O traço preciso da arquitetura fez com que Nelson Carvalho buscasse, fora dos escritórios, exatamente o oposto: a liberdade para desenhar. Entre projetos e demandas profissionais, no tempo livre ele aproveitava para reinterpretar a cidade e criar cenários baseados na sua leitura de Belém e das casas antigas, vielas, ruas estreitas, da periferia, das gambiarras e dos aglomerados urbanos. Mas o traço do artista somente agora está sendo revelado ao público. Amanhã, Nelson abre a mostra “Fronteiras Cambiantes”, a partir das 19h, na Casa do Fauno, com uma série de desenhos em nanquim em que apresenta a sua produção recente. A noite terá a participação do Trio Jazzvairado.
Ele diz que apesar de desenhar há muito tempo, ainda assim não se desfaz de suas origens. “Na década de 1980, não poderia fazer muita coisa no curso de arquitetura se não fosse desenho à mão. Talvez eu tenha feito parte de uma das últimas gerações que passou por isso. Não existia tanta tecnologia. Desenho muito por conta da profissão, mas percebi que tinha possibilidade de fazer desenho com muita qualidade. A ideia do traço que normalmente iria para o projeto arquitetônico, transponho para um desenho mais livre. A arquitetura é cheia de idiossincrasias e nas obras tenho a temática da arquitetura com uma libertação, como algo mais caótico”, diz.
Até chegar ao momento de expor, no entanto, Nelson hesitou e teve lá suas dúvidas: não acreditava que o desenho tivesse unidade ou mesmo um traço coerente. Somente há dez anos vem percebendo que isso tem mudado e que poderia abrir suas gavetas e suas imagens para o mundo.
“Acho que foi um pouco de timidez. Até hoje me pergunto, já que minha maior atuação é como arquiteto. Mas nunca deixei de produzir. Apenas há um ano comecei a pensar em exibir, com um roteiro, uma parceria com uma galeria. Fiz um teste quando participei da exposição Primeiros Passos, no CCBEU, e fui vencendo essa barreira autoimposta”, comenta o desenhista.
Antes de colocar as obras na parede, Nelson já vinha contemplando os amigos mais próximos com seus desenhos. Certo dia, encontrou o amigo ator Adriano Barroso e tomou conta de sua agenda para desenhar. “Ele questionou, mas eu respondi para ele ficar com um dos desenhos de presente”, brinca.
Também passou a riscar nas mesas de um bar, deixando os frequentadores curiosos e dono, furioso. Mas depois recebeu permissão para transgredir com sua arte. “Muita gente me viu desenhando e viu os desenhos e achei isso importante, era uma parte de me posicionar como artista também, faz com que o outro te reconheça e você possa se reconhecer nesse processo”.
"Quando olho para um desenho meu, percebo que reconheço a cidade e não necessariamente vejo algo real” (Foto: Divulgação)
Um retrato subjetivo da cidade
Não é o objetivo de Nelson fazer reproduções perfeitas dos cenários que vê, num traço realista, mas lançar a própria subjetividade ao desenho, acrescentando cenas imaginárias - para libertar seus demônios, ele diz. Um dos exercícios para esta convicção foi ter participado das oficinas de fotografia, na década de 1990, com Miguel Chikaoka, na Associação Fotoativa.
“Não me preocupo em retratar perfeitamente. Deixo isso para o fotógrafo, que vai lá e se aproxima com muita exatidão do que estamos vendo. Fui aluno do Miguel e tem disso de treinar o olhar para ser mais subjetivo. Quando olho para um desenho meu e dou um tempo para olhar de volta, percebo que reconheço a cidade e não necessariamente vejo algo real. A gente reconhece trechos da cidade. Eu trabalho com patrimônio histórico, mas são temas em que tenho liberdade”, comenta.
O arquiteto também tem o seu próprio tempo de desenhar. Enquanto alguns trabalhos são realizados em poucas horas, outros passam dias para amadurecer, “num impulso violento”, destaca.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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