Quando a escritora e produtora editorial Cristina Bend ainda cursava Letras, no fim de 1987, pensou que um dia faria um dicionário sobre circo. Era algo como uma intuição e, ao mesmo tempo, um desejo que ela nutriu ano a ano, ora com mais produção e engajamento, ora com pausas para outras atividades. Trinta anos depois, ela lança o site Circodata - Dicionário do Circo Brasileiro, que reúne, de forma sistematizada, como um dicionário digital, as pesquisas e registros realizados durante todo esse tempo sobre a tradição de lonas nos séculos 19 e 20.
São informações, por meio de verbetes, como árvore genealógica das famílias ligadas ao circo, fotos, biografias, glossário, com versões em português e inglês e tradução de texto para Libras, por meio do software ProDeaf. O projeto foi contemplado pelo Rumos Itaú Cultural (2015-2016) e pelo Prêmio Carequinha de Estímulo ao Circo, da Fundação Nacional de Artes (Funarte), e teve início quando Cristina finalizou o seu trabalho de conclusão da graduação em Teatro com o glossário, pesquisa que cresceu com a ajuda da internet e depois do mestrado com uma pesquisa sobre o circo na poesia de Carlos Drummond de Andrade.
A plataforma virtual, inspirada no Circopedia, já possui 1,4 mil verbetes redigidos, 60 famílias catalogadas, 12 árvores genealógicas, de até cinco gerações – onde é possível observar o grau de parentesco entre as famílias de circo a partir dos casamentos –, cerca de 50 fotografias com legendas e direitos autorais, glossário com 200 termos do picadeiro em português e em inglês, bibliografia com mais de 80 obras sobre o tema. “Acabou que não é só um dicionário, mas um sistema de informações sobre o circo. Além do mapeamento das famílias, também reunimos dados sobre artistas independentes que se ligaram a essas famílias e artistas do circo contemporâneo, que saíram das escolas de circo e formaram grupos, como por exemplo, os Irmãos Brothers e Acrobático Fratelli”, comenta Cristina, que cursou a Escola de Circo no Rio de Janeiro e tevea trajetória profissional pontuada pela relação com o picadeiro.
“Foi a minha experiência de vida. Acho que faltava um dicionário, como a palavra define, mesmo que isso possa soar enjoado, sabe? Entrei no circo já com 27, ou 28 anos, mas sabia que não ia ser artista de circo, então, o que iria fazer era o dicionário, já que vivia entre livros. Fiz o primeiro dicionário com 150 verbetes, mas depois larguei e só retomei em 1998. Foi quando percebi que estava tudo uma zona e precisava organizar”, diz.
A pesquisa foi realizada tanto consultando a bibliografia brasileira sobre circo, os próprios autores desses livros e com entrevistas com as famílias. Esta parte foi a mais demorada e mais prazerosa para Cristina Bend. Ela conta que mesmo insistindo em entrevistar alguns, não conseguiu, pela recusa do proprietário do circo. E aceita. “Temos que respeitar”, diz. “Por isso não pode ser considerada uma obra totalizadora. Ainda tem mais para pesquisar”, pondera.
Enquanto coordenadora, ela destaca que a obra foi realizada com muitos colaboradores, entre os ligados diretamente ao projeto, e outros ligados a instituições como o Centro de Memória do Circo, em São Paulo, ao lado de Verônica Tamaoki. Em uma próxima etapa, a pesquisadora pretende incluir informações sobre o circo na região Norte, passando por Belém e Manaus.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar