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Criolo se mantém com uma voz consciente

Embora tenha surgido para o grande público apenas nos últimos anos, Criolo pode ser considerado um veterano da música. Ele começou a cantar rap no final da década de 1980, organizando batalhas de MCs no Grajaú, bairro onde nasceu, na periferia de São Paul

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Embora tenha surgido para o grande público apenas nos últimos anos, Criolo pode ser considerado um veterano da música. Ele começou a cantar rap no final da década de 1980, organizando batalhas de MCs no Grajaú, bairro onde nasceu, na periferia de São Paulo. Após mais de 15 anos tentando, já cogitava abandonar a música para se dedicar à função de educador, quando decidiu fazer uma aposta: em 2006 gravou “Ainda Há Tempo”, seu primeiro álbum de estúdio. O disco foi um divisor de águas na carreira do músico, que passou a ser reconhecido no cenário hip-hop nacional.

O sucesso do primeiro álbum trouxe a expectativa sobre os próximos trabalhos. E Criolo não decepcionou. Mostrou personalidade ao lançar os álbuns “Nó na Orelha (2011)” e “Convoque seu Buda (2014)”. Em ambos , fica evidente a metamorfose pela qual o artista passava. MPB, percussão africana, funk, blues, soul e até samba são alguns dos ritmos que surgem e marcam a diferença para a estreia. O rapper ultrapassou as esferas do hip-hop e conquistou um público cada vez maior. Chamou a atenção de artistas como Chico Buarque, Ney Matogrosso, Ivete Sangalo, Milton Nascimento, Martinho da Vila e Caetano Veloso.

Como que embalado por uma nostalgia de seu rap clássico, e para comemorar os dez anos de lançamento de “Ainda Há Tempo”, Criolo relançou este ano oito canções do primeiro álbum. E o que era apenas para marcar uma data especial, acabou virando turnê nacional. Belém foi uma das cidades escolhidas pelo artista, por onde ele passou no último fim de semana, quando concedeu entrevista exclusiva ao DOL.

De olhar sereno, fala mansa e sempre saindo do discurso convencional, Criolo falou sobre ocupações de escolas e universidades, violência policial, literatura, e claro, de “Ainda Há Tempo”. Confira:


P - Primeira vez em Belém, já tomou açaí? Sabe que aqui não se toma como em São Paulo...
R - Já (risos). Para falar a verdade, no Grajaú é quase impossível encontrar açaí, nem sei como tomava. Belém é a terra, então tive que aproveitar.

P - “Ainda Há Tempo”., qual foi a ideia para relançar? Bateu saudade do rap?
R - Foi uma viagem linda. Eu, DJ Dandan, DJ Marco, Ganja e um monte de gente que está junto, porque você nesta vida nunca está sozinho, pensamos em fazer um show para não passar batido os dez anos desse primeiro disco. Foi batendo aquela nostalgia, aquela década inteira passando na sua frente, e quando a gente foi ver, muita gente lembrou um monte de histórias deste disco. Acabou virando uma possibilidade de mais shows, um monte de gente mandou beats maravilhosos, e aí quando foi ver a gente tinha um disco, que veio como um caminho de quem só ia fazer um show.

P - Algumas de suas letras falam sobre violência policial e injustiça. Em novembro, em Belém completou-se cinco anos da chacina de Icoaraci, onde seis adolescentes foram executados. Em São Paulo houve a chacina de Osasco, 19 mortos, e no Ceará, a de Messejana, com pelo menos 11 executados. Todas cometidas por policiais militares. Como você enxerga isso?
R - Com tristeza. Não poderia ser diferente, com muita tristeza. São muitas histórias reais envolvidas nestas fatalidades, muitos inocentes, vítimas de um ódio inexplicável. Não consigo entender o porquê disto ainda acontecer.

P - Na primeira faixa do álbum “Convoque seu Buda”, você já fala sobre ocupação. Atualmente no Brasil inteiro temos milhares de escolas e universidades ocupadas. Qual a importância deste tipo de ação?
R - Tudo isso é muito importante, pois a sociedade começa a perceber que não é uma brincadeira. Quando professores, alunos e família estão todos reunidos em atos como estes, isto se torna uma resposta direta, um não do tamanho do Estado, para as mudanças que querem impor, e que já vêm acontecendo de modo drástico em nossa educação. A partir do momento que você tira a dignidade de um professor e de todos os funcionários que trabalham nas escolas, desde a merendeira até a faxineira, a partir do momento que se destrói o ambiente de trabalho destas pessoas, que se tira delas pessoas a possibilidade de levar sustento digno para suas famílias, se está destruindo, literalmente, uma construção positiva de bom ambiente para cada criança brasileira.

P - Suas letras são carregadas de referências literárias. Você coloca em suas rimas desde Ariano Suassuna até Michel Foucault, isso chama atenção. Aonde você teve contato com esse mundo? Qual a importância da leitura?
R - O hábito é importante para todos. Às vezes, não é porque um grupo social não mora na periferia que significae que eles leem. E outras vezes, onde você acha que tem pessoas que não têm amor pela leitura, onde você acha não vai ter gente com condições para uma construção literária, surgem coisas maravilhosas. Ler pode não significar nada se não causar o despertar. Existe uma diferença enorme aí.

P - Qual?
R - Veja bem, condição intelectual, todos nós temos. Mas criar condição para um despertar é outra história, e aí que mora a diferença. Eu não aceito um discurso que diz que em determinado lugar, de determinada classe social, as pessoas não têm condições de construção do pensar, e que em outra determinada classe eles são extremamente intelectuais, e que só eles é que vão mudar o mundo. Eu não aceito isso, é uma mentira. Por isso falei da diferença entre condição intelectual e condição do despertar. A diferença está em quem deixa e quem não deixa essa construção saudável para que você se visite e se perceba capaz. Manter essa condição de despertar é tão importante quanto comer um prato de comida, mas em questões emergenciais ainda lutamos pelo prato de comida. Em questões tão importantes como esta, a sociedade vai dando um jeito de se encarregar de passar a mensagem que ler e despertar não é assim tão importante. E aí as gerações vão recebendo um choque de embrutecimento enorme.

P - Nesse álbum existe uma letra chamada “Chuva Ácida” que fala sobre acidentes na natureza causados pelo homem. Dez anos depois, ela continua muito atual. Tivemos o desastre de Mariana e tantos outros pelo mundo para comprovar isso. Para onde vamos?
R - Cara, essa letra tem vinte anos. É o seguinte, sobre essas empresas que atuam em nome de um suposto desenvolvimento e progresso, eu sempre me faço a seguinte pergunta: desenvolvimento de quem? Uma pergunta simples: progresso de quem?

(Igor Reis/DOL)

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