Foi na década de 1970 que ela surgiu pelas bandas daqui. O nome foi dado por um radialista, Haroldo Caraciolo, para se referir às músicas que surgiam nas rádios vindas de lugares como Dominica e Martinica e que eram fortes e dançantes como uma chicotada, ou uma dose de cachaça. Mas foi na década de 1990 que a lambada ganhou o mundo tendo como maior representante a banda Kaoma, formada por franco-brasileiros e que tinha como musa Loalwa Braz, que entrou no Livro do Recordes como a voz mais tocada no mundo, com a música “Chorando se Foi”.
No Pará, ela sempre esteve presente na música. Ainda na década de 1970, um agricultor de Barcarena, Mestre Vieira, criou a guitarrada, a lambada instrumental, e daí surgiram vários mestres, como Aldo Sena e Solano, e discípulos mais recentes, como Pio Lobato, Félix Robatto e Lucas Estrela. Há cinco anos, a lambada ganhou nova força na cena brasileira e vem se reinventando com versões de DJs que tocam o gênero em pistas de dança de todo o Brasil e com artistas como o duo alagoano Figueroas.
Formado por Givly Simons (vocal) e Dinho Zampier (orgão, sintetizador e arranjos), o Figueroas é atração de hoje na noite que comemora um ano da “Lambateria”, festa de música paraense realizada toda quinta-feira em Belém, e que conquistou público fiel que comparece para dançar ao som da guitarrada, merengue, cumbia, carimbó, brega e muita lambada.
“Sou fã do Figueroas pelo trabalho deles e pela pesquisa profunda que eles fazem da lambada, o que percebemos no som que apresentam. É irreverente, mas muito musical. Ter eles aqui é uma forma maravilhosa de comemorar o aniversário dessa festa que está no calendário da cidade”, diz o idealizador da festa, o guitarrista Félix Robatto.
Em 2015, o duo lançou “Lambada Quente” (Läjä Records/Deck), o primeiro álbum que mistura a lambada paraense a sons latinos e brasileiros com a psicodelia e as influências próprias, como as do Mestre Vieira, Aldo Sena e do grupo caribenho Les Aiglons. Em fevereiro deste ano, chegou o novo álbum, “Swing Veneno” (Läjä Records/Deck), que traz melodias aceleradas, recheadas de frases de guitarra, efeitos de teclado e letras pegajosas, tendo a lambada sempre presente, misturada a gêneros que a influenciaram, como a cumbia, o carimbó e o brega. Para a noite de hoje, Givly Simons e Dinho Zampier vão misturar repertório dos dois discos, garantindo sucessos como “Fofinha”, “Melô do Jonas” e “Lomba da Massa”.
“Esta é a segunda vez que a gente vem a Belém, a terra de onde vieram vários ídolos da gente, inspiração musical do nosso trabalho. A gente sempre aproveita a viagem para se aprofundar na pesquisa sobre a música paraense”, revela Givly.
“Nossa vinda é bacana não só por poder divulgar o trabalho, mas também porque é meio que laboratório, porque podemos conversar com pessoas que têm uma vivência muito maior com essa música latina, com tudo isso que norteia o trabalho do Figueroas”, explica Dinho.
Mas a noite será longa: começa com a tradicional roda de carimbó do grupo Os Safos da Capital, criado especialmente para a “Lambateria”, e que completa um ano junto com a festa. “Não considero uma festa, mas uma manifestação, porque agrega vários artistas do cenário paraense, e é resistência, porque coloca o carimbó, essa manifestação popular tão nossa, em um espaço nobre da cidade”, analisa Douglas Dias, percussionista que está à frente do grupo, e que lembra que foi na festa que surgiu também a Orquestra Pau e Cordista de Carimbó, que acaba de lançar um EP virtual, com produção musical de Félix. A programação segue com Félix Robatto e seu Conjunto, com repertório latino-amazônico e sucessos de artistas como Les Aiglos, Mestre Vieira e Aldo Sena, além de suas músicas autorais, como “Eu Quero Cerveja” e “A Gente Chama de Lambada”. A discotecagem é comandada por Zek Picoteiro - também produtor cultural e um dos sócios da festa -, misturando grandes sucessos dos bailes dançantes da Amazônia.
Festa movimenta a economia musical de Belém
Há 53 semanas ininterruptas em cartaz, a “Lambateria” virou parada obrigatória para quem quer curtir e conhecer música paraense. Pelo palco, já passaram mais de 300 artistas e a festa já recebeu mais de 10 mil pessoas. A cada semana, as atrações residentes dividem o palco com os convidados. Ao longo do primeiro ano, já participaram artistas como Lia Sophia, Dona Onete, Pinduca, Strobo, Felipe Cordeiro, Rei Solano, Os Dinâmicos (primeiro banda do Mestre Vieira), Gang do Eletro, Nelsinho Rodrigues, Lucas Estrela e Liège e também atrações nacionais, como a Orquestra Contemporânea de Olinda (PE), Emília Monteiro (DF) e Flávio Renegado (BH). Nela, surgiram dois importantes projetos musicais da cidade: o grupo Os Safos da Capital, que completou um ano junto com a festa, e a Orquestra Pau e Cordista de Carimbó que foi destaque no festival Se Rasgum de 2016 e vem fazendo grandes bailes de carimbó pela cidade.
Apesar de toda essa constelação, a festa tem como único apoiador o público. Ela é paga com o valor do ingresso, que varia de R$ 15 a R$ 25. “Aqui na festa fizemos muitos amigos, pessoas que vêm toda semana e que, quando faltam, pedem desculpas. Isso é muito bacana! São essas pessoas que patrocinam esse projeto. Para esse próximo ano, queremos viabilizar a participação de artistas de outros municípios, que é um dos nossos sonhos, colocamos no palco a música paraense como um todo”, adianta Félix Robatto.
Apesar de ser uma festa de música regional e ter presença de turistas, a casa está sempre cheia de paraenses que aproveitam o repertório para dançar. Figuras como seu Godofredo, presença certa em todas as edições, e para o qual as moças fazem fila para dançar. Não à toa, ele ganhou uma música de Félix, que está em seu último disco, “Belemgue Banger”.
Mês de festa
Depois do encontro de Sammliz e o brega de Nelsinho Rodrigues, da tecnoguitarrada de Lucas Estrela com a música erudita-pop do cantor Afonso Cappelo e do duo Figueroas com Félix, a programação de aniversário segue animada durante todo o mês. Na próxima quinta-feira, dia 23, acontece a “Noite Junina”, com a banda Forró das 3 e Meia, que recebe a cantora e compositora paraense Lariza Xavier, e com o reencontro da banda La Pupuña. Encerrando o mês de aniversário, na última quinta de junho, dia 30, o evento realizará mais um encontro inédito: a Orquestra Pau e Cordista de Carimbó e a Orquestra de Violoncelistas da Amazônia vão mostrar uma mistura entre a música erudita com a cultura popular.
SERVIÇO
“Lambateria#1 ano”, com Figueroas (AL), Félix Robatto, Os Safos da Capital e DJ Zek Picoteiro
Quando: Hoje, a partir das 20h
Onde: Fiteiro (Av. Visconde de Souza Franco, 555)
Quanto: R$ 30 (até 22h59) e R$ 35, com vendas antecipadas no www.sympla.com.br
Informações: (91) 98026-1595
(Sônia Ferro)
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