As pessoas costuma dizer que a comida do Ver-o-Peso não presta. Mas aqui tem muita cozinheira, sim. Eu tenho orgulho de ser boieira”, diz dona Osvaldina Ferreira, 68 anos, há 46 no mercado temperando peixes, carne e frango, fazendo da tradicional comida caseira seu principal sustento. Engajada, ela é uma das organizadoras do “Ver-a-Boia”, que ocorre amanhã, das 9h às 15h30, evento de gastronomia popular, mas também um movimento político para não só comemorar os 390 do local, celebrado no último dia 27, mas também para cobrar melhorias para o local - visivelmente abandonado, sujo e sem reforma há pelo menos 15 anos.
“Queremos mostrar nosso dotes culinários. Cada uma tem seu tempero. E também é para levantar o Ver-o-Peso. Se nós mesmas não fizermos isso, aí que vai cair. Sou uma das mais antigas e uma coisa que gosto é de incentivar as meninas”, enfatiza, lembrando que também preza pelo local como uma forma de bem-estar. “Enquanto eu tiver vida e saúde, estou aqui. Não deixo de ir para a minha barraca, tenho meus fregueses, aqui fico brincando, me divertindo. Se ficar em casa, adoeço. Quando tiver bem velhinha eu paro”, comenta.
Evento busca valorizar mulheres que trabalham no setor de comidas do mercado. Dona Osvaldina Ferreira é uma das organizadoras do evento (Foto: Marcelo Lélis)
Natural de Ponta de Pedras, no Marajó, dona Osvaldina veio para Belém trabalhar em casas de famílias. Quando viu que tinha uma barraca para alugar na feira, falou com seu patrão e ele lhe deu meia grade de cerveja e meio maço de cigarro. Foi o bastante para que sua veia de comerciante se sobresaísse e, com o pequeno lucro das vendas, ela passou a comprar peixe e fornecer aos clientes também comidas. Entre as suas especialidades estão a moqueca de pirarucu, o peixe com molho de camarão (veja receita ao lado) e a chapa de mariscos.
“Fui criada com peixe, sei fazer de tudo. Para falar a verdade, já até fiz um curso, participei de palestras de culinária, mas nunca fui numa escola, e sei fazer muito bem. Sou o tipo da pessoa que aprende olhando, vou fazendo e acertando. Meus filhos ensinei assim e criei eles com honestidade de cozinhar. Tem gente que tem vergonha de dizer que trabalha aqui, mas eu tenho orgulho. O que consegui foi na feira”, destaca.
Hoje, dona Osvaldina comemora que tem fregueses de todo o Brasil, como Rio de Janeiro, São Paulo, Fortaleza, que quando estão de passagem pela capital paraense aproveitam para almoçar no Box 52. Toda pomposa, ela diz ter ainda clientes de Portugal, França e Japão. Parte da confiança na própria cozinha veio do incentivo do chef Paulo Martins, que começou a dialogar com as cozinheiras e as denominou de boieiras - já que preparam a “boia” do dia a dia de inúmeros trabalhadores do entorno e da área comercial.

Edição comemorativa terá comida e música O “Ver-a-Boia” é realizado pelas boieiras de forma independente com apoio de produtores culturais e estudantes universitários do Coletivo Cardume Criativo, do curso de Comunicação Social - Multimídia, da Faculdade Estácio. A primeira edição ocorreu em janeiro de 2016, com 10 cozinheiras e chefs profissionais. Nesta edição, cantores e artistas visuais se unem a 14 boieiras para comemorar o aniversário do Ver-o-Peso, como DJ Azul, Proyecto Cachonda (DJ Filipe Almeida), Ondas Tropicais (DJ Luan Rodrigues), Liège e as Filhas de Gal, Danniel Lima, Pedrinho Callado, Joelma Klaudia, Jeff Moraes, Nanna Reis e projeto Carimbozeira com Douglas Dias, Renata Del Pinho e Pedrinho Callado.
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(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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