Alunos de mestrado e doutorado do Programa de Pós graduação em História da Universidade Federal do Pará (UFPA) transformaram seus objetos de estudo em obras de arte. Assim, de um exercício de experimentação surgiu a exposição “Literal/mente”, que reúne obras-objeto em exibição desde sábado no Casulo Cultural. “Nesse fazer, obra de arte e objeto de pesquisa se encontram, se misturam, se confundem”, afirma Caroline Fernandes, professora e curadora da mostra.
O projeto integrou a disciplina Linha de Pesquisa II: Arte, Cultura, Religião e Linguagens ministrada no ano passado, e durante o curso foram propostos exercícios de deslocamentos para enfrentar debates sobre método e narrativa na escrita da história. “É possível encarar o próprio objeto a partir de um novo lugar, assumir papel diverso, ocupar outros espaços?”, questiona a professora/curadora.
O objetivo da experimentação era inspirar. “No sentido mais próximo do literal, inspirar implica em fazer entrar o ar. Um fazer que demanda ação no corpo, não na mente”, diz. “No fazer literal da inspiração, o corpo é convidado para desorganizar as ingerências da mente. Resistir não é um empreendimento da mente, é no corpo que a resistência acontece. Portanto, desconectados do corpo, os saberes produzidos são obedientes, convenientes. De tal modo, a finalidade da linha [de pesquisa] deixa de ser costurar. Ao contrário, quer desfazer suturas”, pontua.
(Foto: Divulgação)

“Tombei”, de André Andrade, fala da mudez do centro histórico que é desperta pela nudez do corpo. Arcângelo mostra que já não se sabe bem a precisão das coisas e sua semente de tucumã se agiganta na palma da mão (Foto: Divulgação)
“Literal/mente” traz a produção de Arcângelo Ferreira, André Andrade, Juliana Amorim, Heraldo Galvão Júnior, Branda Sales, Kauan Amora e Raynara Ribeiro. Nas obras é possível ver refletida essa inspiração a qual Caroline se refere, a partir do contato com a cidade e sua complexidade. Arcângelo, por exemplo, mostra que já não se sabe bem a precisão das coisas e sua semente de tucumã se agiganta na palma da mão. Já “Tombei”, de André Andrade, fala da mudez do centro histórico que é desperta pela nudez do corpo.
“Inventariando tradições na era das redes sociais, os nudes do André têm como epígrafe a música feminista de Karol Conka. Uma referência à cultura pop para interrogar o patrimônio sem pudor, já que é pra tombar”, diz a curadora.
História de perfumaria é o trabalho de Juliana Amorim, uma instalação que aborda as fronteiras entre o necessário e o secundário, o acessório, fútil. Por meio de um reencontro com as histórias em quadrinho da infância, Juliana afronta uma hegemonia masculinista e seus desmandos sobre o corpo, a arte, o passado. A mostra traz ainda a obra “Tempo”, com imagens de intervenção urbana; a instalação sonora, performance de Branda Sales; o curta-metragem “Entrevistas”, de Kauan Amora; e “Conspiração”, instalação de Raynara Ribeiro.
(Diário do Pará)
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