Quando dona Maria Miguel, de 67 anos, estava prestes a nascer, na vila de Maiuatá, interior de Igarapé-Miri, a sua mãe ouvira ao lado de fora da casa a procissão de São Miguel Arcanjo. Com as dores do parto, ela prometeu na mesma hora que, se tudo ocorresse bem e que se fosse menino, colocaria o nome do santo. Mesmo sendo uma menina, ela manteve a promessa pela boa hora. Quando criança, Maria Miguel ajudou a mãe a criar os irmãos. Depois se casou e teve quatro filhos. Apaixonada por arte, acabou deixando de lado essa vontade de ser uma artista.
A trajetória marcada por sacrifícios e abnegações foi transformada em dramaturgia e será encenada pelas próprias filhas de Maria Miguel, Marília e Marluce Araújo, ao lado da veterana Mariléa Aguiar, no espetáculo “Seren(A)idade”, que será apresentado hoje, às 20h, no Teatro Margaria Schivasappa, em Belém. A peça, contemplada com o Edital Pauta Livre, é a estreia do coletivo cênico Saias de Maria, que tem como objetivo contar a história de mulheres, causos de força e coragem. Coordenado pelas irmãs atrizes, a iniciativa começa com uma homenagem à própria genitora.
“Muitas vezes essas histórias bonitas ficam restritas a poucas pessoas, somente à família ou até mesmo à própria pessoa, que não desejou compartilhar sua trajetória. A nossa ideia é fazer teatro com essas memórias e lembranças. Neste primeiro trabalho, começamos fazendo entrevista com nossa própria mãe. E foi maravilhoso, ela se comoveu bastante e nós também. Vamos apresentar desde a infância, a juventude, a maturidade até a serena idade, que é como ela vive hoje”, diz Marília.
A atriz destaca que na infância a mãe sofria bullyng por conta do nome e que, até hoje, este fato a angustia. Esse momento será retratado com sutileza, já que o foco é em como dona Maria Miguel vive de forma independente hoje e, principalmente, retomando o contato com as atividades artísticas das quais esteve por muitos anos afastada, não completamente, mas também não tão envolvida como ela gostaria.
“Ela tentou ser artista. Cantou no coral da igreja, foi do pastoril, era florista e fazia também personagens. Se alguém faltasse, ela entrava no elenco. Mas, por conta da vida muita dura e sendo a mais velha dos irmãos, deixou alguns sonhos para trás e somente agora está realizando. Ela continua cantando no coral, foi miss da terceira idade. É a calmaria que ela queria para a vida dela”, revela a filha.
A peça é uma narrativa poética sobre a vida, em que as filhas, também com o músico Alê Nogueira, não apenas encenam a história da mãe, mas também cantam e dançam a ternura do seu viver. “‘Seren(a)idade’ é uma mistura de amores. Ver que somos artistas é, para ela, uma realização e pudemos ser atrizes porque ela nos deu essa oportunidade”, diz Marília Araújo.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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