Os dados mais recentes apontados na pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, coletados pelo Instituto Pró-Livro em 2015 e divulgados ano passado, mostram um número a se comemorar: mais da metade da população, 56%, tem o hábito de ler. Num país onde até o início do século 19 não se permitia ter livros impressos, é um avanço e tanto. O problema é que tipo de leitores estamos formando.
Para o professor e pesquisador na área da leitura João Luís Ceccantini, representante do Instituto Pró-Livro, que esteve semana passada em Belém para o lançamento do projeto “Livro Solidário”, há muito o que fazer no desenvolvimento de estratégias de incentivo à formação de leitores, levando em consideração novas práticas culturais e sociais e a forma de se consumir cultura.
Para tanto, ele diz, será preciso entender que os jovens leem, sim, mas não da mesma forma como os jovens de 50 anos atrás, e os mediadores de leitura, sejam professores ou a família, precisam se adaptar para fazer esse processo avançar.
Confira a entrevista:
Por que no Brasil é desafiadora a formação de leitores, tanto do ponto de vista institucional quanto pessoal?
Quando a gente pensa em livros, leitura e formação de leitores no Brasil, a complicação é muito maior do que se pode pensar de início, pois diz respeito à própria história do país. Não canso de lembrar que até 1808, o ano da chegada da família real, não se podia sequer imprimir um livro no Brasil. Isso deixou marcas, uma tradição de não-livros. Uma coisa vai puxando a outra. Ainda nas primeiras décadas do século 20 o país tinha pouquíssimas livrarias e índice de analfabetismo altíssimo, mais de 70% da população. Se formos comparar com outros países, que tiveram outros tipos de colonização, chegamos à conclusão que ainda estamos na “infância” desse letramento. Não se muda isso da noite para o dia.
O que nos dizem os índices e como interpretá-los?
Não vamos ser tão pessimistas. Em um século, conseguimos avanços e tanto, mas ainda falta muito. As pesquisas sobre analfabetismo funcional ainda assustam muito. Por mais que se tenha 90% de pessoas alfabetizadas, aproximadamente 75% ainda não fazem leitura plena. Apenas 8% têm leitura de excelência, com interpretação textual, de acordo com o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf). E o “Retratos de Leitura no Brasil”, pesquisa feita de quatro em quatro anos que teve última divulgação em 2016, mostra que há avanços. A gente fica entusiasmado. Há um percentual de 56% de leitores, mas ainda 44% fora do universo do livro, segundo dados do Instituto Pró-Livro, que tem a meta corajosa de aumentar o número de leitores. A leitura está associada a diversas outras questões do país, como o desenvolvimento econômico, inclusão social, e o instituto fez algo importante para nortear as políticas públicas, consegue ver o que está mudando. Será que as verbas públicas estão indo para os lugares certos, se estamos conseguindo mudanças, o que está sendo afetado... Também passamos a ter parâmetros para comparar com índices de países que têm história semelhante à nossa, importantes para gestão pública ou privada, para o mercado do livro.
E as políticas públicas para a leitura hoje?
É difícil falar de forma ampla, mas acredito que o maior problema hoje é que elas têm sido descontinuadas. Chega um grupo e inventa a roda todas as vezes. Temos que começar a pensar que políticas ligadas à leitura e ao livro não devem ser políticas de governo, mas políticas de Estado, para que o governo que se suceda se comprometa com o que está sendo desenvolvido junto às ONGs, empresas privadas, sociedade civil, associações, indústria do livro. Uma iniciativa muito importante, já tem 10 anos, mas não podemos deixar morrer é o Plano Nacional do Livro e da Leitura, que foi construído coletivamente com muita discussão. É uma pena que não esteja sendo plenamente implantado. Foi pensado a nível federal, mas governos e prefeituras se inspiram nesse plano, como modelo. Toca nas várias instâncias que temos que mobilizar para mudarmos o quadro da leitura. Melhorar a formação dos mediadores, sobretudo. Nos últimos 10 anos, o governo federal comprou toneladas de livros infantis e pôs nas escolas. As pessoas que ajudaram a montar o programa foram ver o que estava ocorrendo com esses livros e ficaram estarrecidas porque o material está sendo sub-utilizado, estão em caixas fechadas, estragando, sem que os professores nem as crianças ponham as mãos nos livros. E os mediadores, o repertório deles está deixando muito a desejar, professores, animadores culturais, a própria família.
Você fala que é um mito dizer que jovens não leem. Por que?
É uma bobagem dizer que os jovens são leem, mas isso está no senso comum. É o contrário, quem mais lê no Brasil são os jovens de 11 a 17 anos, e a escola não está sabendo lidar com isso. O mercado editorial aponta que o setor que mais cresceu foi da literatura juvenil. Talvez eles não leiam aquilo que a maioria das pessoas gostariam, os cânones da literatura, os clássicos da literatura brasileira que caem no vestibular. Agora o que as escolas têm feito é ignorar esse dado e não dialogam com os jovens. Têm estratégias muito ruins ou nenhuma para que os jovens leiam de forma qualitativa. O modo de propor e cobrar essa leitura não tem nada a ver como eles gostam. Existem gerações que associaram a leitura como uma atividade solitária, individual, ficar no quarto e fechar a porta. Mas os jovens querem uma leitura socializada, levar para a internet, saber se estão gostando, compartilhar, sendo mais protagonista que objeto das coisas. Tem como aproveitar a leitura com outras dinâmicas. Querem ler o livro do autor, ver o filme, jogar o game, ouvir a música da trilha sonora, usar as roupas, ler os quadrinhos. Então, existem esses entrelaçamentos, com modos de consumir cultura diferenciados. E a escola não está preparada para isso.
Projeto estimula doação de livros a comunidades
Com a proposta de fazer que os livros cheguem até mais pessoas por meio de mediadores capacitados, o projeto “Livro Solidário” receberá doações de livros na sede da Imprensa Oficial, no bairro do Marco, em Belém, e posteriormente fará doações do material à diversas comunidades. Amanhã, quando se celebra o Dia Nacional do Livro Infantil, o espaço de leitura do projeto será inaugurado no Polo Mangueirão, em Belém. A região das ilhas recebe no próximo dia 22 uma doação de livros, com contação de história e teatrinho infantil.
O projeto tem coordenação conjunta da secretarias estaduais de Educação (Seduc), Cultura (Secult) e Comunicação (Secom), juntamente com Fundação Cultural do Pará (FCP) e Imprensa Oficial e parte da ideia de que “Ler pode mudar a sua história. Compartilhe livros”. Entre as atividades previstas para este mês, estão oficinas de restauro e higienização de livros, de criação de histórias em quadrinhos, jornada pedagógica com formação e incentivo à leitura, brincadeiras indígenas, mostra literária, contação de histórias, exibição de filmes, palestras e diálogos temáticos, além da Biblioteca Arthur Vianna Itinerante, todas organizadas pela FCP.
VISITE
Pontos de Leitura do Projeto Livro Solidário
- Associação Assistencial Lar de Maria - Avenida Almirante Barroso, 33 - São Brás, Belém/PA
- Escola Estadual de Ensino fundamental Associação Cristã do Bengui - Travessa São Pedro, 50 - Bengui, Belém/PA
- ONG Viva Mosqueiro - Rua Juvêncio Silva, número 14 - Bairro Vila, Mosqueiro/PA
- Fasepa Benevides - BR-316, Km 25, Rodovia Augusto Meira Filho, s/n, Benevides/PA
Bibliotecas do Estado
- Biblioteca Arthur Vianna – Centur 2º e 3º andares. Reúne todo tipo de acervo. Endereço: Avenida Gentil Bittencourt, 650 - 2° Andar. Telefone/email: (91) 3202-4332 / cbpav@fcp.pa.gov.br
- Biblioteca Vicente Salles – Casa das Artes. Possui acervo da área de artes. Endereço: Praça Justo Chermont, 236. Nazaré. Telefone/email: (91) 4006-2940 / alex.siqueira@fcp.pa.gov.br
- Biblioteca Carmen Sousa – Oficinas Curro Velho. Possui acervo de arte e ofício. Endereço/email: Rua Professor Nelson Ribeiro, 287 – Telégrafo. Telefone: (91) 3184-9100 / nocv@fcp.pa.gov.br
- Biblioteca Francisco Mendes – Casa da Linguagem. Possui acervo de literatura. Endereço: Avenida Nazaré, 31 – Nazaré. Telefone/email: (91) 3110-2250 / gerenciaverbal@outlook.com
Projeto Livro Solidário - sede da Imprensa Oficial do Estado, na Travessa do Chaco, 2271. Marco. Telefone: 4009-7847 / email: livrosolidario@ioe.pa.gov.bra
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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