plus
plus

Edição do dia

Leia a edição completa grátis
Edição do Dia
Previsão do Tempo 28°
cotação atual R$


home

_
_

Respeito à diversidade precisa ser entendido

Djamila Ribeiro acha mais didático falar em feminismos, assim, no plural, para deixar claro que as lutas pela igualdade de condições para as mulheres na sociedade não são homogêneas. Há o grupo das radicais, das anarquistas, das marxistas, das negras. E e

twitter Google News

Djamila Ribeiro acha mais didático falar em feminismos, assim, no plural, para deixar claro que as lutas pela igualdade de condições para as mulheres na sociedade não são homogêneas. Há o grupo das radicais, das anarquistas, das marxistas, das negras. E entender esses diversos recortes, ela lembra, é compreender que existem pautas diferenciadas para cada um desses grupos. Mulheres com mais privilégios, destaca a ativista e mestra em Filosofia, também podem ocupar o lugar de potenciais opressoras. Djamila, que já foi secretária adjunta de Direitos Humanos em São Paulo, esteve em Belém durante o Festival “M.A.N.A - Mulheres, Arte, Narrativas, Ativismo”, onde fez uma palestra sobre “Feminismos” e conversou com o caderno Você sobre as pautas do movimento e sua trajetória.

De família de militantes, ela diz que sua formação política se deu em casa, acompanhando os pais em protestos e associações de negros. Sua fala sobre feminismo é, portanto, fortemente voltada para a questão de raça - para ela, um recorte indissociável da questão feminista, assim como a discussão sobre classes sociais. Só assim é possível entender as diferenças abissais entre o que se compreende por um feminismo feito por mulheres brancas e o que as negras, historicamente atingidas por uma carga de preconceito ainda maior, reivindicam.

Ela lembra, sobretudo, da questão do sujeito - da mulher não apenas como alvo do pensamento, mas sujeito pensante. Anseia por novos caminhos, pela abertura de narrativas que potencializem a voz das mulheres e clama por novos marcos civilizatórios.

P Quando você fala sobre feminismo, aborda de maneira quase didática na verdade sobre feminismos. O que reside nesse plural?

R Existem várias correntes, vertentes, o feminismo negro, radical, anarquista, marxista, e não necessariamente as feministas vão concordar entre si. Pelo contrário, existem divergências dentro do seio do movimento, então feminismos é para mostrar como somos diversas e existem várias possibilidades de ser mulher, não existe um movimento único e homogêneo. Mas de forma geral, uma pauta que todas concordam é a luta para que a mulher seja reconhecida como sujeito, mas aí as linhas teóricas e políticas são divergentes. É bom saberem, pois às vezes as mulheres veem determinado feminismo que não concordam, mas não é motivo para deslegitimar toda a diversidade e luta política que esse feminismo carrega.

P E do ponto de vista da organização do feminismo enquanto organização política, o que você vê de diferença do que vem sendo historicamente construído pelas mulheres brancas e de maior poder aquisitivo com a pauta do movimento negro?

R Quando a gente fala mulheres, temos que nos perguntar de quais mulheres estamos falando. É importante dizer que as feministas negras foram as primeiras a questionar quem é esse sujeito do feminismo. E foram as primeiras a dizer que, se existem mulheres negras, necessariamente para ser feminista é preciso discutir racismo. Se existem mulheres lésbicas, é preciso se discutir a questão da homossexualidade. Isso mostra que não dá para universalizar a categoria mulher. É o primeiro ponto que elas trazem, e que mulheres que têm privilégios também podem cometer opressões com mulheres de outros grupos vulneráveis, e do quanto é importante ter esse olhar no movimento, para que se busque a emancipação, e não apenas de um grupo de mulheres que querem se emancipar, mas não romper com a lógica de opressão em relação a outros grupos.

P Qual a tua análise a respeito das mulheres trans nesse contexto?

R Existem algumas vertentes [feministas] que não consideram, que têm olhar mais biológico. Agora entendo que as mulheres trans são mulheres e, nesse sentido, o feminismo se desloca. Justamente é oprimida porque é assim [como mulher] que se apresenta para a sociedade. Se a gente não pensar essas outras categorias, que feminismo é esse que a gente quer? Não entender que a gente vive no país que mais mata travestis e transexuais no mundo e que essa é uma população extremamente vulnerável, eu acho preocupante, pelo simples fato de se ater a uma questão biológica, sendo que essas pessoas são tratadas como abjetas, excluídas, e têm a feminilidade como é construída na sociedade. Então, acho que a gente tem avançar e ampliar e não cair num discurso biologizante, que historicamente a gente vem combatendo.

P Como o feminismo pode ser útil para a formulação de políticas públicas, para solucionar questões pragmáticas, como a implementação de creches, por exemplo? Como se articulam as lutas para que tenhamos melhorias e sejamos reconhecidas como sujeito?

R Muitas políticas públicas para mulheres, por mais que sejam deficientes, são frutos do movimento feminista, nada veio de graça. A gente deve continuar se mobilizando e pressionando o poder público, porque creche, por exemplo, diz respeito à assistência estudantil. Isso infelizmente não é visto. Eu também sou mãe, sei que se você não tiver onde deixar o seu filho, você não estuda. Então, quem traz isso somos nós, quando a gente pontua isso e pressiona. E acho que as mulheres feministas, que querem fazer essa disputa - porque o feminismo não é só a política institucional, o que a gente faz também é um movimento político -, acho que devem também apoiar as candidaturas de mulheres que a gente sabe que têm a nossa pauta, pois não basta ser mulher, a representatividade pela representatividade. A gente sabe que existem mulheres com propostas extremamente conservadoras.

P Como você avalia a polêmica recente da Juliana Paes, representante da ONU, quando ela deslegitima o feminismo?

R Historicamente o que os homens machistas conseguiram fazer durante muito tempo foi demonizar o que é o feminismo, né? Como uma estratégia de manter as mulheres afastadas disso, alienadas de seu processo histórico. De uns tempos para cá, temos conseguido pautar isso, mas estamos em uma bolha. O resto do Brasilzão não tem ideia ainda do que significa o feminismo ou tem visão estereotipada. Acho que nos últimos tempos, por conta das redes sociais, a gente tem conseguido ampliar o discurso, porque entendemos que, na internet, com todos os limites, é o espaço em que podemos existir e disputar narrativas, inclusive pautar a mídia hegemônica. É recente essa transformação e fazer com que as pessoas entendam o que é feminismo, até as pessoas públicas se colocarem como feministas, que acho que é importante pelo sentido de desmistificar, mas vai existir o status quo para deturpar e dizer que isso não é importante. A gente precisa continuar se afirmando como feministas e não tem outro caminho possível. As pessoas ainda me perguntam: “ah, mas você é feminista?” Bem, se você é contra que a cada cinco minutos uma mulher seja estuprada, se é contra que ela seja violentada por ser mulher, então você também é feminista e não sabe. A narrativa hegemônica ainda é de colocar as feministas de maneira pejorativa. É um problema histórico e estrutural, que precisamos observar.

(Dominik Giusti)

VEM SEGUIR OS CANAIS DO DOL!

Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.

Quer receber mais notícias como essa?

Cadastre seu email e comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Conteúdo Relacionado

0 Comentário(s)

plus

    Mais em _

    Leia mais notícias de _. Clique aqui!