Djamila Ribeiro acha mais didático falar em feminismos, assim, no plural, para deixar claro que as lutas pela igualdade de condições para as mulheres na sociedade não são homogêneas. Há o grupo das radicais, das anarquistas, das marxistas, das negras. E entender esses diversos recortes, ela lembra, é compreender que existem pautas diferenciadas para cada um desses grupos. Mulheres com mais privilégios, destaca a ativista e mestra em Filosofia, também podem ocupar o lugar de potenciais opressoras. Djamila, que já foi secretária adjunta de Direitos Humanos em São Paulo, esteve em Belém durante o Festival “M.A.N.A - Mulheres, Arte, Narrativas, Ativismo”, onde fez uma palestra sobre “Feminismos” e conversou com o caderno Você sobre as pautas do movimento e sua trajetória.
De família de militantes, ela diz que sua formação política se deu em casa, acompanhando os pais em protestos e associações de negros. Sua fala sobre feminismo é, portanto, fortemente voltada para a questão de raça - para ela, um recorte indissociável da questão feminista, assim como a discussão sobre classes sociais. Só assim é possível entender as diferenças abissais entre o que se compreende por um feminismo feito por mulheres brancas e o que as negras, historicamente atingidas por uma carga de preconceito ainda maior, reivindicam.
Ela lembra, sobretudo, da questão do sujeito - da mulher não apenas como alvo do pensamento, mas sujeito pensante. Anseia por novos caminhos, pela abertura de narrativas que potencializem a voz das mulheres e clama por novos marcos civilizatórios.
P Quando você fala sobre feminismo, aborda de maneira quase didática na verdade sobre feminismos. O que reside nesse plural?
R Existem várias correntes, vertentes, o feminismo negro, radical, anarquista, marxista, e não necessariamente as feministas vão concordar entre si. Pelo contrário, existem divergências dentro do seio do movimento, então feminismos é para mostrar como somos diversas e existem várias possibilidades de ser mulher, não existe um movimento único e homogêneo. Mas de forma geral, uma pauta que todas concordam é a luta para que a mulher seja reconhecida como sujeito, mas aí as linhas teóricas e políticas são divergentes. É bom saberem, pois às vezes as mulheres veem determinado feminismo que não concordam, mas não é motivo para deslegitimar toda a diversidade e luta política que esse feminismo carrega.
P E do ponto de vista da organização do feminismo enquanto organização política, o que você vê de diferença do que vem sendo historicamente construído pelas mulheres brancas e de maior poder aquisitivo com a pauta do movimento negro?
R Quando a gente fala mulheres, temos que nos perguntar de quais mulheres estamos falando. É importante dizer que as feministas negras foram as primeiras a questionar quem é esse sujeito do feminismo. E foram as primeiras a dizer que, se existem mulheres negras, necessariamente para ser feminista é preciso discutir racismo. Se existem mulheres lésbicas, é preciso se discutir a questão da homossexualidade. Isso mostra que não dá para universalizar a categoria mulher. É o primeiro ponto que elas trazem, e que mulheres que têm privilégios também podem cometer opressões com mulheres de outros grupos vulneráveis, e do quanto é importante ter esse olhar no movimento, para que se busque a emancipação, e não apenas de um grupo de mulheres que querem se emancipar, mas não romper com a lógica de opressão em relação a outros grupos.
P Qual a tua análise a respeito das mulheres trans nesse contexto?
R Existem algumas vertentes [feministas] que não consideram, que têm olhar mais biológico. Agora entendo que as mulheres trans são mulheres e, nesse sentido, o feminismo se desloca. Justamente é oprimida porque é assim [como mulher] que se apresenta para a sociedade. Se a gente não pensar essas outras categorias, que feminismo é esse que a gente quer? Não entender que a gente vive no país que mais mata travestis e transexuais no mundo e que essa é uma população extremamente vulnerável, eu acho preocupante, pelo simples fato de se ater a uma questão biológica, sendo que essas pessoas são tratadas como abjetas, excluídas, e têm a feminilidade como é construída na sociedade. Então, acho que a gente tem avançar e ampliar e não cair num discurso biologizante, que historicamente a gente vem combatendo.
P Como o feminismo pode ser útil para a formulação de políticas públicas, para solucionar questões pragmáticas, como a implementação de creches, por exemplo? Como se articulam as lutas para que tenhamos melhorias e sejamos reconhecidas como sujeito?
R Muitas políticas públicas para mulheres, por mais que sejam deficientes, são frutos do movimento feminista, nada veio de graça. A gente deve continuar se mobilizando e pressionando o poder público, porque creche, por exemplo, diz respeito à assistência estudantil. Isso infelizmente não é visto. Eu também sou mãe, sei que se você não tiver onde deixar o seu filho, você não estuda. Então, quem traz isso somos nós, quando a gente pontua isso e pressiona. E acho que as mulheres feministas, que querem fazer essa disputa - porque o feminismo não é só a política institucional, o que a gente faz também é um movimento político -, acho que devem também apoiar as candidaturas de mulheres que a gente sabe que têm a nossa pauta, pois não basta ser mulher, a representatividade pela representatividade. A gente sabe que existem mulheres com propostas extremamente conservadoras.
P Como você avalia a polêmica recente da Juliana Paes, representante da ONU, quando ela deslegitima o feminismo?
R Historicamente o que os homens machistas conseguiram fazer durante muito tempo foi demonizar o que é o feminismo, né? Como uma estratégia de manter as mulheres afastadas disso, alienadas de seu processo histórico. De uns tempos para cá, temos conseguido pautar isso, mas estamos em uma bolha. O resto do Brasilzão não tem ideia ainda do que significa o feminismo ou tem visão estereotipada. Acho que nos últimos tempos, por conta das redes sociais, a gente tem conseguido ampliar o discurso, porque entendemos que, na internet, com todos os limites, é o espaço em que podemos existir e disputar narrativas, inclusive pautar a mídia hegemônica. É recente essa transformação e fazer com que as pessoas entendam o que é feminismo, até as pessoas públicas se colocarem como feministas, que acho que é importante pelo sentido de desmistificar, mas vai existir o status quo para deturpar e dizer que isso não é importante. A gente precisa continuar se afirmando como feministas e não tem outro caminho possível. As pessoas ainda me perguntam: “ah, mas você é feminista?” Bem, se você é contra que a cada cinco minutos uma mulher seja estuprada, se é contra que ela seja violentada por ser mulher, então você também é feminista e não sabe. A narrativa hegemônica ainda é de colocar as feministas de maneira pejorativa. É um problema histórico e estrutural, que precisamos observar.
(Dominik Giusti)
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