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Artesão transforma figuras de contos em bonecos

O artesão Ângelo Fonseca nasceu em Alenquer, oeste do Pará. Cresceu às margens dos rios. Mas foi depois de estudar e trabalhar em São Paulo e Salvador que percebeu que não conhecia como gostaria as lendas e encantos da tradição oral da Amazônia. Passou a

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O artesão Ângelo Fonseca nasceu em Alenquer, oeste do Pará. Cresceu às margens dos rios. Mas foi depois de estudar e trabalhar em São Paulo e Salvador que percebeu que não conhecia como gostaria as lendas e encantos da tradição oral da Amazônia. Passou a não somente pesquisar os causos de Boto, Iara e Matinta Perera, mas a ser um agente divulgador dessas histórias, confeccionando bonecos para representá-las, como brinquedos de pano capazes de agradar não só crianças.

O trabalho tem o objetivo de resgatar uma cultura que foi ficando esquecida entre os mais novos, em prol de uma indústria cultural de jogos eletrônicos. “Chega de caçar Pokémon”, critica o artesão.

O processo de feitura dos bonecos é todo manual, do corte do molde ao enchimento e criação dos personagens. “Meu objetivo é resgatar uma arte que existia e que sucumbiu com o aparecimento do plástico. Outrora, as pessoas faziam tudo à mão para as crianças, as roupas, as bonecas. Atualmente estou com mais de 50 personagens pesquisados. Nossa cultura popular é muito rica e praticamente nós não a conhecemos”, comenta.

Para suas pesquisas, ele visita bibliotecas, conversa com pessoas mais velhas pelos municípios do interior e também lê o que tem disponível na internet. Por conta própria, Ângelo também atua como ator e contador de histórias junto a crianças de rua e em projetos sociais para os quais é convidado.

Essa postura se deu principalmente após a sua passagem pela Bahia e por perceber que por lá o povo se orgulha da influência dos negros e luta para manter viva a sua cultura ancestral.

“Lá na Bahia, a cultura africana é coisa muito séria. E comecei a perceber que eu não tinha noção da minha própria cultura, da minha história de caboclo ribeirinho. Na Bahia, aprendi a valorizá-la. Depois de 40 anos, quando voltei ao Pará, percebi que o paraense não quer ser ribeirinho, nem caboclo, subestima a própria cultura. Pensei: gente, o que é isso? Somos donos de uma cultura fabulosa. Então tive a ideia de resgatar a tradição dos nossos antepassados com esses bonecos”, afirma.

Bonecos como a Iara são costurados e desenhados à mão. (Foto: Wagner Santana/Diário do Pará)

TALENTO QUE VEM DE FAMÍLIA

O artesão diz que costura desde pequeno e que aprendeu observando o pai, que também era artesão e sapateiro. “Esse talento eu tenho certeza que herdei de meu pai”, diz, em tom de comemoração.

Ângelo já fez bonecos como o Jurupari, Iara, Matinta Pereira, Curupira, Saci, Boto, Vitória Régia e Mapinguari. Para comercializar os produtos, ele também usa a sua habilidade do teatro, em uma performance. “Me apresento nos bares, faço um caboclo que vem do Baixo Amazonas entregar esses bonecos para Nossa Senhora, para que ela não esquecesse do povo de lá. A Iara reclama que acabaram com os rios porque construíram hidrelétricas, o Boto reclama que daqui a pouco não tem uma mocinha para ele namorar, a Matinta diz que não quer mais ser Matinta porque, quando ela se transforma em pássaro, vê a Amazônia lá de cima toda loteada! Então, eles pedem um milagre”, conta.

Atualmente, Ângelo desenvolve um projeto para confeccionar um Curupira em grandes dimensões para sair pelas ruas com as crianças. ‘Curupira porque ele é defensor das florestas”, explica. “A nossa cultura significa tudo para mim. Nós temos de lutar por ela para sermos vitoriosos na nossa identidade, para mantermos nossas tradições, valores, a nossa história. Estou estudando a Boiuna, as índias Amazonas e depois, quando eu concluir a pesquisa, eu faço o boneco. Os bonecos trazem a cor do caboclo, cabelo de índio. Você vê por aí a Iara loira de olhos verdes, mas como nesse sol da Amazônia?”, completa.

(Dominik Giusti/Diário do Pará)

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