A vivência dos tempos de censura, das prisões e dos exílios foram poeticamente sendo transcritas para o papel, quando em 1964 o poeta e professor João de Jesus Paes Loureiro começou a sofrer duras repressões. Assim surgiu o poema “A Loba”, que passou os anos seguintes sendo reescrito e reelaborado, à medida que a emoção se transforma em elemento textual. Para celebrar este escrito, Paes Loureiro o relança em livro homônimo, amanhã, com a leitura do poema pelo próprio autor, às 19h, no Museu do Estado do Pará (MEP), em Belém.
O poema integrou originalmente o livro “Ser Aberto”, publicado na década de 1980, e que por intermédio dos editores – e também poetas – Marcílio Costa e Antônio Moura, foi separado para uma publicação especial. Paes Loureiro define o poema como um poema-vida, já que o processo criativo foi se dando à medida das circunstâncias de sua existência. O livro tem o selo da Edições do Escriba e foi viabilizado em parceria com a Comissão da Verdade do Pará.
“Não foi escrito em um momento, mas em vários momentos e foi aperfeiçoado ao longo de alguns anos. Os primeiros versos escrevi ainda numa das prisões que sofri durante a ditadura pela necessidade de expressar num poema essa vivência. As anotações e fragmentos poéticos foram sendo escritos ao longo de 1964, foi um ano difícil, mas o aperfeiçoamento e estruturação se deu ao longo dos anos posteriores, sem um planejamento de datas. Deixava guardado um tempo, depois retomava, era muito difícil para escrever”, comenta o autor.
Paes Loureiro relembra o período como uma época que não deseja que nunca mais possa voltar. E ele diz que a literatura serviu também como registro histórico. “É um registro poético exatamente para revelar algo que não deve mais voltar para a vida das pessoas. O desconhecimento do que ocorreu naquele período com muitas vidas precisa ser transformado em conhecimento para que não retornemos nunca mais a um estado sem liberdade e de uma opressão das pessoas
e a liberdade de pensamento”, defende.
Paes Loureiro acredita que hoje os escritos o tocam ainda mais. “Hoje o poema, quando leio, me toca mais poeticamente pelo que os versos contam, mas ao lado disso, por expressar experiência pessoal me toca mais do que a um leitor puramente literário. É um tipo de poema em que a emoção vivida foi transformada numa emoção poética, como documento e emoção”, finaliza.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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