Sem apoio institucional, artistas continuam produzindo, se envolvendo com a comunidade em que estão inseridos, fazendo suas exposições, shows, rodas de debate, gerando novos espaços ou resgatando aqueles que durante anos tiveram seu potencial e riquezas encobertos pelo descaso. Os coletivos são uma resposta a quem diz que cultura não é prioridade.
“O artista, ou ele faz, ou ele faz. Até o Museu das Onze Janelas foi desapropriado. Isso mostra que tipo de política e valorização esse governo está dando para a cultura. Mas o que a gente tem feito para responder é isso, é mostrar que vamos continuar a fazer”, diz a artista plástica Elisa Arruda, integrante do coletivo Aparelho, que reúne artistas visuais, músicos, atores e outros criadores junto à comunidade do Porto do Sal, no bairro da Cidade Velha, e surgiu após as ocupações de arte promovidas pela Oficina Santa Terezinha.
Como ela, muitos artistas se uniram por um objetivo. É o caso de coletivos como o Ultramundanos, formado por atores que realizam vídeos para a internet sob o título de “Filhos da Manga” e produções como o filme “Profanos”, lançado este mês; o Mana Avu, formado por atores e arte-educadores dedicados à contação de histórias; os Argonautas, formado por ilustradores como Emerson Coe, Rodrigo Cantalício e Renata Segtowick para divulgar, debater e expor a partir desta linguagem; e há ainda muitos, alguns ainda como um embrião em bairros periféricos de Belém.
A história do coletivo que realiza o Sarau Multicultural do Mercado de São Brás é um bom exemplo de como essas ações começam, se multiplicam e podem ganhar força na cidade. Jorge André Silva, um de seus integrantes, conta que tudo começou com ações realizadas em novembro de 2013 em comemoração ao mês da Consciência Negra, com palestras e ações culturais na Terra Firme, Canudos e Guamá. “Foi aí que a gente propôs uma atividade de culminância, no Mercado de São Brás, para reunir as pessoas envolvidas nessas ações, o que acabou juntando gente de diversas linguagens”.
Exibição de filmes, lançamento de documentários, ações inter-religiosas, até um encontro de movimentos de resistência já fizeram da programação mensal. “Se tornou um excelente espaço para apresentar tanto artistas consagrados como novos artistas – um deles foi o rapper Pelé do Manifesto. A gente entende que a cidade perde muito por não ter uma política cultural inclusiva, mantendo espaços de uso comum. Acreditamos que deveria haver incentivos reais e não só a Lei Tó Teixeira (lei municipal de incentivo à cultura em Belém)”, destaca Jorge.
Hoje, eles também colaboram com outras ações parecidas, como o Palco Aberto, na Praça da República; saraus realizados em Icoaraci e na Marambaia; com o projeto Circular Campina Cidade Velha; e com programações feitas em parceria com o coletivo Casa Preta, na Terra Firme. Além disso, no Sarau do Mercado há a confluência de coletivos de skate, de dança de rua e grupos como o que faz a Batucada da Praça da República.
“Queremos continuar expandindo, que outros saraus ocorram, queremos lançar mais artistas e fazer de São Brás uma área de convergência e resistência, gerando essa cena cultural longe da lógica centralizadora imposta pela Fumbel (Fundação Cultural do Município de Belém)”, destaca Jorge.
"Como um coletivo que vem da periferia, é possível ter essa visão de dentro para fora e entender que a única forma de continuar é viver em coletivo”, Verônica Limma, artista visual, do Coletivo Pitiú (Foto: Reprodução/Facebook)
Sem intermediários, arte chega na comunidade
Do outro lado da cidade, outro espaço também passou a receber novos olhares a partir da atuação conjunta de artistas de diversas linguagens: o Porto do Sal. “Trabalhei durante cinco anos pesquisando gravura em metal em grande escala, nessa metalúrgica (Santa Terezinha). Quando encerrei o ciclo, quis mostrar as obras no próprio lugar e tive a ideia de fazer uma ocupação. Como o galpão dela é imenso e tem potencial para outras coisas, chamei pessoal do choro, artistas visuais, performance, teatro”, conta a artista visual Elaine Arruda, relembrando o germe de criação do coletivo Aparelho.
Foram três ocupações na metalúrgica Santa Terezinha até que ela achou mais interessante ir para o Mercado do Sal, logo em frente, um pedido dos feirantes que queriam viver também aquela programação de arte. “Foi quando amadureceu e a gente entendeu que aquilo seria um trabalho de arte e cidadania. Não perdeu a característica de trabalhar com várias linguagens artísticas, mas passou a ter também uma linguagem forte com educação, oficinas com as crianças que moram ali”, afirma Elaine.
Com tantos artistas juntos, natural que dentro de um coletivo maior existam outros grupos. É o caso do Pitiú, formado em 2014 pelas artistas visuais Débora Oliveira, Verônica Limma e Vivian Santa Brígida. “O Aparelho é encontro de vários artistas, muitos deles com grupos paralelos, e que se uniram ali pela potencialidade que o Porto do Sal tem”, comenta Elaine. “A experiência é gratificante. Quando a gente inaugurou a biblioteca no Mercado do Sal, alguns moradores tinham receio, ficavam imaginando o que a gente queria lá, agora estão mais próximos e têm esse contato com o que a gente produz. Está sendo maravilhoso pra gente”, comenta Vivian.
Verônica destaca essa atuação com o Pitiú: “A gente mora em bairros próximos, Marambaia, Val-de-Cans e Bengui.
Produzindo juntas, temos como compartilhar material. E isso tudo convergiu para criar um coletivo. Além disso, sim, a gente se comunica entre grupos. Somos abertas para discutir várias questões como arte, mas também gênero, violência, o abandono das pessoas que vivem à margem, algo que veio com o convívio no Porto do Sal. Como um coletivo que vem da periferia, é possível ter essa visão de dentro para fora e entender que a única forma de continuar é viver em coletivo”.
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
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