Olhar a cidade, as pessoas, o movimento da urbe e das matas. A professora Mayrla Andrade, diretora artística da Ribalta Companhia de Dança, de Ananindeua, costuma pesquisar o cotidiano para criar os espetáculos de dança realizados em parceria com os demais integrantes do grupo. Após 20 anos pensando a prática e também refletindo sobre os processos de composição das coreografias, a companhia lança sua primeira publicação, “Habitantes-Criadores”, organizado em parceria com Lindemberg Monteiro dos Santos, e que será lançado hoje, às 18h, no Teatro Margarida Schivasappa, em Belém.
De acordo com Mayrla, trata-se de uma obra que investiga o lugar do criador e da criação sob dois aspectos: da cidade em si e o lugar de si, do outro e do próprio coletivo inserido nesse contexto. Todos os participantes da companhia foram convidados a pensar juntos esses temas no livro, que teve publicação viabilizada por meio do Prêmio Klauss Vianna de Dança, da Fundação Nacional de Artes (Funarte).
Foram três os espetáculos da companhia analisados: “Florescer” (2012), “Ilhas” (2013) e “Retratações” (2014), em 13 artigos.
“Essa publicação para nós é um marco, pois é o primeiro coletivo de dança a lançar um livro, e celebra também os artistas que produzem espetáculos e que geram reflexão teórica sobre esses processos. Conseguir trabalhar para além do palco é um ganho fantástico, sobretudo por reunir a nossa trilogia poética sobre Ananindeua, em sua história, com o primeiro espetáculo, depois quando fomos para a região insular do município, e por fim falando de como a cidade é hoje e seu ritmo frenético. Por isso, nos autointitulamos habitantes-criadores”, comenta Mayrla Andrade.
Reflexão sobre os movimentos ajuda a entender criação
Os textos abordam aspectos como a narrativa e os movimentos, a iluminação, os figurinos, os personagens, e as próprias histórias de vida de cada criador e dos habitantes pesquisados, como os moradores da ilha de João Pilatos, onde o segundo espetáculo foi concebido e apresentado - longe dos palcos dos teatros.
A organizadora diz que cada bailarino traz um olhar muito peculiar sobre a produção que cria e onde atua e que os textos são encadeados a partir de uma lógica cronológica e também dos próprios assuntos. “A trilogia poética faz a gente se encontrar em cada um desses espetáculos, que têm como princípio as histórias de vida como matéria-prima principal para a sua construção, nas nossas vidas e nas de outras pessoas que nos cruzam. É sobre eles que a gente vai falando no livro. Todo o processo que a gente faz junta as partes teórica e prática. Primeiro vem o desejo de falar sobre algo e depois isso é partilhado de muitas formas, poemas, músicas, muitos estímulos”, comenta Mayrla.
A reflexão textual também se dá a partir dos vários disparadores, como ela conceitua, dos processos artísticos da companhia, como a dança contemporânea, a dança teatro, a improvisação e também a relação entre expressividade e técnica, principalmente a partir da metodologia de Laban/Bartenieff - considerado um dos precursores dos estudos entre o dança e os movimentos do cotidiano, exatamente uma das âncoras da Companhia Ribalta.
Como grupo de companhia independente, Mayrla Andrade acredita que o tempo de hoje é de resistência. “Toda essa grande narrativa desse livro pode ser mais uma que Belém e Ananindeua vai contar, mas para nós é um lugar de transformação, teve percurso que começa dentro da nossa casa e vai para a cidade. É um movimento feito a muitas mãos, sinto que é um presente do coletivo. Quando estamos em coletivo e nos damos as mãos, a realidade funciona”, finaliza.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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