Inspirado em imagens de Miguel de Cervantes, escritor espanhol conhecido pelo clássico “Dom Quixote”, publicado em 1605, o artista Heraldo Cândido passou a entralhar na madeira traços que lembrassem o que seriam as feições do autor. A xilogravura do paraense está exposta na mostra “Las Caras de Cervantes”, uma iniciativa da Godê, galeria de arte on-line e da cervantista Marta Rodriguez, curadora da exposição, montada até este sábado no Instituto Cervantes, em São Paulo.
Heraldo está entre os artistas brasileiros, espanhóis e latinos desafiados a recriar, em diferentes linguagens, o misterioso rosto do espanhol, que na obra “Novelas Ejemplares” define a si mesmo como um homem de nariz fino e longo, tal qual seu personagem mais célebre, o Cavaleiro da Triste Figura. Ao todo, são 21 trabalhos, com bordado, mosaico, aquarela e lambe-lambe.
“Foi um pouco complexo de início, então busquei referências, retratos, fiz uns esboços, mas vi que passava longe do que eu queria. Depois desenhei direto sobre a matriz, só que a imagem final é totalmente diferente. Não segui muito o esboço”, conta Heraldo Cândido.
A exposição apresenta também de versos de Miguel de Cervantes, selecionados pelo espanhol José Montero Reguera, profundo estudioso da obra do escritor, que colabora com o projeto desde a idealização do mesmo. É uma maneira de apresentar uma outra faceta de Cervantes, a de poeta, menos conhecida. A ideia é lembrar o quarto centenário da morte do autor, falecido em 1616.
Mostra em Belém
Morando em São Paulo, Heraldo Cândido prepara-se para expor em Belém, no Museu de Arte Sacra, em setembro. O vernissage de “Gráfica Colorida” está marcado para 5 de setembro, com impressões monocromáticas e geométricas em azul, vermelho, verde e amarelo - fruto da visualidade do Norte e da conexão, agora, com as dinâmicas da região Sudeste.
“Em Belém, eu coletava madeira pelas ruas e ia imprimindo sobre ela. Quando vim para São Paulo, essas imagens não construíam mais referência com a cidade. Com isso, passei a adotar a técnica de impressão japonesa chamada gyotoku. Percebi que que minha paleta era simples, mas não dialogava com a minha origem nortista, com as cores do brinquedo de miriti, dos barcos, coisas que lembram minha infância. Comecei a manipular essas cores e vi que ganhou potência”, diz.
(Dominik Giusti/Diário do Pará)
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