Os apaixonados por poesia terão a oportunidade de conhecer de perto a iniciativa e intensa produção literária do grupo “Fundo de Gaveta”, que ficou conhecido em Belém no início da década de 1980. Formado então por jovens poetas, eles publicavam suas produções em páginas soltas, datilografadas e reunidas dentro de envelopes. Nesta quarta, seus seis integrantes originais participam do lançamento de mais uma tiragem da edição encadernada dos envelopes do “Fundo de Gaveta”, às 18h, na Fox.
Pode-se dizer que o grupo surgiu quando Vasco Cavalcante e William Silva, amigos e vizinhos, tiveram acesso, em 1980, a uma revista que falava sobre um grupo de poetas do Sudeste que produzia livros alternativos utilizando envelopes de papel. “Quando vi isso, me empolguei. A gente datilografava os poemas e montava o envelope trabalhado artesanalmente, pintava a base de vermelho, escolhemos o nome ‘Sangria’, e fizemos o lançamento na Casa da Juventude. Depois saímos vendendo pelas praças, bares, entre amigos, em eventos na universidade”, conta Vasco.
Após o resultado positivo da publicação, Vasco e William reuniram-se com Celso Eluan, Jorge Eiró e Zé Minino para montar um grupo de poesia para publicações alternativas e reuniões sistemáticas para conversas sobre poesia e artes em geral, todas as noites de segunda. Daí surgiu o “Fundo de Gaveta”, ao qual se uniu também Yru Bezerra. “Não era só publicação. Fizemos essas reuniões durante três anos, na casa do Jorge Eiró. Foi algo que nos alimentou muito, se criou um projeto mesmo, com grandes trocas de informações, em uma época que não se tinha internet e outras mídias. Todos nós líamos e trazíamos nossa leitura para as discussões”, lembra Vasco.
Nos tempos dos envelopes de poesia (Foto: Divulgação)
Nos tempos dos envelopes de poesia (Foto: Divulgação)
A capa da coletânea que lançam hoje (Foto: Divulgação)
O grupo produziu três envelopes poéticos, um por ano, de 1981 a 1983. Para o primeiro envelope, foram convidadas Aglair Porto e Te Ribeiro. No segundo, houve a proposta de abrir para mais poetas que enviassem seus trabalhos para aprovação. Daí entraram Haroldo Baleixe, Marupiara, Josette Lassance, Tinho, Almirzinho Gabriel (Gabriel Gabriel), Fernando Jatene, Fernando Escócio e Mapio. Em 1983, o terceiro envelope veio com a participação apenas de membros do grupo original. Cada lançamento trazia cerca de 20 poemas, agora todos reunidos na edição encadernada.
Além dos poemas, foram incluídas na nova edição imagens que ajudam a contar um pouco do que foi a produção do “Fundo de Gaveta”, como a reprodução das capas dos envelopes elaboradas por Jorge Eiró, hoje famoso como artista plástico, recortes de jornais da época, fotos antigas do grupo e de momentos importantes, como quando eles ganharam destaque na página de poesia “Grápho”, no jornal “A Província do Pará”, escrita pelo poeta paraense Age de Carvalho.
“Queríamos mostrar o que era o grupo, como eram essas publicações nos envelopes. Nós chegamos a ser chamados para participar de duas edições das coletivas literárias, evento que reunia grandes poetas para falar da literatura no estado. Estavam lá Ruy Barata, Acyr Castro, Paes Loureiro, Max Martins, Benedito Nunes, era a fina flor da literatura naquela época e nós estávamos lá”, lembra Vasco.
Com o tempo escasso dos integrantes para continuar as reuniões, o grupo naturalmente se desfez. “Acabou o ciclo. Mas a amizade continua forte até hoje”, diz Vasco. Prova disso, é que todos os seis “Fundo de Gaveta” estarão no lançamento de hoje.
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
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