A comida japonesa tem sido divulgada como sinônimo de alimento saudável, tanto pelo seu preparo quanto por seus ingredientes - que incluem grande variedade de verduras, legumes e mariscos, em combinações que exigem pouco ou nenhum cozimento e, ainda mais raramente, alguma fritura.
Considerado desde 2013 Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, o washoku (cozinha tradicional japonesa) preza pelo sabor umami (quinto sabor) e utiliza pouca gordura animal. Os japoneses têm nos ensinado a ter uma dieta repleta de vegetais ricos em fibras e antioxidantes, o que protege de várias doenças, como obesidade, problemas cardíacos e alguns tipos de câncer. Essa, inclusive, é uma das principais razões atribuídas à longevidade do povo japonês com quase 59 mil pessoas centenárias em seu arquipélago e local onde vive hoje a pessoa mais idosa do mundo, com 116 anos.
“Cada refeição é pensada de forma a ter uma dieta balanceada. E a preocupação com a prevenção da diabetes e outras doenças é muito comum entre os japoneses”, diz a chef e nutricionista japonesa Yuko Otsuka.
Ela explica que a composição básica de uma refeição japonesa é de uma sopa e três acompanhamentos (ichiju sansai). “Yakisoba, sushi, temaki, o que as pessoas costumam conhecer aqui como cozinha japonesa, não é comum nas casas japonesas. Eles costumam ser consumidos em restaurantes”, diz ela.
As mudanças nas estações do ano também se refletem nessas escolhas, desde a preferência pelos ingredientes da estação vigente até a decoração do prato e o uso de determinado utensílio. “Os japoneses são capazes de desfrutar cada estação do ano nas refeições. Além disso, para eles é importante a decoração dos pratos com vários ingredientes - folhas, frutas, etc. - e também a arrumação sobre a mesa. “Os japoneses prezam a máxima ‘comer com os olhos’”, explica a chef, que à convite da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), a Associação Pan-Amazônia Nipo-Brasileira, Consulado do Japão e o Sebrae, veio a Belém para compartilhar a cultura alimentar japonesa com os paraenses.
Alunos apreciam o guioza durante curso de Yuko Otsuka (Foto: Marco Santos)
Alimento que se faz como um presente
A chef Yuko Otsuka conta que é praticante da arte do chá há 40 anos e ensina que existe um princípio que norteia a tradição milenar, o “omotenashi”, algo que ela gostaria que as pessoas levassem em consideração ao preparar e servir uma refeição a outra pessoa. “Omotenashi serve para dizer que aquele é um momento único e especial. Pode ser que nunca volte a acontecer, então sirvo o chá com todo o meu respeito e consideração a você”, ela explica. Com esta mesma consideração, a chef japonesa fez questão de conhecer ingredientes brasileiros e paraenses ao desembarcar por aqui para o seu intercâmbio.
Com uma receita comum nas casas japonesas, o tofu, ela conta que conseguiu fazer uma receita em que substitui a soja, utilizada no Japão, pelo grão de bico. “Uma vantagem é que ele não exige outros elementos para amolecer, como ocorre com a soja”, aponta. E completa: “Ela é muito rica em fibras, muito consumida no japão como prevenção ao câncer de intestino”.
Na receita é utilizado apenas o leite extraído do grão de bico, mas Yuko explica que com a massa (okara) que sobra é possível fazer croquetes e biscoitos, já que outro hábito japonês é de não desperdiçar alimentos.
Para servir a receita já pronta, Yuko ensina a arrumar a mesa com folhas regionais, como o jambu, e um t-suru (pássaro japonês) feito em origami.
Além de cozinhar, Yuko deixa transparecer outra característica das famílias japonesas: ter sua própria horta. De sua casa, ela conta, tirou o gengibre, o jambu e o urucum utilizados em sua segunda receita, um guioza (pastel), que costuma ser consumido no Japão em dias festivos, como o Réveillon. A chef ainda mostra orgulhosa sua omelete de arroz. “Criei baseada no que aprendi tomando tacacá. Ela leva urucum, jambú e camarão seco”, explica a chef, que fica em belém até junho de 2018 antes de voltar ao Japão. “Em Belém consegui muitos ingredientes que nunca vi em São Paulo. Tudo o que eu consumir aqui será inesquecível”, diz Yuko, gentilmente, através de seu tradutor. E finaliza arriscando um “eu gusto de Belém”.
APRENDA
RECEITA DE TOFU (com grão de bico)
Ingredientes:
Grão de bico (200g)
Água (420ml)
Preparo:
- Deixe o grão de bico de molho em água por uma noite.
- Retire a água e triture os grãos no liquidificador com a quantidade de água estipulada.
- Retire a água excedente da mistura usando um crivo e depois enroleo em um pano e esprema para a retirada do leite de soja/grão de bico.
- Cozinhe o leite na panela. No início, com o fogo alto, e quando o leite ficar cremoso, deixe no fogo médio e misture bem.
- Coloque o conteúdo em uma forma e deixar esfriar para depois levar à geladeira (por no mínimo 1 hora).
RECEITA DE GUIOZA (PASTEL)
Ingredientes:
Massa
Farinha de trigo (650g)
Água (300ml)
Recheio
Carne moída e repolho (500g cada)
Nira/cebolinha (230g)
Alho, gengibre e amido de milho (20g cada)
Tempero para caldo de galinha (10g)
Açúcar (6g)
Sal (25g)
Água (35ml)
Óleo de soja (50ml)
Preparo:
Massa
- Coloque um pouco de água na farinha de trigo e misture bem em uma tigela, formando uma massa uniforme.
- Descanse a mistura, colocando um pano para encobri-la por cerca de 1 hora.
- Polvilhe a farinha e esticar a massa. Dela, separe cerca de 10g e amasse novamente para formar a folha (redonda) do guioza.
- Coloque cerca de 12g de recheio no interior da folha e feche as bordas formando pregas (como pequenos pasteizinhos)
- Coloque os guiozas na água fervente e retire quando emergir.
Recheio
- Misture o amido de milho, tempero para caldo de galinha, açúcar e sal na carne moída (suína ou bovina). Deixe para descansar por um tempo, depois adicione o óleo de soja e misture.
- Corte o repolho em tiras e refogue. Pique o nira (tipo de cebolinha), o alho, o gengibre em pedaços pequenos e misture com a outra parte do recheio que já estava pronta.
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
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