Na companhia dos três filhos pequenos (de quatro, seis e sete anos de idade), a arquiteta Ana Laura Boullosa, 35, organizou um passeio muito aguardado por eles: assistir à versão live action de “A Bela e a Fera”. Os ingressos foram comprados pela internet e na hora de entrar na sala, ela foi orientada a esperar pelo gerente para uma conversa, pois a classificação indicativa do filme no Brasil é de 10 anos. “Como eles estavam comigo, nós entramos. Eles assistiram a todo o filme e acharam tudo normal”, afirma. Mas algumas mães em Belém teriam considerado que Ana Laura teve sorte. Muitas foram barradas em cinemas da cidade com crianças pequenas.
Em todo o mundo, a classificação etária do filme tem chamado mais atenção do que a atriz Emma Watson como protagonista. Por causa de uma suposta cena gay envolvendo o personagem LeFou, braço direito do vilão Gaston, a Rússia declarou “A Bela e a Fera” impróprio para menores de 16 anos. Na Malásia, o filme teve a estreia adiada pela Disney após uma proposta de corte da referida cena. No Brasil, a avaliação é feita por uma equipe ligada ao Ministério da Justiça que apontou o consumo de cerveja, a presença de armas e sangue, assim como agressões físicas.
Após a polêmica, o próprio Ministério da Justiça apontou que boa parte disso é “atenuado por contexto fantasioso” e que a classificação de “não recomendado para menores de 10 anos” é “uma indicação, uma informação aos pais, que poderão decidir se seus filhos podem ou não ter acesso à obra”. A analista de marketing paraense Marcelle Maruska, mãe da Ana Laura, de sete anos, considera o mesmo. “Acho que tudo é uma questão de bom senso. A gente sabe que não é a qualquer filme que pode levar os filhos”. Ela conta que, quando levou a filha para ver a nova versão de “Os Caça-Fantasmas”, uma conversa antes do filme pareceu ser o suficiente. “Disse que não era nada aterrorizante, que tudo era efeito de computador e achei que não seria um filme que ia afetá-la. Agora, se você tem uma criança que tem medo de escuro, sabe que não seria legal levá-la. Você deve conhecer o limite do seu filho e a educação que ele recebeu”, diz Maruska.
MPE e Tribunal de Justiça têm posições diferentes sobre o tema
A fonoaudióloga Luciana Pará conta que passou por um grande aperto com a filha, Raíssa, de 12 anos, quando tentou levá-la para ver “Os Vingadores”. “A gente perdeu 15 minutos de filme. E eu sinceramente não entendi essa censura de ‘A Bela e a Fera’. É uma produção da Disney, uma história que a gente conta para eles desde bem pequenos, eles vão a vários aniversários com esse tema.”
O marido dela, Israel Ataíde, diz que até entende que há uma diferença entre a mesma história em animação e em live action, mas também acredita que “os pais têm direito à última palavra”.
Marcelle Maruska conta que já teve de passar pela situação de estar com o filho e ainda assim ter que fazer uma autorização por escrito. “Tive que me autorizar a assistir com ele e assinar”, lembra.
Em Belém, o Ministério Público do Estado e a Defensoria Pública defendem a posição do Ministério da Justiça, que determina as classificações e as entende como uma “indicação”. No entanto, uma portaria do Tribunal de Justiça do Pará proíbe o acesso, ainda que acompanhados dos pais ou com autorização escrita. E cada cinema de Belém tem optado por obedecer a um ou outro órgão.
“Eu ainda não levei a minha filha para ‘A Bela e a Fera’, mas até joguei uma enquete no Facebook para saber onde as pessoas estavam tendo problemas para entrar com menores de 10 anos”, conta Maruska, que tinha sido recentemente barrada ao tentar assistir “Mogli” com a filha, mas entrou para ver “Minha Mãe é uma Peça 2”. “Entrei sem oposição nenhuma e tinha muita criança. Mesmo tendo vários palavrões ao longo do filme, eu considerei que ela, pela educação que teve, por saber que dentro da nossa casa ninguém chama palavrão, continuaria entendendo que isso é errado, e ela não saiu de lá falando assim”, relata.
Alguns pais ainda consideram que pode ser uma forma de conversar com os filhos sobre os temas que surgem na tela. “Não vi problema algum com a cena que dizem ser gay em ‘A Bela e a Fera’. As crianças pequenas nem costumam notar essas coisas, muita vezes está só na nossa cabeça de adulto. E, se meu filho tivesse notado, apenas conversaria com ele. É um tema que está aí e é melhor eu conversar com ele do que deixar que aprenda na rua”, diz Cecília Gomes, que conseguiu levar o filho, Cássio, de seis anos, para assistir ao lançamento com ela.
(Laís Azevedo/Diário do Pará)
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