Em meio ao crescimento de Belém e a modernidade, o mês de junho ainda é aquele em que as tradições são levadas a sério. Afinal, há aqueles que fazem questão de manter o apego das homenagens aos santos deste mês, seja na dança, na música, na gastronomia ou até mesmo na religião.
No lar da dona de casa Rosa Cruz, 53, todo dia de santo de junho é dia de mingau. Para a família dela, amigos e vizinhos do bairro da Terra Firme, onde ela mora. Há pelo menos 10 anos ela repete o hábito, e quem frequenta a casa dela garante que ela mesmo se “chateia” com quem falta à tradição de pelo menos provar um pouco de uma das iguarias mais queridas das festas juninas.
Diferente de muitos, ela não pegou o gosto por oferecer o mingau dos tempos dos avós ou coisa assim. Ela simplesmente gosta de, nesse momento do ano, ajudar a manter um costume mais do que delicioso. “Eu gosto, é algo meu. Acho super importante a gente manter vivo um costume desse. O pessoal da rua até já sabe, nem preciso mais chamar!”, diverte-se.
SEM NOVIDADES
Músico e produtor cultural, Junior Leão, 48 anos, há 5 dirige a quadrilha Reino de São João, representante do bairro do Guamá nos concursos locais de grupos juninos. Torcendo o nariz de muita gente, ele e sua equipe não se importam de serem vistos como contrários às novidades. A intenção é essa mesmo. Nos passos ou nas vestimentas, tudo segue as tradições de outrora. “Não somos estilizados”, reforça. “Nossa quadrilha não tem brilho e nem pedraria nas roupas. É tudo como antes, para manter as raízes”, justifica ele.
As principais dificuldades o músico enfrenta diante do próprio público e de outras pessoas que também militam pela cultura. “Às vezes a pessoa vê algo novo, acha bonito e pensa: ah, vou incluir isso, vou somar isso aqui e ali, e em vez de modernizar, acaba descaracterizando um costume de décadas”, avalia ele, que integra um grupo de carimbó também avesso às “modernizações”. “Nossos instrumentos são de corda e na quadra junina, assim como no resto do ano, nos apresentamos com o carimbó de raiz, camisa branca, calça curta, saia rodada”, explica.
VAQUINHA E BRINCADEIRAS PARA MANTER A REZA

Na casa da Ana Silvia, a trezena não pode faltar. (Foto: Arquivo Pessoal)
E a religião também faz parte desses costumes juninos. A aposentada Ana Sílvia Moura, 61 anos, nem sabe dizer há quanto tempo que a trezena de São João é uma regra na família. “Acho que é até mais do que 50, 60 anos, porque vem da época do meu avô, que não deixava de fazer nunca.
Quando ele morreu, a família se uniu para não deixar que isso se acabasse”, revela. O “Seu Teté”, como era conhecido, é lembrado até hoje pelos moradores do bairro de Icoaraci, onde os 13 dias de reza se repetem, ano a ano. “Acho engraçado as pessoas às vezes nos encontrarem e ficarem surpresos de ver que não deixamos a tradição se acabar”, conta. Até os vizinhos ajudam e fazem a famosa “vaquinha” para que não falte lanche em nenhum dia de reza. A brincadeira das crianças também está garantida em meio à programação.
“Quando chega no fim de maio começam a bater em casa perguntando se vai ter trezena”, confirma ela, que chega a receber mais de 30 pessoas na casa por noite na sua residência. “Enquanto der e tivermos como, sempre vai haver a trezena, o costume vai se espalhando pela família”, faz questão de informar.
(Carolina Menezes/Diário do Pará)
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