Herivelto Martins, um dos fundadores da escola de samba Bole Bole, lembra-se com nostalgia de quando o Carnaval em Belém era um dos mais glamourosos do Brasil. As escolas tinham um generoso subsídio e era possível criar desfiles que impressionavam o público e que animavam as torcidas. De acordo com o médico e autor do livro “Carnaval Paraense”, Alfredo Oliveira, nesse período a capital paraense só ficava atrás de São Paulo e Rio de Janeiro, e tinha seu Carnaval comparado ao das capitais do Sudeste.
Este ano, sem desfile oficial - cancelado pela Prefeitura -, Herivelto lamenta que não se possa reviver os tempos de outrora. “Vontade não falta, mas falta recurso. Íamos para a Doca, eram montadas arquibancadas e camarotes, tinha até concurso do camarote mais enfeitado. Os ingressos eram vendidos na Escola de Educação Física e as pessoas faziam filas para comprar. Depois tiraram o desfile de lá e foi para a Pedreira”, recorda.
Ele conta que a década de 1980 foi muito especial e proporcionou a aproximação de diversas escolas e carnavalescos com escolas do Rio de Janeiro, gerando, além de parcerias musicais, intercâmbios profissionais. Herivelto revela que alguns colegas que vieram de terras cariocas ficaram por aqui até hoje, formaram famílias e residem na capital paraense. Nomes importantes na história do Carnaval brasileiro também deixaram suas marcas por aqui. “O Joãozinho Trinta e o Laíla, que é da Beija-Flor, vinham muito aqui. O Rancho trazia cantores de fora, além de mestre-sala e porta-bandeira, para se apresentarem. O Carlinhos de Pilares era o cantor da Arco-Íris e Dominguinhos do Estácio vinha também. A gente fazia muitas parcerias”, relembra, saudoso.
Herivelto diz que até hoje os integrantes das escolas de samba de Belém ainda têm fortes ligações com outros sambistas da capital carioca. “Algumas pessoas se destacavam e também acabavam indo para lá, atuar na área de decoração. Elogiavam o nosso trabalho e, durante um tempo, levaram até os nossos materiais para reaproveitar no Rio. Agora passaram a usar [os materiais e profissionais] de Parintins, no Amazonas”, frisa.
Blocos
Essa saudade dos velhos carnavais não se resume apenas ao desfile das escolas de samba. Herivelto rememora também um tempo em que se podia sair de casa sem medo pelas ruas, nos blocos, quando não havia violência em qualquer esquina. Ele comenta que as pessoas saíam com fantasias e brincavam com suas turmas pelas esquinas e praças, e lamenta que, apesar de o carnaval de rua ainda ocorrer, não se tenha mais a mesma segurança.
“Antes de virar escola de samba, a Bole Bole era um bloco e a gente saía do Guamá em conjunto com outros blocos. Fazíamos um balão andando até a Praça da República, sem nenhuma confusão, sem ouvir nenhum tipo de assalto, morte, essas coisas. Hoje é muito perigoso”, diz.
E recorda: “Cantávamos nossos sambas, os do Rio também, e não tinha carro som, cantávamos na goela, repetíamos cinco vezes e todo mundo cantava, a tradição de bloco era essa. Tinha o bloco d’A Grande Família, o Vila Farah, Xavante...”, enumera, pedindo num tom de esperança: “Quem sabe não olhem de novo para o Carnaval com mais carinho? A gente resiste”, finaliza.
(Dominik Giusti)
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