Vento, céu azul e um sol escaldante. Ainda assim, a orla do Portal da Amazônia, no bairro do Jurunas, em Belém, é ponto de encontro de quem é apaixonado pelas pipas, os nossos papagaios e abrigou, no fim de semana, um festival delas. Um brinquedo simples, que se basta com tala de madeira, um pouco de plástico ou papel de seda e um rabo que desliza pelos ares. A paixão do paraense é tanta que Belém tem até mesmo data especial para homenagear os empinadores: o Dia do Pipeiro, criado ano passado por meio da Lei Ordinária 9.264, e comemorado oficialmente no primeiro domingo de julho.
Henrique Silva, 17 anos, mora na Pedreira e sai todo fim de semana de casa para empinar papagaio no Portal. Ele começou a brincar com apenas cinco anos e diz que nunca mais parou. “É a minha paixão, o meu hobby. Tem gente que vem de Castanhal, do Maranhão. Já conheço. Desde moleque meu pai me colocava para empinar, quando vi já estava viciado. Saía de casa escondido, pulava muro, minha mãe brigava, mas essa é a minha diversão, não tem coisa melhor. Cheguei 8h e só saio quando escurecer”, disse, vidrado na sua pipa e com as mãos no fio durante o 2º Festival Nacional de Pipas.
(Foto: Desirée Giusti)
Morador do Guamá, Vitor Monteiro, 15 anos, estudante, já estava com o pescoço dolorido de tanto olhar para o alto. Mas não parava de correr e olhar os montes que coloriam os céus, em contraste com a água do rio, às margens do local da brincadeira. “Eu gosto muito de empinar pipa, sou doidinho, aprendi com meu irmão. Gosto de sair correndo quando cortam, a gente vê aquele monte de gente e quer pegar”, comenta.
Já Wellington Maia, açogueiro, 33 anos, aproveitou para pegar as pipas que estavam caindo e distribuir gratuitamente a quem chegava ao Portal. Ele diz sentir saudade da infância, da corrida nas ruas, do clima de disputa nos ares. “De vez em quando saía até uma confusão, um pega de um lado o outro pega de outro. Aqui nesse espaço, é maravilhoso. Trouxe até meu filho de 17 anos”.
Otávio Lima vende pipas e acessórios (Foto: Marco Santos)
Brincadeira que virou negócio
Otávio Lima, 34 anos, era vigilante e deixou o emprego para comercializar pipas. A brincadeira de infância, na Cremação, se transformou em negócio: após uma viagem para São Paulo, ele conheceu outros materiais, como as linhas chilenas - que possuem melhor durabilidade - além de equipamentos para profissionais e amantes das pipas, como carretéis de plástico e madeira que melhoram o momento de enrolar o fio.
“Carretilhas, linhas esportivas, rabiola de fibra, rabo de carbono, são evoluções do esporte e que proporcionam melhorias para empinar. Trouxe alguns materiais para Belém e quando me espantei, a procura por eles estava muito grande, comecei a vender e me deu renda maior que meu emprego. E sempre fui apaixonado por isso. Larguei o emprego e arrisquei. Hoje em dia sou empresário e vivo da pipa e desenvolvo meu trabalho com muito amor”, diz.
Além disso, Otávio também realiza campanhas para conscientizar que não se empine pipas próximo às linhas de energia elétrica. “A gente não quer que as pessoas vejam o pipeiro como vagabundo, mas como uma pessoa que gosta de se divertir com isso, é uma forma de lazer”, enfatiza.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar