A ex-consulesa da França em São Paulo, Alexandra Loras, precisou convencer o porteiro do Clube Pinheiros, em São Paulo, que era a mãe, e não a babá, de seu próprio filho, que é branco e loiro. Ela conta que ficou parada na portaria esperando que o funcionário encontrasse o seu nome na lista dos cuidadores de crianças.
“E eu disse, sou sócia do clube”, relembra. Após alguns minutos, o imbróglio foi desfeito. Ela esquecera o documento do clube e, mesmo apresentando seu passaporte, acabou tendo que esperar para entrar no local.
Esta foi apenas uma das diversas situações que a jornalista e ex-apresentadora de televisão passou por ser negra. Ela já relatou, por exemplo, que muitas vezes, foi ignorada, na hora dos cumprimentos à entrada do Consulado, por convidados que a confundiam com os empregados.
Com uma carreira de sucesso, abandonou o palco das celebridades para ocupar espaços de ativismo e para falar sobre questões raciais e de gênero. Casada com Damien Loras, Alexandra é formada em Gestão de Mídias pela prestigiada Sciences Po, autora de livros e consultora de empresas, onde fala sobre raça, gênero e diversidade, e escreve sobre dignidade negra em seu blog. Ciente de sua condição, uma negra na elite, ela sabe-se ainda uma privilegiada por sua condição econômica, mas decidiu não se calar. “Precisamos resgatar a nossa autoestima para empurrar as portas da universidade e das empresas”, diz, sugerindo fala e também ação.
“Eu sei que se fosse consulesa da Gâmbia talvez não tivesse um palco tão enorme. Gostaria de convidar as pessoas a pensar. Já nascer negra é um desafio”, comenta Alexandra, filha de mãe branca e única negra entre os irmãos.
Por ser negra, várias vezes ela já foi questionada se é “francesa-francesa”, num misto de preconceito e descrença. Ela se questiona o que fazer para mudar. E critica a pretensão de liberdade no seu país. “Há direito de expressão para ‘Charlie Hebdo’, mas para negros e árabes não. Então, nossas dores às vezes se traduzem em terrorismo. A França não se assume como mestiça, tem a narrativa de raça pura. Como negra francesa, queria ter legitimidade de me assumir francesa e não só como francesa que faz parte de uma segunda raça, segunda classe”, afirma.
Falta representação negra na mídia
Durante um evento em Belém, ela confessou que o “turning point” – expressão que ela mesma usou e que em inglês significa ponto de virada – para que decidisse pela militância negra e feminista foi quando chegou ao Brasil. “Já morei em oito países e já passei por mais de 50. O que é diferente aqui é que os negros são a maioria, num país fora da África, mas tratados como minoria, minoria, minoria. Foi chocante. A solidão da mulher negra no Brasil é muito forte”, diz.
Ela completa dizendo que o choque se deu sobretudo por ter imaginado que a igualdade racial no país já era um assunto mais avançado do ponto de vista da igualdade de direitos. Mas, pelo contrário, espantou-se ao ver que nenhum negro ocupa cargos de lideranças, tampouco tem protagonismo nas narrativas midiáticas, nas novelas. Como mestranda de estudos de mídia, ela defende que a televisão brasileira deveria ter mais negros em seus programas. Mas acredita que o país passa por uma transformação social e que é importante aproximar-se dos movimentos sociais.
“O Brasil é intelectualmente é mais aberto que os países da Europa, que está muita presa no passado. Vejo um povo corajoso, que questiona o sistema político e as estruturas sociais. Vejo um despertar no povo brasileiro e espaço de transformação. Ficamos aqui (ela e o marido decidiram continuar vivendo e trabalhando em São Paulo mesmo depois dele ter deixado a posição de cônsul) porque vocês nos deram dignidade e respeito e me deram esse espaço de fala para um assunto pesado. Estou cutucando um nervo de uma sociedade que tem o negro numa escravidão moderna, que vive com um salário mínimo. Esse tema precisa ser estudado e debatido, para instigar a juventude, que acho fenomenal. Existem feministas no Brasil de 22 anos que têm falas mais inspiradoras que Simone de Beauvoir”, disse.
Alexandra Loras acredita que a diversidade étnica e cultural do Brasil é a sua verdadeira potência para as relações humanas. “O Brasil é o futuro”, diz, mencionando que espera ver mais negros, indígenas e mulheres assumindo cargos políticos e sendo protagonistas de mudanças. “Hoje é tudo eurocêntrico e há pessoas que não se encaixam nessa normalidade. Temos que questionar isso. Como seria a história, a filosofia, se fossem escritos por negros. Quero pensar em empatia e compaixão”, diz.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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