No mundo poético e fotográfico da artista visual Danielle Fonseca, suas referências da literatura, mitologia, teatro, filosofia e da experiência cotidiana se misturam como se nada fizesse sentido, a não ser a sua própria individualidade e desejo de permanecer sem uma definição que a enquadre em um rótulo ordinário. Isso se ressalta em seu mais novo vídeo, “Posseidon é cabra, abelha e o movimento dos barcos”, que será lançado amanhã, 15, às 19h, no Museu Casa das Onze Janelas, em Belém. A entrada é gratuita.
A ideia inicial, quando a artista foi contemplada pelo edital de Produção e Difusão Artística da Fundação Cultural do Pará (FCP), era falar sobre a história de seres flutuantes, sobre a vida de nadadores, mergulhadores, e outros praticantes de esportes que podem ser realizados na água ou no ar. Mas conforme as pesquisas foram se desenrolando, a proposta mudou de forma e de direcionamento estético. O resultado foi a mistura, como propõe o título longo e metafórico da própria produção audiovisual, que tem 12 minutos.
“Pode ser um vídeo, um videoarte, um filme, um curta-metragem... Só pensei: não vou transformar num videoclipe. Como a minha referência primeira é a poesia marginal, visual, concreta, esse elemento está muito presente. Tem umas cenas mais experimentais e outras mais quadradas”, comenta Danielle, que também passou a reler textos dramatúrgicos do Teatro do Absurdo, e incorporou ao vídeo. “Até brinquei, parece que escolhi todos eles”.
Além do vídeo, Danielle expõe uma instalação com dois pés de pato de porcelana, encomendados a uma fábrica em São Paulo. De acordo com a artista, é o refinamento de pesquisas com esculturas que ela iniciou com madeiras como pinho e acapu. “São peças que dão muito trabalho, na prática. Mas representam a ida para outra visualidade. São símbolos desses seres flutuantes”.
O vídeo é dividido em quatro atos, definidos por cada substantivo do título. Encadeados, dão a dimensão da proposta imagética que a autora quis alcançar: sem definições. “O título tem essa influência também do movimento surrealista e foi inspirado nas imagens de artistas desse movimento”, diz Danielle.
Vídeo tem participação de Jards Macalé e campeã de mergulho
Posseidon, deus do mar na mitologia grega, foi alimentado com mel e leite de cabra, explica Danielle. Além disso, está também ligado à memória da artista enquanto praticante de esportes aquáticos: por conta da asma, ela nadou dos 9 aos 20 anos e praticou surf também durante um bom período. Hoje, o esporte ainda faz parte de suas criações artísticas, como em seu primeiro filme, “A Vaga”, de 2011.
A abelha também refere-se à letra da música “Mel”, composta por Waly Salomão e imortalizada na voz de Maria Bethânia no álbum de mesmo nome – ambos são artistas que permeiam a vida e a obra de Danielle.
Já os barcos fazem alusão à música “Movimento dos Barcos”, de Jards Macalé, que trata sobre o ir e a espera e alguma inquietude sobre as tempestades da vida. Algo que soa semelhante à cadência do ritmo do videoarte, impreciso e anestésico.
Macalé inclusive faz parte da obra, recitando um poema de Danielle. Bem como Péricles Cavalcanti e a campeã mundial de mergulho de apneia, Karoline Meyer, que enviaram áudios a Danielle aproveitados na edição do vídeo.
“Tem um autor do teatro do absurdo que diz que tudo que você está vendo depende da sua interpretação, mas a mensagem está lá. É filosófico isso também da obra aberta”, analisa a artista.
Assista
Lançamento do vídeo “Posseidon é cabra, abelha e o movimento dos barcos”, de Danielle Fonseca
Quando: Amanhã, às 19h
Onde: Museu Casa das Onze Janelas (Praça Frei Caetano Brandão, s/n – Cidade Velha)
Quanto: Entrada gratuita
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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