eu chamei de experiência. Acredito ser um projeto infinito, pois a vida da pessoa não para ali, no momento da foto. Procuro documentar com sensibilidade as coisas que representam cada fase de verdade. Não é fotografia que se preocupa com estética, mas que se preocupa em contar uma história acima de qualquer outro ponto de vista”, explica Grazi Ventura.
O momento da experiência
Uma dessas mulheres é Monika Feldenheimer, uma senhora de 68 anos – que é sogra da irmã de Grazi. Com uma vida bastante ativa, ela cuida dos dois netos, cozinha, faz parte de grupos da terceira idade, faz exercícios e ainda dá aulas em uma ONG. Com tanta energia, ela foi escolhida pela fotógrafa para ter o dia a dia registrado. O trabalho foi dividido em três partes, acompanhando atividades distintas da aposentada.
“Essa é uma fase interessante. Ela virou avó, é viúva e passou a ter uma vida sozinha. Se voltou também mais para si mesma e mergulhou na espiritualidade. Já está no final da caminhada, e então, existe uma decaída do corpo, mas elevação da mente e do espírito. Procurei essa mulher que fosse representar muito bem essa fase, e como já a conhecia, foi superlegal. Nos encontramos numa noite e dormi na casa dela, depois fui até onde ela dá aulas”, comenta Grazi Ventura.
Família documentada em imagens
Antes de ser fotógrafa, Grazi Ventura atuou dez anos como publicitária, até que resolveu largar tudo e ir estudar fotografia no Canadá. No mesmo período, engravidou e teve uma filha. As experiências das descobertas, da maternidade e das possibilidades da imagem, somaram-se à vontade de fotografar não aqueles momentos especiais, como casamentos e festas de 15 anos, mas sim a rotina da própria vida que transcorre dia após dia.“Fotografo família e faço isso na minha fotografia.
Não faço nada posado em estúdio. Faço a fotografia para as crianças daquela família quando pais não estiverem mais aqui. São fotos para quem quer lembrar quem botava para dormir, quem lia histórias, das brigas com irmão e depois voltar para brincar de novo, como a gente toma café. Pequenas coisas que contam a sua história, é só sua, não é de mais ninguém. Acredito na fotografia documental de família porque é uma joia. São imagens que ganham valor com o tempo”, diz a autora.
(Dominik Giusti/Diári0o do Pará)
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