Apaixonada por cordões de pássaros, dona Teonila Ataíde saiu de Santo Antônio do Tauá, município do nordeste do Pará, e veio morar em Icoaraci, distrito de Belém. Em 1971, inspirada nas tradições de sua terra natal, criou o Pássaro Beija-Flor, que hoje se chama Pássaro Colibri e tem como guardiã a sua filha, Laurene Ataíde. À esta coube a missão da manter viva a cultura popular, atendendo à mãe, que antes de falecer em 1998, pediu que a brincadeira não findasse. E assim Laurene mantém suas atividades no distrito de Outeiro e não somente com as ações artísticas, mas também com atividades sociais que envolvem toda a comunidade.
Este mês, ela coordena o 1º Circuito Regional do Cordão de Pássaro Colibri de Outeiro, que já passou pela Casa das Artes e pelo Teatro Waldemar Henrique, e hoje terá apresentações na Fundação Escola Bosque.
Na próxima terça (20) o circuito segue para o Teatro Margarida Schivasappa, com os pássaros Tangará, Bigodinho, Pipira, Colibri, Uirapuru, Rouxinol, Boi Ametista e Misterioso. No domingo (25) será no Arraial de Outeiro, e no dia 28, no Lar dos Idosos. Em São Caetano de Odivelas, as apresentações acontecem dia 30, e em Vigia, dia 1º de julho. A entrada é gratuita.
“Minha mãe trabalhou muito e batalhou para criar três filhos. A maior alegria dela era o pássaro. Fazia tudo por conta própria. O primeiro texto do Colibri, ‘Os Poderes de uma Feiticeira’, ela mesma escreveu. Depois escreveu ‘Loucuras de uma Paixão’. E eu aceitei o pedido dela. Originalmente, o nome que ela deu era Beija-Flor, mas quando fui inscrever na associação folclórica para formalizar, já tinha um com esse nome e assim mudei para Colibri. Mas mantemos toda a tradição deixada por ela”, diz Laurene Ataíde.
O Pássaro Colibri reúne hoje aproximadamente 35 pessoas, que se revezam como atores e também cumprem outras funções para mantê-lo vivo. São filhos, sobrinhos e vizinhos de Laurene que, na época junina, mobilizam-se conjuntamente para tocar as demandas. “Também fazemos oficinas de teatro, dança, serigrafia, reciclagem, com várias abordagens para os jovens. Agora, ofertamos também capacitação audiovisual. Fazemos exposições no espaço e viajamos para mostrar nossa cultura”, conta a guardiã.
Em 2012, o Pássaro Colibri esteve no Maranhão e em 2015 foi a quatro cidades do Ceará. Ano passado, conseguiu realizar o tão sonhado Festival de Pássaros no Teatro Estação Gasômetro, na capital paraense, que já tem data marcada para ocorrer novamente, de 21 a 27 de agosto.
“Fazemos oficinas de teatro, dança, serigrafia, reciclagem, com várias abordagens para os jovens.”, Laurene Ataíde, guardião do Pássaro Colibri (Foto: Divulgação)
Guardiã do Colibri incentiva retomada de grupos antigos no interior do Pará
Há quase 20 anos coordenando o Pássaro Colibri de Outeiro, Laurene também viaja para outros municípios no interior do estado para resgatar, manter e criar outros grupos. Ela conta que em algumas cidades, há muitas décadas os pássaros estavam parados, como em Portel, onde o Pássaro Tucano não se apresentava há 24 anos, e em Bagre, onde uma garça estava parada há 16 anos. Em Abaetetuba, o pássaro A Garça Briosa, ficou 52 anos apenas na memória do povo.
“Eu fui em Barcarena e foi muito bonito, só três senhores e uma senhora ainda se lembravam. E chamamos ele e a comunidade, foram 68 pessoas interessadas em reviver o pássaro. Assim conseguimos botar de novo para brincar”, diz Laurene, orgulhosa.
Ela conta que a maior dificuldade hoje são os altos custos de produção e de deslocamento de toda a equipe de um pássaro, o que muitas vezes inviabiliza a sua manutenção. Mas segue confiante e tem conseguido apoios importantes, como do Oi Futuro e Caixa Cultural, para manter seus pássaros em pleno voo.
ENREDO
O enredo do espetáculo do Colibri deste ano é em torno de um pássaro. “Nas Asas da Liberdade” conta a história de matutos que querem matar o pássaro para comê-lo. Mas uma princesa os avista e oferece alimentos em troca do pássaro vivo.
“Mas um caçador foi enfeitiçado e quer o pássaro porque a sua vida está ligada à dele. Se o pássaro morrer, ele também morre. Ele vai atrás da princesa e ela diz que não dará o colibri para ele, que não vai deixar que maltratem o pássaro. E aí eles se apaixonam. A feiticeira é presa e obrigada a desfazer o feitiço. E termina com uma grande festa de carimbó, com o baile de casamento da princesa e do caçador”, explica Laurene Ataíde, que diz se sentir horada de ter a sua ópera cabocla - como são chamados os cordões de pássaros - comparada a clássicos como “Romeu e Julieta” e “Tristão e Isolda” pelo professor da UFPA João de Jesus Paes Loureiro, pesquisador do assunto.
A guardiã aproveitou o momento final do espetáculo para homenagear a mãe, quando os versos do carimbó dizem: “Beija Flor nasceu na Vila Sorriso com dona Teonila, que hoje está no paraíso, menina, morena cabocla do meu Pará, venha dançar carimbó na festa popular”.
(Diário do Pará)
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